22 de jun de 2017

O TOP 8 de letreiros antigos que resistem no comércio de rua da Tijuca

Memória afetiva para uns, abandono para outros. Na Tijuca, muitos letreiros antigos ainda povoam as fachadas do nosso comércio de rua. Alguns deles já se tornaram de estimação tamanha a simpatia (inconsciente) aos quais muitos tijucanos lhes têm. Para identificar o quão antigo pode ser um desses letreiros, há pistas certeiras: é só observar o estilo das letras que destacam o nome do empreendimento, o material utilizado, o modo como é apresentado o número de telefone, o tipo de iluminação. Número de fax, então, já é redenção na certa. Outros se entregam pelo simples anúncio do gênero de serviço prestado: videolocadoras, minutas e vitaminas, calçados e bolsas para senhoras.

O PASSEADOR TIJUCANO recorreu as principais ruas e procurou listar oito letreiros antigos e emblemáticos do nosso bairro. Quer colaborar com a lista? É só mandar sua contribuição – de preferência, com foto – para pelasruasdatijuca@gmail.com.


1. AO TRANSISTOR DA TIJUCA (Rua São Francisco Xavier 2, Loja E)


Rua São Francisco Xavier 2, Loja E, Largo da Segunda-Feira 

"Ao Transistor da Tijuca" é uma das tantas lojas de material elétrico e utilidades do gênero que existem no bairro. O letreiro antigo já é quase patrimônio gráfico do Largo da Segunda-Feira, onde se situa. Observem que o prefixo do telefone só apresenta três dígitos, dando uma amostra do seu longo tempo de existência. Vale destacar que, no Rio, todos os números de telefonia fixa passaram a ter prefixo de quatro dígitos no dia 30 de junho de 2001, há 16 anos.


2. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO STA. CAROLINA (Rua Santa Carolina 8)


Rua Santa Carolina 8, Usina

Outro gênero comercial bastante comum aqui na Tijuca é o varejo especializado em materiais de construção. São bazares à moda de outrora, bem diferentes das grandes cadeias como Leroy Merlin ou Casa Show. Na Usina, temos a loja "Materiais de Construção Sta. Carolina", localizada na rua homônima. O letreiro, coitadinho, mal conserva suas letras. Mesmo assim, ainda se pode identificar o derradeiro slogan: "Tudo Para Construção e Pinturas".


3. GURILANDIA LANCHES (Rua Conde de Bonfim 670)

Rua Conde de Bonfim 670, entre Uruguai e Dona Delfina 

Quem se lembra dos tempos em que ir à Disney também podia ser sinônimo de ir à Disneylândia? No caso da Tijuca, o sufixo "lândia", que cheira à naftalina de tão démodé, é utilizado para designar o território da gurizada na Rua Conde de Bonfim 670. Ou melhor: a "Gurilandia Lanches", sem circunflexo. O letreiro do estabelecimento não deixa mentir a idade: ele oferece (ou oferecia) refeições à minuta, pizzas e vitaminas. Em tempos de hambúrguer gourmetizado, o que são mesmo minutas e vitaminas?! De todo modo, eis mais um patrimônio gráfico do nosso bairro!


4. REQUINTE (Rua Conde de Bonfim 668, Loja B)

Rua Conde de Bonfim 668, Loja B, entre Uruguai e Dona Delfina

Nas vizinhanças da "Gurilandia Lanches", jaz o letreiro da antiga boutique "Requinte", no número 668 da Rua Conde de Bonfim. A loja é dos tempos em que se vendia produtos exclusivos para "senhoras", tais como calçados e bolsas. Diferentemente dos demais estabelecimentos listados aqui, a "Requinte" encerrou suas atividades já há um bom tempo (algum leitor sabe quando?), e o melhor - está fechada com portas pantográficas! Mais vintage, impossível. Nossa Tijuca é tradicional até quando não quer.


5. BRASEIRO (Rua Haddock Lobo 123A)

Rua Haddock Lobo 123, Loja A, próximo à Avenida Paulo de Frontin (Fonte: Google)

Oficialmente conhecida por "O Braseiro Armarinho Limitada", a Braseiro Modas - como é comumente chamada - está fincada na Rua Haddock Lobo desde 1966, já nas bandas do Rio Comprido. Segundo o tijucano Felipe Torreira, do blog Pileque, "as roupas estão expostas em cristaleiras muito bonitas, bem altas, pois o pé-direito da casa deve ter seus seis metros. Camisetas furadinhas, camisas sociais, camisolas, meias sociais, calçolas, cintos elegantes e moda íntima em geral enchem as estantes e mostruários". Tim Maia, o cantor, foi freguês em outras épocas. Inveterado letreiro!


6. ELETRÔNICA ROBRUM (Rua José Higino 290)

Rua José Higino 290

Já se foram os tempos em que hordas de tijucanos consumiam ad nauseam as incontáveis videolocadoras existentes no bairro. Com o fim dos cinemas na Praça Saenz Peña, alugar VHS e DVDs tornou-se uma das poucas opções culturais por aqui. Agora, em tempos digitais, as videolocadoras ficam só na saudade ou impressa nos letreiros, como neste da "Eletrônica Robrum", situada à Rua José Higino 290. A placa também entrega a idade pelo anúncio do número de telefone com prefixo de três dígitos e do número de fax. E os pontinhos luminosos que circundam a moldura? Dignos de cenário dos programas da Xuxa, nos anos 1980.


7. BAZAR CASCATA (Rua Conde de Bonfim 927, Loja D)

Rua Conde de Bonfim 927, Loja D, Muda 

Na esquina da Rua da Cascata, o "Bazar Cascata" faz parte da turma de lojas de ferragens, material elétrico e conserto de eletrodomésticos tão comuns na Tijuca. Após a remoção do tradicional letreiro de "O Queijeiro da Muda", arriscaria dizer ser este um dos mais emblemáticos atualmente deste pedacinho da Tijuca.


8. HOTEL TIJUCA (Rua Pareto 63)

Rua Pareto, 63, arredores da Praça Saenz Peña

O "Hotel Tijuca" dispensa apresentações: é um dos mais famosos motéis do tipo custo-benefício do bairro, muito embora ainda há quem encare o "Paretão" como um hotel - pelo menos, na página do Trip Advisor, onde se tecem críticas sobre o serviço prestado. O prédio chega a ser risível de feio, mas o seu letreiro continue firme e forte na paisagem aérea dos arredores da Praça Saenz Peña justo no seu trecho mais decadente, a Rua Pareto. A placa emana ares de far west movie, mas é um desses letreiros que eu estimo sem saber o porquê.

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17 de jun de 2017

Rua Dulce, Rua General Marcelino & Rua Professor Lafayette Côrtes

Praça Babilônia, no entroncamento da Rua Dulce e Rua General Marcelino. 

A Tijuca é reconhecidamente um bairro urbano e caótico, mas que tem o privilégio de ainda resguardar verdadeiros oásis. Quem costuma passar pela Rua Almirante Cochrane e está pouco familiarizado com a cartografia da região, por exemplo, dificilmente poderia imaginar que bem ali se descortina um desses paraísos. O palpite duvidoso se deve à imagem meio esquisita que se tem do acesso para a Rua Dulce, pouco antes do atual Supermercado Guanabara (extinto Walmart). Isto porque se trata de uma rua com cara de viela malcuidada e meio sombria o portal de entrada para uma espécie de cidadela à parte, charmosa e muito, mas muito bucólica.

Esse pequeno paraíso de que lhes falo compreende as ruas Dulce, General Marcelino e Professor Lafayette Côrtes, incrustadas nos fundos do Colégio Militar e coladas à belíssima Pedra da Babilônia. A proximidade desta grande rocha com as residências que loteiam a vizinhança faz deste cantinho da Tijuca uma espécie de Urca na Zona Norte. Principalmente porque toda a arquitetura dali inspira o glamour decadente dos anos dourados que também perfila as edificações daquele bairro da Zona Sul. Os prédios de pouco pavimentos sem elevadores e os muros baixinhos das casas resistem como se os tempos ainda fossem outros. Tudo cheira à vida, temperada por uma explícita ambiência familiar que tanto particulariza as ruas residenciais da Tijuca.

Para começar, só há uma entrada e uma saída: a primeira se dá pela Almirante Cochrane e a última pela Rua São Francisco Xavier. Logo, quem entra pelo sentido do tráfego de veículos, após o trecho horripilante de aproximadamente 100 metros confrontado por duas grandes fachadas inativas, depara com a primeira surpresa: a Praça Babilônia. Inaugurada nos anos 1980 com dinheiro arrecadado em festas juninas realizadas pelos próprios moradores, a Praça Babilônia se situa no entroncamento das ruas Dulce e General Marcelino. Bem conservada, cumpre a missão de ser o ponto de encontro para a diversão de toda a molecada que reside na vizinhança. Mas, há quem também aproveite os bancos para tomar um pouco de sol, com vista indevassável para a Pedra da Babilônia, “xará” da praça.

Rua General Marcelino, esquina de Dulce.

Muros baixos caracterizam a Rua Dulce

Uma amostra do estilo dos imóveis à Rua Professor Lafayette Côrtes 

Rua General Marcelino: um belíssimo edifício com detalhes em verde-chá.

A Rua Dulce é sem saída e combina tanto edifícios de três a quatro pavimentos como algumas poucas casas no lado par da via. Placas e adesivos de “vende” e “aluga-se” fixados às janelas são bastante recorrentes na Rua Dulce, enquanto na Rua General Marcelino a disputa por um imóvel parece ser mais concorrida. Há quem diga na vizinhança que os apartamentos por ali, principalmente na Rua Professor Lafayette Côrtes, chegam a pertencer a uma mesma família por gerações. O clima de tranquilidade que impera no local associado ao estilo antiguinho e aburguesado das edificações pode aparentemente ser um fator de permanência. Mesmo com a violência – assaltos e ações criminosas certamente não devem passar longe desse oásis –, ruas como estas continuam valorizadas na Tijuca e em toda a cidade do Rio de Janeiro.

RESIDÊNCIAS TOMBADAS E O EDIFÍCIO CIBRASIL

É de pouco conhecimento público, mesmo entre os tijucanos mais fervorosos, que no encontro da Rua Professor Lafayette Côrtes com a Rua General Marcelino se situa uma das mais joias raras arquitetônicas desta cidade: O Edifício Cibrasil, localizado no número 156 daquela. Apelidado de “Castelinho”, é um daqueles prédios de deixar qualquer um babando pela beleza, garbo e imponência. A fusão entre um estilo neoclássico e outro eclético impresso à edificação remete aos anos de 1940, mas segundo dados do livro "Tijuca, de rua em rua" (Editora Rio, 2004), ele só foi finalizado mesmo na década de 1950. Foi, portanto, um dos primeiros prédios da Rua General Marcelino, aberta por decreto de 11 de setembro de 1947 quando ainda era um imenso matagal.

Os "bigodes bem penteados" do Edifício Cibrasil, vulgo Castelinho

O Edifício Cibrasil dispensaria descrições se não fosse a missão de O PASSEADOR TIJUCANO apresentar e reapresentá-lo a todo o público leitor deste blog que se interessa pela Tijuca, sua história e evolução urbana. Neste sentido, é interessante destacar que não apenas o Edifício Cibrasil – vulgo “Castelinho” –, mas todos os outros edifícios existentes nessas ruas representam um marco importante da evolução social da Tijuca. O estilo aburguesado dos imóveis, tal como qualifiquei algumas linhas acima, alude a um período de transição lenta e gradual em que a Tijuca vinha modificando seu perfil social mais dominante.

O intervalo que vai de 1930-1950 é bastante característico da fase em que a Tijuca consolida sua imagem vinculada ao imaginário de uma classe média abastada para um bairro fora da orla. O capital simbólico dos tempos aristocráticos, entretanto, se perpetuou nos hábitos e nos padrões de moradia dessa então novata classe social, que procurava reeditar um estilo de vida inspirado na Tijuca “chique” dos tempos da nobreza imperial. E o Edifício Cibrasil é uma prova, no presente, de como estes gostos foram moldados e materializados na arquitetura dali. Segundo informação de uma moradora do prédio, o edifício foi levantado por um próspero construtor para moradia própria, revendendo os outros apartamentos como retorno do investimento. Na Rua General Marcelino, foram erguidos outros dois edifícios pelo mesmo dono e nomeados de Cibrasil II (49) e Cibrasil III (61). Contudo, não são tão bonitos quanto o original.

Os azulejos em sintonia com arabescos: toque lusitano à Tijuca (2013).

O hall de entrada do Edifício Cibrasil: detalhe do corrimão.

É difícil não se embasbacar com a beleza do Cibrasil. A entrada é ornamentada por um portão elegante, de ferro, com detalhes dourados que lembram o formato de bigodes bem penteados. Essa parte da entrada se assemelha a uma torre, com arabescos na fachada sobre o portão, além de um vitral que se estende até o seu topo. Os espaços dentro dos arabescos são preenchidos por azulejos floridos, dando um aspecto bem lusitano ao conjunto. Para completar, lá em cima, no telhado circular, resplandece um galo moldado em chapa de ferro com bico apontado para o céu, como se estivesse cantando ao amanhecer.

Tanto por dentro como por fora, predominam tons de um matiz acinzentado, meio pálido, que atenuam o impacto visual das pequenas descaracterizações aplicadas à fachada – como, por exemplo, a colocação de grades e aparelhos de ar condicionado. Fazendo jus ao charme que lhe é indiscutivelmente peculiar, o sóbrio hall de entrada do Cibrasil possui um quadro estampando uma fotografia do prédio e escadas cujo corrimão é todo trabalhado em formas que remetem aos próprios arabescos da fachada.

O Edifício Cibrasil é preservado graças ao decreto de número 12.864, de 29 de abril de 1994, que instituiu a região como Área de Proteção do Ambiente Cultural (APAC) do entorno do Colégio Militar. Esse decreto também tombou a Pedra da Babilônia e preservou alguns outros imóveis, protegendo o ambiente urbano tanto dali como de ruas situadas no outro "lado" da Pedra, a exemplo das ruas Pareto e Deputado Soares Filho.

Panorama da Rua Professor Lafayette Côrtes 

Rua Professor Lafayette Côrtes 89: preservado pelo decreto da APAC do Colégio Militar.

Pedra da Babilônia e a Rua General Marcelino

Rua Professor Lafayette Côrtes (2011)

Rua General Marcelino (2011)


Imóveis preservados pelo Decreto número 12.864, de 29 de abril de 1994:

Rua Dulce
Lado ímpar: 175, 191, 207, 225, 243
Lado par: 40, 70, 128, 138

Rua Professor Lafayette Côrtes
Lado ímpar: 89, 105, 127, 155, 181, 241, 271
Lado par: 34, 46, 58, 70, 84, 98, 100, 120, 134, 156


RELATOS DE MORADORES: A MEMÓRIA AFETIVA DE QUEM VIVEU O ESPAÇO

Esta não é a primeira vez que escrevo sobre este conjunto de ruas na Tijuca. A primeira vez foi em 2011, quando ainda publicava textos no blog AS RUAS DO RIO, que, mesmo inativo, ainda está disponível para leitura no website da revista Veja Rio. Na segunda ocasião, já para O PASSEADOR TIJUCANO, comentei sobre o inusitado fato de o Edifício Cibrasil ter sido reproduzido em um croqui no livro “A Alma do Rio”, de Cynthia Howlett, lançado no final de 2013. Nesse ínterim, muitos foram os e-mails e comentários que recebi com depoimentos públicos sobre as memórias da vizinhança. Selecionei alguns deles:

Tive a felicidade de, em 1980, conhecer três rapazes que moravam na Lafayette Côrtes e eu morando em São José dos Campos. Em 1981 fui parar na Tijuca de tanto que eu fui passear nas casas deles e adorava aquele bairro! Eles moravam num prédio, o de número 127, construído pelo avô de um deles, que tem a imagem de Santo Ivo, feita com azulejos portugueses logo na entrada do prédio, que tem quatro andares e não tem elevador. Ai, ai, ai... voltei lá esse ano e a idade pesou dessa vez! (risos). 
Um dos meninos ainda mora lá, com os pais, a esposa e a filha, todos no mesmo apartamento, uma coisa bem peculiar desde aquela época, quando os jovens, mesmo já tendo seu emprego, seu estudo, não saíam da casa dos pais. E mesmo depois de tantos anos, muitos parentes dos meus amigos ainda moram naquele prédio, como o filho de uma amiga, o irmão do outro etc. O apartamento é da família, não foi vendido e foi passado para a geração futura, sem se preocupar em fazer reformas, mudar a "cara" do prédio (aliás, todos estão iguaizinhos desde quando estive lá pela última vez!). 
Não tínhamos problemas com segurança, íamos para as noitadas e voltávamos de madrugada, sem a preocupação de encontrar alguma surpresa pelo caminho ou em casa. Tinha festa junina na rua, onde todos os moradores colaboravam com algum acepipe, tinha quadrilha e até cadeia, além do correio elegante, é claro! Mesmo sendo adolescentes, gostávamos desse convívio com os vizinhos, que conhecíamos todos pelo nome, nos cumprimentávamos na rua. Bom, você sabe que a Tijuca é o único bairro que tem a sua naturalidade, ou seja, o carioca que nasceu na Tijuca não é apenas carioca... ele é tijucano!

Joana Darc de Oliveira, 11 out. 2013 (por e-mail)

Caro Pedro Paulo, 
Morei na Lafayette por mais de três décadas e ainda tenho relação com aquele recôncavo até hoje, pois minha mãe e muitos amigos ainda moram lá. 
Seu pedido, ao mesmo tempo que é fácil, também é difícil de retratar face à enorme quantidade de histórias e das particularidades que vivemos naquele período. Só para você ter uma ideia, éramos mais de 150 jovens convivendo diariamente e de quatro gerações diferentes. Imagine o que não há para se dizer de tudo isso. 
Naquele pedaço tinha campeonato de futebol, de jogo de botão, de futebol totó, festa junina (considerada por muitos a melhor da Tijuca!), jogo de cartas, xadrez, taco, vôlei e o que mais você possa imaginar.
Antonio Jorge Faria, 11 out. 2013 (por e-mail)

Nasci e fui criada na Rua Dulce, onde morei até os 13 anos, quando mudei para MG. Minha família ainda possui o apartamento no fim da rua e todo ano vou visitar. Quando entro no beco da Rua Dulce, meu coração até dispara, muitas lembranças boas. Valeu pela reportagem, inclusive li comentários de amigos da infância tão feliz!!!
Maria Inez Pedrosa Machado, 24 nov. 2015 (seção de comentários – AS RUAS DO RIO)

5 de jun de 2017

Tijuca: um bairro tamanho família

Matéria publicada em VEJA RIO, há 20 anos, fala sobre os estereótipos atribuídos ao bairro.

Em outubro de 1996, a VEJA RIO, suplemento da revista homônima, publicou matéria de capa dedicada a explorar o perfil socioeconômico da Tijuca em ocasião da abertura do Shopping Iguatemi Rio, no Andaraí, bairro vizinho. A reportagem tinha como objetivo representar o estilo de vida dos tijucanos na ótica dominante da revista, voltada especialmente aos moradores da Zona Sul. Intitulada "Bairro tamanho família", a repórter Flávia Pinho procurou qualificar o tijucano como um personagem ilustre por ganhar acima da média carioca, razão pela qual o Shopping Iguatemi inauguraria em seus domínios uma filial da matriz paulistana, conhecida pela segmentação de mercado direcionada às classes A e B altas. Segundo pesquisa realizada por uma empreendedora que, na época, era proprietária da marca Iguatemi, afirmava-se que na área a cinco minutos de carro do shopping havia 208 000 domicílios cuja renda alcançava 1,6 bilhão de dólares por ano.

No entanto, os elogios dispensados ao capital econômico dos tijucanos seriam contrabalançados pela ironia do texto em recorrer indiretamente aos estereótipos sociais dominantes atribuídos à Tijuca para descrever o estilo de vida daqui. O perfil "família" do bairro, a devoção às festas de debutantes e ao gosto pelas mesas fartas e por sobremesas são narrados pela repórter como partes indissociáveis de um jocoso ethos que não se veria em lugar algum fora da região entre a Praça da Bandeira e o Alto da Boa Vista. Assim, ao dizer que os tijucanos não ligavam para pechas, VEJA RIO endossava a caricatura associada à Tijuca vista como cafona, provinciana, conservadora e careta, mas também procurando promover a grande Tijuca a um status que tentava fazer jus à chegada do novo centro comercial.

Fenômeno carioca da época, a transferência expressiva dos moradores da Tijuca para a Barra da Tijuca é retratada por VEJA RIO com a história da família Mussalem, dona das prósperas Casas Pedro. Após quinze dias residindo em "apartamentão" na Avenida Sernambetiba, orla da Zona Oeste, a família havia decidido regressar para a cobertura dúplex da Tijuca, por uma questão de apego territorial. Já o caso de um analista de sistemas que havia se mudado para o Leblon, mas que não conseguia largar a Tijuca e o Tijuca Tênis Clube, é tratado como algo inusitado. Por fim, a matéria sentencia a ideia já premente no imaginário carioca de que ser tijucano não seria uma condição geográfica, mas um estado de espírito. Em suma, um autêntico texto estilo "morde-assopra".

A matéria na íntegra - em texto - você lê abaixo das imagens.





VEJA RIO, 2 de outubro, 1996

Bairro tamanho família

Apegados à família e às tradições, os tijucanos não ligam para pechas e, ganhando acima da média carioca, são hoje cortejados pelos shoppings


Flávia Pinho, com colaboração de Telma Alvarenga

Digam o que disserem, o tijucano é feliz. E ainda se diz mesmo muita coisa do outro lado do túnel. Que aqueles pouco mais de 175 000 cariocas são cafonas, provincianos, conservadores, caretas. Se houve um tempo em que essas carapuças serviram para esconder um rubor encabulado ou, pior ainda, doídos ressentimentos, isso já passou. Os tijucanos transpiram bairrismo sem remorso. Adoram a vida em família – em nenhuma outra parte da cidade filhos e netos orbitam como satélites nas vizinhanças muito próximas das casas de patriarcas e matriarcas. Dão importância para festinhas de 15 anos, para a lasanha do La Mole, para a eleição da Garota AGT, o corpinho mais trabalhado da academia de ginástica do Tijuca Tênis Clube, venerada instituição em que legiões deles preferem tostar a pele às margens da piscina do que na lonjura das praias. É assim que vêm atravessando o tempo, aferrados ao lugar e a valores tradicionais. Se carioquismo fosse estatística, eles seriam a mediana entre a fervura a Zona Sul e o mundão do subúrbio. “A Tijuca nunca foi moda”, define o administrador de imóveis Mário Henrique Rodrigues, 36 anos, titular do Xavier, o time de peladas que leva o nome da Praça Xavier de Brito, um lugar onde até hoje há crianças pilotando pacatos pangarés ou charretes puxadas por bodes.

Mesmo imunes a modismos, os tijucanos nunca foram tão cortejados como agora. Alguns números explicam o fenômeno. A renda familiar do bairro gira em torno de 12,4 salários-mínimos (quase 1 400 reais), contra a média de oito salários-mínimos da cidade. Há mais gente com curso superior por lá do que em Copacabana. É, por exemplo, a maior concentração de dentistas do Rio – dos 10 487, 1 821 estão nas redondezas da Praça Saens Peña. O número de telefones celulares per capita bate o da Zona Sul. Dos bairros residenciais é o que tem mais agências bancárias e o que mais paga ICMS, sintoma de poder de fogo de consumidores vistos como gastadores discretos e pontuais. Atrás de tanta afluência, abre as portas nesta segunda-feira o Shopping Iguatemi Rio, que com 228 lojas vai ocupar o terreno que já serviu de campo de futebol para o América, segundo clube de coração de muitos cariocas e primeiro de uma sofrida e teimosa minoria. Os responsáveis pelo investimento de 100 milhões de dólares coroam a Tijuca com superlativos de um paraíso do consumo. Pesquisa feita pela LaFonte, empreendedora que é dona da marca Iguatemi com sede em São Paulo, diz que na área a cinco minutos de carro do shopping (um raio de 1,8 quilômetro) há 208 000 domicílios cuja renda alcança 1,6 bilhão de dólares por ano. Da dinheirama que essa gente não gasta no varejo local, o Iguatemi espera abocanhar 157 milhões de dólares, fortuna que faria a felicidade de uns dez ganhadores solitários daquelas Senas acumuladas. “Temos a expectativa de receber 40 000 pessoas por dia e, pelo menos, 60% delas virão aqui a pé”, não faz por menos José Antônio Grabowski, diretor da área imobiliária do Banco Icatu, outro sócio da empreitada.

Os preconceitos sobrevivem na orla. Por ali, todo mundo, inclusive o shopping, gosta de se ver como tijucano. Explica-se: o Iguatemi na verdade fica no Andaraí, num vértice entre a Tijuca e a Vila Isabel. Mas Andaraí, Aldeia Campista e outras simpáticas adjacências se sentem anexadas à grande Tijuca. A grande Tijuca, é bem verdade, já foi muito maior. Via como dela a brisa fresca do Alto da Boa Vista e todo o marzão da Barra, que levava (e ainda leva) a marca do batismo no sobrenome. Barra, eis aí um sonho de consumo que ainda sobrevive. Said Mussalem, 50 anos, dono da matriz e das cinco filiais da Casa Pedro, loja que vende especiarias da culinária árabe, acreditou nele por quinze dias. Comerciante próspero, há dois anos mudou-se com a mulher, Solange, e os filhos Felipe, 20 anos, Karine, 18, e Diogo, 12, para um apartamentão de quatro quartos, de frente para o mar da Barra. “A namorada do Felipe mora aqui perto, ele e a Karine estudam na Uerj e não quiseram ficar tão longe”, justifica a rápida desilusão Solange, a única que até hoje não se conforma com o fracasso da mudança. “Foi por causa do trânsito”, emenda Said, que em duas semanas estava de volta para a cobertura dúplex da Tijuca com mulher, filhos e o cachorro “Pitoco”. Sem arrependimento. “Tenho amigos aqui”. O que afugentou a família Mussalem continua lá. O trânsito é horrível e o bairro está infestado de camelôs e de hordas de bandidos e pivetes que pontuam o cotidiano com violência.

Na televisão gigante de 52 polegadas, Said e família gostam de rever a crônica tipicamente tijucana da qual orgulhosamente fazem parte. Congelam a imagem de Karine, vestida como uma fada flutuando na nuvem de gelo-seco do cenário de sua festa de 15 anos, em 1993, um acontecimento para os 500 convidados no Clube Sírio e Libanês. Said tinha para gastar. Gilberto e Wilma de Sousa não. A festa de 15 anos da filha Fernanda consumiu todas as energias e economias do casal. O roteiro começou às 8 e meia da noite do último sábado, 28. Os Sousa espremeram 300 pessoas na pequena capela de Bom Jesus do Calvário, na Conde de Bonfim. Depois veio a festança na Associação Atlética Banco do Brasil, AABB, onde Fernanda desembarcou com um vestido cor de vinho, combinando com a decoração das mesas. À meia-noite, fez uma entrada triunfal com um longo branco, dançou a valsa com o pai e arriscou uma coreografia com seu “príncipe”, Hugo, que namora há um mês. Entre uma coisa e outra, o analista de sistemas Gilberto brindou os convidados da festa dedilhando ao violão a canção O Caderno, de Chico Buarque. O aluguel da igreja ficou em 700 reais, o vestido vinho custou 300, o longo, mais 700. Somem-se a isso os presentinhos especiais – flores para avós e tias, canetas gravadas para os jovens, anéis de ouro para a irmã e a prima. Ainda faltam a decoração, os fotógrafos... “Acho que gastamos uns 10 000 reais”, faz as contas Wilma, que é instrumentadora cirúrgica. “Um dinheirão, e acho um absurdo”. Mas era o maior desejo de Fernanda. E pronto.

Os ritos de passagem são apenas mais um traço da coesão familiar tijucana. Homero Icaza Sanchez, que já não é mais bruxo em tempo integral de pesquisas de audiência da Rede Globo, educou o ouvido escutando aspirações do telespectador de novelas. Brasileiros em geral, cariocas em particular, tijucanos nas menores minúcias. Conhece bem a alma dessa gente que colonizou o bairro com grandes casarões, mais tarde trocados na vertigem imobiliária por apartamentos para eles e seus descendentes. “O resultado é que todo mundo mora perto, às vezes no mesmo prédio”, diz Kátia Varela Mello, 29 anos, defensora pública, não consegue cortar o cordão umbilical. “Como eu poderia ficar longe da minha família? ” E da Praça Xavier de Brito, aonde costuma levar os filhos Eduardo, 4 anos, e Felipe, 1. É só um pequeno exemplo dos clãs tijucanos. Em torno de Raymundo Silvino Pereira, 85 anos, e de sua mulher, Helena, 73, gravita uma farta e barulhenta prole de sete filhos e doze netos. Com exceção de uma filha, que migrou para a Barra, todos moram perto do casarão de dois andares da Avenida Maracanã, onde o casal vive há 28 anos, desde que deixou uma enorme chácara na Rua Antônio Basílio. Raymundo chegou de Pernambuco em 1929 e foi direto para a Tijuca, onde conheceu Helena. Os dois se casaram no dia em que a II Guerra Mundial acabou (8 de maio de 1945), numa cerimônia celebrada pelo então padre Helder Câmara, o que é apenas um dos atestados de longevidade do casamento. Há outros. A mãe de Helena, Julieta Contardo, tem 107 anos e ainda vive com o casal. “Só podia acontecer comigo, ter uma sogra que passa dos 100”, brinca Raymundo.

Helena criou os filhos levando a criançada com merenda para as sessões de domingo do cinema Olinda. O cinema injetou ambições hollywoodianas no espírito tijucano, teoriza Homero Sanchez, que vê nos emergentes de hoje os tijucanos de ontem. “Os netos da Zona Sul acreditam na tradição; os da Tijuca, no sucesso”, diz. No sucesso acreditam Sérgio Pereira da Silva, 46 anos, sócio há 21 de uma clínica no bairro que mais tem dentistas na cidade. “A Tijuca tem uma classe média com forte poder aquisitivo”, explica a concentração. Mas, para além do sucesso, os tijucanos acreditam em algumas instituições que elegem como o prolongamento de sua casa. Os netos de dona Helena estão entre os 38 000 dependentes de 12 000 sócios do Tijuca Tênis Clube, imensa província de lazer da Conde de Bonfim. Piscinas são três. Há dois ginásios, campos de futebol, quadras de tênis e squash, salões de festa, teatro, além de três andares de academia de ginástica. É entre as frequentadoras da academia que será escolhida, ainda em outubro, a Garota AGT. Antigamente, os desfiles eram de biquíni, mas as garotas se acham muito expostas. Agora se exibem em uniforme de malhação. A lotação dos salões oscila. “Quando vem uma orquestra de peso como a Tupy, recebemos até 800 pessoas”, conta Hildo Magno da Silva, vice-presidente sociocultural do clube. Não há mais títulos de sócio-proprietário disponíveis. Só num mercado paralelo e custam no mínimo 2 000 reais.

O ambiente do Tijuca foi uma das razões para Gilberto Carneiro da Silva, 43 anos, analista de sistemas da Dataprev, fazer um percurso parecido com o de Said Mussalem. Com o fim do primeiro casamento há seis anos (já tinha dois filhos, Gabriela e Gilberto Jr.), mudou-se de lá. Conheceu Tânia, quem teve Gabriel, e foi morar no Leblon. “Fiquei dormindo lá, mas minha vida continuou aqui”. Não resistiu e voltou. Até hoje bate ponto no Tijuca, onde exerce o cargo de vice-presidente de Jogos Recreativos, e na praia em frente do quiosque Viajandão na Barra, a saída para o mar da Tijuca. A mulher, Tânia, já está tão acostumada que se matriculou na ginástica do Tijuca. “Lá no Leblon acham que eu fiquei maluca ou que o Gilberto fez macumba para mim”, diverte-se. Gilberto é um tijucano na alma e no paladar. O filé aberto no Lareira, na Barão de Mesquita, o chope no Roquinha, na General Roca, e os bolinhos do Rei do Bacalhau, na Praça Xavier de Brito, são para ele tentações permanentes. Não vai mais ao La Mole “por causa do tumulto”. Por tumulto entenda-se 3 000 pessoas disputando 660 vagas em 165 mesas aos domingos à caça dos pratos mais pedidos – lasanhas (saem 200, a 6,50 reais cada uma) e medalhões com arroz à piamontesa (150, por 15,95 reais). “O La Mole é parecido com a casa da mama”, diz José Maria Correia Freitas, gerente de serviços da filial da Tijuca na Marquês de Valença.

O La Mole também é a mesa da classe média em outros bairros. Na verdade, a Tijuca tem outras singularidades gustativas. Adora doces, por exemplo. Quem sabe uma vantagem do descompromisso com a forma de quem mora longe da praia. A Lecadô vende por mês 7 000 tortas, quase o dobro das 3 600 vendidas pela rede Chaika em duas lojas na Zona Sul e uma na Barra. São 49 opções, mas pede-se a mais a Spumoni, à base de creme de leite, chantilly e leite de condensado, tudo em três camadas coloridas artificialmente. Por falar nisso, a Sendas Tijuca vende todo mês 5 520 latas de leite condensado, bem mais do que as 4 560 vendidas na filial do supermercado em Botafogo, que é do mesmo tamanho. Goiabada, então... são 480 latas por mês em Botafogo, contra 936 na Tijuca. Talvez por isso as amigas Cláudia Pereira de Paula Muffi, 34 anos, moradora de Vila Isabel, e Maria Cristina Cunha, 37 anos, tijucanas, estejam tão animadas com as perspectivas da loja Dunkin’ Donuts que estão abrindo no novo Shopping Iguatemi. As duas trabalhavam no Banco do Brasil e se candidataram a uma franquia da americana Donuts, que faz rosquinhas recheadas de doce de leite e creme, com cobertura de chocolate, que já regalam paulistas e só agora chegam aqui. “O público para isso aqui é muito bom”, confia Cláudia.

O gosto por doces qualquer um entende. Mas o que leva tanta gente para noites de picanha, música e farra no Rincão Gaúcho? Em seu livro Os Últimos Dias de Paupéria, o poeta e letrista Torquato Neto sentenciou: “O tijucano se diverte olhando”. Pois no Rincão, onde uma foto gigante de Tom Cruise de smoking decora o banheiro feminino, ele se diverte fazendo. Nos fins de semana segue-se ao banho de sangue do churrasco um show de Fabiano Straube de Souza, 20 anos, ou só Fabiano. De sua voz saem canções românticas: “Meu estilo é o mesmo do Fábio e do Maurício”, cita com intimidade Fábio Junior e Mauricio Mattar. Quando a letra é em inglês, apela para uma genuína embromation e fica uma hora animando casais que dancam agarradinhos. Depois é a vez de Célia Cavalcanti, que esquenta o salão com boleros e axé music. E, finalmente, entra em cena o performático Marcelo Negrão, a atração mais esperada da noite. Ele canta Parabéns pra Você para os aniversariantes, apimenta com piadinhas torpedos e bilhetes que fulana manda para fulano, arrancando uivos e gargalhadas. A apoteose é a dança da boquinha da garrafa. O advogado Armando Marinho Filho, 45 anos, e sua mulher, Isabel Valente, 36, vão muito lá. “Há dez anos frequentamos o Rincão em média duas vezes por semana”, conta Armando. Eles fazem o itinerário inverso. Moram no Jardim Botânico, têm dois telefones celulares e cruzam o túnel na direção norte. O que prova que ser tijucano não é uma condição geográfica. É um estado de espírito.

14 de out de 2016

A Confeitaria Tijuca

Revista da Semana, 1944.
Os Srs. Batista Godinho & Cia, apresentando aos cariocas e à elite tijucana em particular, as luxuosas e moderníssimas instalações da nova CONFEITARIA TIJUCA - Sorveteria e Casa de Chá - vêm corresponder a uma antiga aspiração dos moradores da Tijuca. Em suntuoso edifício, especialmente construído para esse fim, a Confeitaria Tijuca, dotada de ar condicionado e mobiliário confortabilíssimo, será o ponto predileto para as tradicionais reuniões da elegância da fina sociedade tijucana. 

Para além dos cinemas, os anos dourados da Praça Saenz Peña foram marcados por uma série de estabelecimentos comercias simbólicos que ainda povoam o imaginário que se faz a respeito do bairro. Um dos locais mais lembrados é a Confeitaria Tijuca, da qual, particularmente, se tem pouca informação. Inaugurada em 1943 no número 352 da Rua Conde de Bonfim – na exata localização da atual filial das Lojas Americanas –, a Confeitaria Tijuca foi um marco importante na história da Tijuca como bairro de “gente bem”.

Equiparada à sofisticada Confeitaria Colombo, da Rua Gonçalves Dias – no Centro – por oferecer “serviço completo para banquetes” ao som de uma “orquestra permanente”, a Confeitaria Tijuca foi batizada como “o novo arranha-céu da Praça Saenz Peña”, em anúncio publicado no Jornal O Globo de 21 de janeiro daquele ano. Neste mesmo anúncio, é notório o prestígio do tributo oferecido às firmas que participaram na construção do imóvel: “triunfam a inteligência, a operosidade e a técnica”, apontam os anunciantes sobre a qualidade oferecida pelos senhores L. Mello & Irmão, responsáveis pela instalação da maquinaria de refrigeração elétrica, fazendo da Confeitaria Tijuca um dos locais pioneiros no Rio de Janeiro, fora do Centro, em receber tal tecnologia.

Jornal O Globo, 21 de jan. 1943: veja o anúncio em alta resolução.


Empreitada do sr. Batista Godinho & Cia, dos quais não se tem maiores informações do que esta, a Confeitaria Tijuca tinha como propósito substancializar o grand monde carioca num espaço singular que refletisse o bom gosto dos moradores do “aristocrático bairro” da Tijuca na forma de um “ambiente de requintado conforto”. Decorado inteiramente em estilo marajoara, desde a iluminação dos letreiros em neon às “cadeiras confortáveis” de metal, passando pelas faces polidas e brilhantes dos espelhos (que “reúnem todo o encanto das coisas belas e grandiosas”), a Confeitaria Tijuca se outorgava o título de “A maior organisação da América do Sul” (sic) em serviços de chá, sorvetes, almoços, lanches e jantares.

Em outro anúncio publicado na Revista da Semana, de 1944, e reproduzido no livro “História de Bairros – Tijuca” (João Fortes Engenharia/Index Editora, 1984), vê-se a ilustração do que seriam os interiores da Confeitaria Tijuca: um amplíssimo salão de chá repleto de casais jovens e elegantes servidos por garçons em fraque com gravata borboleta. Do alto do salão, um camarote encena o maestro coordenando sua orquestra. Não há registros de quando a Confeitaria Tijuca encerrou suas atividades, mas a ostentação de seus anúncios e os elogios dispensados aos moradores do bairro não deixam dúvidas sobre a origem do tal orgulho tijucano que permanece vivo até os dias de hoje pelas ruas de todo o bairro. Marcas de um passado “dourado” que se perpetuam nos gostos e nos discursos de muitos conterrâneos.

21 de set de 2016

A história socioespacial da Praça Saenz Peña: a formação do primeiro subcentro de elite carioca

Vista aérea da Praça Saenz Peña, em 1940: primeiro subcentro carioca.
Fonte: "O Rio visto pelo alto", de Patrícia Pamplona - encontrado em Alberto de Sampaio.

A declaração é objetiva, clara e com embasamento científico: a Praça Saenz Peña é o primeiro subcentro a surgir no Rio de Janeiro, e o segundo a emergir no Brasil (o primeiro foi o do Brás, em São Paulo). Mais do que isso, a Praça Saenz Peña é o único caso no país em que um subcentro voltado para as camadas de alta renda surgiu antes que os subcentros populares. Tais afirmações são do arquiteto e urbanista Flávio Villaça, professor da Universidade de São Paulo (USP), autor do clássico livro Espaço intra-urbano no Brasil (Studio Nobel/FAPESP, 1998). Nesta obra, Villaça discute como se deu a produção do espaço urbano em seis metrópoles brasileiras, mostrando as “forças” capitalistas existentes por trás do mar de prédios, casas, praças, lojas, serviços, funções e usos da solo que faz parte do nosso cotidiano.

Neste livro, Villaça dedica importantes considerações à Tijuca por ser um dos bairros cuja urbanização é das mais antigas do Rio e, também, por ter sido um bairro pioneiro de “elites” na cidade. Inclusive, são as referências desse passado nobre – e, portanto, visto como digno de status – o tempero que rege muito dos discursos sobre o “orgulho tijucano”. Além disso, a memória afetiva é também um elemento crucial da representação da Tijuca no imaginário coletivo, especialmente quando falamos da Praça Saenz Peña. Muitos textos, livros e artigos se referem à praça como um lugar de cinemas e glamour nos anos ditos “dourados”, mas sem elucidar as razões sociais, políticas e econômicas que ascenderam a Saenz Peña em lugar com este perfil.

É este aspecto que pretendo dissertar nesta série de publicações sobre a formação, a evolução e a decadência simbólica da Praça Saenz Peña como subcentro de “ricos”, a começar por agora.

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Para Villaça, o subcentro é uma aglomeração diversificada e equilibrada de comércio e serviços. Ele é uma réplica em tamanho menor do centro principal – no caso do Rio de Janeiro, o nosso Centro –, “com o qual concorre em parte sem, entretanto, a ele se igualar”. O subcentro apresenta esses requisitos de comércios e serviços para apenas uma parte da cidade, enquanto o centro principal é referência para toda a metrópole. Os primeiros subcentros cariocas surgiram nos anos 1930 em bairros caracterizados, de modo predominante, pela função residencial. Com o desenvolvimento do subcentro, o cenário de bairros como o da Tijuca, de Copacabana, do Méier e de Madureira foi sendo transformado consoante a chegada de lojas comerciais, consultórios, bancos, cinemas, com o objetivo de atender à população residente/visitante no local e nas proximidades. Segundo Villaça, a partir de tais serviços, esses bairros passaram a representar um papel complementar de “centro de atividades”, tornando-se referência como polos terciários de importância local.

Neste sentido, cabe constatar que a formação dos subcentros também esteve muito associada ao desenvolvimento e à consolidação da expansão urbana da cidade em determinados pontos da Zona Sul e da Zona Norte. Isto porque, até meados do século XX, o Centro era o único local de serviços – lugar, por excelência, para onde se deslocava o grosso da população quando precisava resolver pendências ou realizar determinadas compras. A expressão carioca “ir à cidade”, como sinônimo de ir ao Centro, reflete consideravelmente essa posição do local como antiga zona de convergência, mostrando, retoricamente, a condição predominantemente residencial dos bairros fora dali.

A elegante Praça Saenz Peña, nos idos de 1960: polo de serviços e de sociabilidades na Zona Norte.

Entretanto, Flávio Villaça pontua duas questões importantes sobre a apropriação do espaço do Centro e a respeito da produção dos subcentros. A primeira delas é que, na primeira metade do século XX, o Centro era um local majoritariamente ocupado pelas classes de alta renda, tanto para fins de trabalho como de lazer. Como justificativa a essa informação, basta recordarmos a Reforma Pereira Passos, realizada na década de 1910. Como todos sabemos, a Reforma não se tratou de uma intervenção urbanística voltada para abrigar as atividades e lazeres das classes populares no Centro. Muito pelo contrário; os pobres, em seus cortiços, foram expulsos de lá para os subúrbios, justamente porque as elites reivindicaram aquele espaço como de exclusividade delas.

Logo, o centro principal sempre foi, por vocação, um lugar construído pelas elites para as elites, abrindo brechas para a circulação da população mais desfavorecida a partir do inevitável oferecimento de postos de trabalho subalternos para as classes (des)qualificadas como tais. E, com isso, é claro que algumas ruas do Centro foram desvalorizadas, especialmente aquelas próximas à Central do Brasil e ao ponto final dos ônibus oriundos da periferia.

A Reforma Pereira Passos e a criação da Avenida Central: o Centro produzido pelas elites para as elites
 (Acervo George Ermakoff).















Mas, de um modo geral, o Centro sempre foi, por excelência, o lugar do poder e, portanto, das elites. Devido a essa razão, em muitas metrópoles brasileiras o surgimento dos subcentros veio para atender à demanda de consumo das classes populares reprimidas, pelo “mercado” - em suas diferentes facetas -, de consumir no centro principal. Neste entendimento espacial, estes subcentros viriam a ser tratados, assim, como pequenos centros situados em bairros populares, sobretudo periféricos. Por outro lado, aqui no Rio a lógica de formação dos primeiros subcentros serviu, inicialmente, para atender outro público e, consequentemente, a outros interesses.

Com base nisso, a segunda questão importante apontada pelo autor é o fato de que as classes de alta renda no Brasil (ou seja, a elite) são as maiores responsáveis pela formação das centralidades. Em outras palavras, significa dizer que a população de maior poder aquisitivo exige – e reivindica – estar próxima ao Centro, no sentido de estar próxima, na verdade, do comércio e dos serviços de que todos necessitamos para a nossa reprodução social. Tratando-se de uma metrópole rica como o Rio – então Distrito Federal –, a expansão urbana das elites atingiu raios de distância, em relação ao Centro, bem maiores do que em outras metrópoles.


Mesblinha - "O magazine da Tijuca", anos 1950.


Programação dos cinemas da Saenz Peña.
Fonte: Conrado Leiloeiros
O que é importante frisar aqui é que, concomitantemente à expansão espacial das elites, ocorreu, do mesmo modo, a expansão do tipo de comércio e de serviços típicos que só existiam no Centro para esses bairros em que elas se instalaram. Tudo isto graças à força política e ao poder econômico dessa classe em reclamar sua proximidade ao “centro”, enquanto conjunto de comércio e serviços. Um exemplo contemporâneo deste tipo de processo é o da Barra da Tijuca, que, de 1980 para cá, passou de posição de zona-quase-rural para a de importante centralidade na hierarquia socioespacial carioca.

Neste sentido é que Villaça diz ter surgido no Rio de Janeiro o primeiro subcentro das elites, lá nos anos de 1930: a Praça Saenz Peña. Desde o século XIX, a Tijuca já estava consolidada como bairro urbano e nobre. Com o crescimento espacial e econômico da cidade, nas primeiras décadas do século XX, essa sua condição de bairro nobre (e já consolidado em termos urbanos) foi crucial para que se viabilizasse, espontaneamente, a formação do que seria o primeiro subcentro carioca.

Villaça diz que os subcentros de Copacabana, Méier e Madureira se consolidaram na década seguinte, em 1940, mas voltados para atender a fins diferentes. No caso de Copacabana, por exemplo, contribuiu sobremaneira o turismo, visto que muitos serviços implantados por lá desde o início do século passado tinham os turistas como público-alvo. Já o Méier e Madureira se encaixariam na teoria dos subcentros periféricos voltados para responder à demanda de consumo das classes populares nos subúrbios em que residiam. 

O próspero comércio da Praça Saenz Peña, estampado na Revista da Semana, dos anos 1950.

Neste entendimento, Villaça afirma que “a Praça Saens Peña foi o primeiro subcentro voltado para as camadas sociais médias e acima da média jamais desenvolvido numa metrópole brasileira” (p. 278), precedente à Copacabana. Ao mesmo tempo, vale destacar novamente a grande distinção entre Tijuca e Copacabana em termos do perfil de seus respectivos subcentros. Ambos estavam voltados para a elite, é verdade, mas o da Praça Saenz Peña visava atender um público local, das cercanias da Tijuca, enquanto que o subcentro de Copacabana visava atender à demanda do turismo. Copacabana só se tornou um subcentro mais “completo”, menos especializado como turístico, pouco tempo depois dos anos 1940, quando o próprio bairro – e a Zona Sul oceânica – consolidaram seu processo de desenvolvimento urbano e, sobretudo, sua hegemonia como o novo espaço das elites no Rio.

Mas, como se deu a percepção da Praça Saenz Peña como subcentro? Villaça aponta que um subcentro só começa a aparecer quando se nota a chegada de determinados perfis de serviços inéditos ao lugar, serviços estes capazes de conglomerar público e fluxos econômicos equivalentes ao do Centro – resguardadas as devidas proporções. 


Casa Granado, na Conde de Bonfim com Almirante Cochrane: loja pioneira na
formação do subcentro tijucano.

Anúncio da Importadora Tijuca. O Globo (1959).
Na Praça Saenz Peña, o estopim de sua ascensão como primeiro subcentro da cidade – e subcentro para “ricos” – se deve à abertura da primeira filial de uma loja do Centro – então, nobre – no centro de um bairro residencial. Neste caso, estamos falando da Casa Granado, perfumaria instalada na Rua Primeiro de Março (antiga Rua Direita) desde 1870. Aqui na Tijuca, a Granado foi inaugurada em 1928 em prédio tombado situado na esquina da Rua Conde de Bonfim com Rua Almirante Cochrane. Nas palavras de Villaça, naquela época, “as perfumarias eram lojas importantes e essa filial era um indicio significativo da importância do centro da Tijuca” (p. 296).

Outros exemplos apontados por Villaça são os das filiais das seguintes lojas: Formosinho, que vendia artigos de vestuário e que contava com dois estabelecimentos no Centro; a loja Drago, que vendia móveis; o Jarro de Cristal, que vendia louças e cristais; a Confeitaria Tijuca (da qual pretendo falar em outra publicação); a Ferreira, que vendia ferragens, além de várias lojas de calçados e tecidos; e a Importadora Tijuca, uma loja que vendia automóveis situado no número 426 da Conde de Bonfim, onde hoje se localiza uma filial da rede de eletrodomésticos Ponto Frio. 

Mas, o principal mesmo eram os cinemas (que também falarei em outra oportunidade). No início de sua vocação como subcentro, a Praça Saenz Peña contou com cinco grandes cinemas: o Olinda, o Tijuquinha, o Metro, o América e o Carioca. Comparando a potência da Saenz Peña com a de Copacabana, Villaça sublinha que, em 1940, Copacabana inteira tinha apenas três cinemas. Se levarmos em conta a quantidade total de cinemas na Tijuca - isto é, incluindo as salas para além da Saenz Peña -, esse número pode alcançar patamares ainda mais elevados.

Foram essas as razões que fizeram emergir o subcentro da Praça Saenz Peña, o qual Villaça assegura como “o único caso no país em que um subcentro voltado para as camadas de alta renda surgiu antes que os subcentros populares” (p. 297). A evolução deste subcentro nas décadas consecutivas, incluindo, também, a tão chamada “decadência” da Praça Saenz Peña, será discutida nas próximas publicações.

12 de ago de 2016

Tiroteios retornam gradativamente ao cotidiano da Tijuca: prenúncio da falência das UPPs?

Morro do Salgueiro: retomada dos tiroteios supreende moradores do bairro.

Após alguns anos de aparente calmaria, a rotina de tiroteios parece estar voltando gradativamente ao cotidiano da Tijuca. Desde o início deste mês de agosto, episódios do gênero têm chamado a atenção dos tijucanos que residem nas proximidades dos morros do Salgueiro e do Turano, e possivelmente daqueles que residem no próprio morro. O estopim se deu um dia antes da abertura dos Jogos Olímpicos no Estádio do Maracanã, quando se percebeu uma sucessão de disparos bastante ruidosa e, até então, inédita. Já na madrugada de domingo (7), um baile no Salgueiro com o som às alturas tirou o sono de muita gente até as seis horas da matina. Ao longo desta última semana, foram registrados momentos de tiroteio na segunda-feira (8), por volta das 21 horas; terça (9), às 10h30; e hoje (11), por volta das 6h30.

A preocupação de que a política das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) esteja em processo de falência parece só estar ganhando uma maior dimensão por afetar o coração da Tijuca, nas cercanias da Praça Saenz Peña. Entretanto, desde 2015, moradores da Usina já apontavam episódios isolados de tiroteios no Morro do Borel e, desde então, casos como esses têm evoluído. Em março deste ano, um homem morreu durante confronto entre policiais e traficantes no Borel. Em junho, mais dois lamentáveis episódios: no dia 3, houve relato de intenso tiroteio por volta das oito horas da manhã, afetando o trânsito da Conde de Bonfim e as aulas no CIEP Doutor Antoine Magarinos Torres Filho; no dia 30, um adolescente foi morto por policiais ao ser confundido como traficante no mesmo local.

Celebrada pelo Estado do Rio de Janeiro como uma política de segurança pública que prometeria devolver a “paz” aos bairros da capital, as UPPs chegaram à Tijuca em 2010. As UPPs fizeram parte de um pacote de reformas urbanas voltado à preparação da cidade para os megaeventos esportivos. Com o objetivo de se retomar o controle, pelo Estado, de favelas dominadas por poderes paralelos, as UPPs vieram a atender primordialmente as favelas situadas nos bairros mais nobres do Rio e aquelas localizadas em corredores viários estratégicos, como a Linha Vermelha, por exemplo.

Com as UPPs, a Tijuca conseguiu livrar-se momentaneamente do seu estigma de bairro violento no imaginário coletivo, voltando a ser alvo principalmente do mercado imobiliário. O preço do metro quadrado elevou-se, uma nova estação de metrô foi inaugurada (Uruguai), e muitos ex-tijucanos voltaram a residir na Tijuca. As conveniências de um bairro com boa infraestrutura e localização também chamaram a atenção de quem não conseguia mais arcar com os aluguéis e valores exorbitantes da Zona Sul, tornando a Tijuca em local estratégico pelo custo-benefício.



O vídeo acima mostra o período crítico enfrentado pela Tijuca nos anos 1990, quando os confrontos entre traficantes e policiais eram episódios recorrentes no dia a dia do bairro. Imagens gravadas pela extinta TV Manchete.



Passados seis anos, constata-se que as UPPs não evoluíram a ponto de se tornarem uma política social que integrasse as favelas ao tecido urbano e aos serviços públicos da cidade. Elas foram mantidas na marginalidade, centralizando a questão da segurança pública como preponderante. Contudo, houve exceções, como as de algumas favelas da Zona Sul nas mesmas condições de UPP, transformadas em “paraísos turísticos” pela iniciativa privada, fato que ensejou certa dinamicidade econômica a esses locais. Enquanto isso, as favelas da Tijuca e de outros bairros foram apenas protegidas por um cinturão policial que parece estar perdendo força à medida que o próprio Estado do Rio de Janeiro admite seu estado de calamidade pública.

Por fim, é preciso reconhecer que o "fôlego" reconquistado pela Tijuca nos últimos anos, em matéria de investimentos públicos e privados (resultando na renovação de alguns serviços), é atribuído expressivamente a essa "tranquilidade" propiciada pelas UPPs. Havendo um prenúncio de falência dessa política, o que esperar do futuro da Tijuca nesse pós-Olimpíadas, em que provavelmente experimentaremos um período de recessão ainda mais profundo? 

Como parte da minha pesquisa de mestrado no Instituto de Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ) sobre a Tijuca, tenho algumas hipóteses (pessimistas) sobre isto. Prometo comentá-las na próxima publicação. 
 

25 de jul de 2016

A Barra nunca esteve tão longe da Tijuca: os problemas das linhas 301, 302 e 345

Linha 302, na Rua Doutor Satamini: os muitos problemas da conexão entre a Tijuca e a Barra via ônibus.

Da Barra para a Tijuca, da Tijuca para a Barra: deslocar-se entre esses dois lugares em transporte público nunca foi tão caótico. Famosa “extensão” da Tijuca até os anos 1980, a Barra hoje vive a sua epopeia no campo da mobilidade urbana com a chegada do metrô ao Jardim Oceânico e a implantação do Bus Rapid Transit (BRT) na Avenida das Américas. Mas, parece que quanto mais próxima a Barra vai ficando da Zona Sul e do Centro, mais distante ela fica da Tijuca. E não se trata de uma mudança geográfica (pois isto seria impossível): é o sucateamento das linhas de ônibus que ligam a Tijuca à Barra o motivo de tal percepção.

Atualmente, existem três itinerários que fazem esse trajeto: 301 (Rodoviária x Barra da Tijuca, via Américas), 302 (Rodoviária x Barra da Tijuca, via Praia) e 345 (Candelária x Barra da Tijuca). Todas essas linhas circulam pelo eixo viário da Tijuca rumo à Barra, passando pelo Alto da Boa Vista. Mas, desde 2011, a queda na qualidade do serviço tem sido notória e gradativa. Os frescões foram substituídos por veículos não refrigerados e, em muitas das vezes, parecidos a carroças. Muitos usuários afirmam que o motor não é potente o bastante para subir o Alto, causando transtornos à fluidez do tráfego na Avenida Edson Passos:

— Eu pego as linhas 301 e 345 diariamente e posso afirmar que é uma vergonha o que fazem com os passageiros. Todos os dias vejo ônibus enguiçados devido às péssimas manutenções nos ônibus que já deveriam ter virado sucatas. Sobem o Alto da Boa Vista mais lentos que uma bicicleta, e descem a toda para recuperar o tempo perdido. Já estive em dois ônibus que perderam o freio, mas a sorte é que um deles perdeu logo depois da descida e bateu devagar no ônibus da frente, quebrando todo o vidro mesmo assim – relatou Julio Cesar Camarate, morador da Praça Afonso Pena.

As péssimas condições de viagem também se confirmam no depoimento da gaúcha Fernanda Teodoro. Radicada na Usina, Fernanda é jornalista e vai diariamente ao Barra Shopping, onde trabalha, sempre por volta das 8 horas da manhã. Para ela, o agravante tem sido a diminuição da frequência dessas linhas no horário de rush, cujo intervalo pode chegar a quase meia hora de espera no ponto de ônibus. Dessa maneira, os veículos partem lotados da Tijuca em viagem não muito confortável dada a sinuosidade da estrada e as más condições de higiene no interior dos carros. Além disso, Fernanda destaca a má conduta dos motoristas como aspecto ainda mais desfavorável:

— Um dia o motorista bateu em outro ônibus ao dar marcha a ré no Terminal Alvorada, quebrando umas três janelas de vidro. O que você acha que o motorista fez? Seguiu viagem com os cacos de vidro em toda parte traseira! Por que não trocou já que ainda estava na Alvorada?


Nos anos 1990, a Auto Viação Tijuca chegou a oferecer linhas de ônibus especiais entre
a Saenz Peña e o Barra Shopping. Fonte: Cia de Ônibus.

Até 2011, também era possível viajar até a Barra (e vice-versa) nestes veículos refrigerados.
As mudanças datam do período de transição regulatória do serviço de ônibus no Rio,
com a criação dos consórcios.

O tijucano Alejandro Sainz de Vicuña, por sua vez, ressalta o não cumprimento dos itinerários sem aviso institucional prévio aos passageiros. Vicuña trabalha na região da Barrinha, trajeto considerado “fora de mão” pelos motoristas já que fica em sentido contrário à alça de acesso da Avenida das Américas:

— A linha 302, agora, é a única que entra na Barrinha. Para piorar, de noite, na Barrinha vazia, muitos motoristas seguem direto para o Itanhangá, deixando quem está no ponto de ônibus da Barrinha esperando feito trouxa. De dia isso acontece também. Arrisco a dizer que ocorre em mais de 50% das vezes. Em muitas delas, estou indo para o trabalho e o motorista grita aos passageiros: “Alguém vai para a Barrinha?”. Se ninguém disser que vai, ele não entra e deixa todo mundo que está lá no ponto esperando ainda mais.

Vicuña ainda problematiza ao lembrar dos turistas que vêm à Tijuca de metrô como meio de se chegar à Floresta da Tijuca, no Alto da Boa Vista, em transporte público:

— Tomo o ônibus na Conde de Bonfim, na altura da Rua Henry Ford. A sinalização do ponto é antiga, deve ter mais de uma década, pois a numeração dos ônibus já mudou duas vezes e a mesma sinalização continua lá, confundindo quem não está acostumado a tomar ônibus ali e turistas. Sim, muitos turistas que vão visitar a Floresta da Tijuca, no Alto da Boa Vista, não conseguem sequer saber onde tomar o ônibus. E, volta e meia, os motoristas, como de costume, passam direto quando fazemos sinal – pontuou.


Linha Afonso Pena x Barra, criada em 2013, foi extinta sem maiores explicações ao público.

Outro motivo aparente para a queda na qualidade do serviço se deve ao monopólio da Auto Viação Tijuca. A falta de linhas concorrentes justifica a precarização do serviço oferecido pela “Tijuquinha”, que já procurou qualificar-se recentemente. Com fins de atender a população do Alto da Boa Vista, a Secretaria Municipal de Transportes lançou em 2013 a Linha Especial Coletora de Dados (LECD6) Praça Afonso Pena x Barra. A empreitada surgiu como uma forma de se experimentar a eficiência de um novo itinerário, mais otimizado, entre a Tijuca e a Barra. Contudo, a LECD6 foi extinta no início de 2015 sem maiores explicações à comunidade.

Com a inauguração do BRT e da Linha Quatro do metrô, é provável que os tijucanos passem a ouvir campanhas institucionais orientando-nos a usar o metrô até Ipanema e, de lá, até o Jardim Oceânico. Para o tijucano Fred Rocha, morador da Afonso Pena, a solução é inviável:

— Vão dizer “ah, agora tem o metrô”. Não, infelizmente o metrô não vai atender o trajeto Tijuca-Barra. A Linha Quatro vai ser apenas para estabelecer a relação da Barra com a Zona Sul – opina ele, quem considera “surreal” o trajeto da Tijuca à Barra via metrô.

* O passeador tijucano agradece a contribuição de Gabriel Reis, Jailson Pontes, Julio Cesar Camarte, Vanessa JM, Alejandro Sainz de Vicuña, Fred Rocha, Diego Carrara Bacellar e Diogo Belart.

23 de jul de 2016

A nova Praça Varnhagen: impressões e expectativas

A nova Praça Varnhagen: finalização das obras contra as enchentes devolve o "Baixo Tijuca" aos tijucanos.

A longa espera chegou ao fim há pouco mais de um mês. Símbolo da boemia tijucana, a Praça Varnhagen foi reinaugurada no último 12 de junho, encerrando dessa maneira o grande conjunto de obras contra as enchentes na região. Com orçamento inicial de 188 milhões de reais financiados pela Prefeitura do Rio e o Ministério das Cidades, foram construídos três grandes reservatórios subterrâneos para escoar a água das chuvas. De espaços de lazer a canteiros de obras, as praças da Bandeira, Niterói e Varnhagen viveram pelo menos três anos de sufoco em meio a retroescavadeiras, guindastes e muitos tapumes.

Com isso, a devolução da Praça Varnhagen à comunidade da Tijuca representa não apenas a finalização de todo esse conjunto de obras, mas também a retomada do “Baixo Tijuca” na vida noturna do bairro. Nos últimos anos, percebeu-se a chegada de novos bares e restaurantes ao entorno, principalmente na Rua Almirante João Cândido Brasil, indicando que o polo ainda tem grande força notívaga na Zona Norte. Com a recuperação do espaço anteriormente fechado à população, é possível que os frequentadores locais reencontrem na praça uma alternativa de socialização noturna caso a Secretaria Municipal de Ordem Pública não coíba a venda de bebidas por ambulantes ali.

O desenho da ciclovia, que liga a Barão de Mesquita à Vila: estação do Bike Rio ficou na Avenida Maracanã.

O playground: brinquedos modernos e piso especial anti-queda atrai a molecada do bairro.

Por outro lado, quem achava que a Varnhagen voltaria à sua velha forma, enganou-se. Como tem sido de praxe na gestão do prefeito Eduardo Paes, as praças reinauguradas na Tijuca são idênticas umas às outras do ponto de vista paisagístico. O polêmico piso de pedras portuguesas, por exemplo, símbolo urbanístico da região, foi substituído de vez pelas placas de cimento. O curioso nisto tudo é que embora tenha havido grande empenho de verba pública em obras para controlar as furiosas enchentes que castigavam o bairro, a concepção da praça em si, no fim de contas, parece ter ido na contramão desse plano de controle. Afinal, quanto mais acimentado for o piso, menor será a capacidade de impermeabilização do solo.

Gaiola junto ao centro de controle: Varnhagen era o antigo reduto dos passarinhos, até os anos 1990.

Além disso, a fraca arborização da nova Praça Varnhagen promete ser um problema térmico nos meses mais quentes. O crescimento das palmeiras instaladas às margens da Avenida Maracanã seguramente demorará algumas décadas para alcançar o porte das árvores frondosas. Mesmo depois de crescidas, é preciso reconhecer que as palmeiras são uma espécie arbórea com fins mais ornamentais do que socioambientais. No Rio, essas versões esquálidas e pequeninas das palmeiras não são exclusividade das novas praças da Tijuca: sua adoção se estende até mesmo à badalada Praça Mauá, na Zona Portuária, e na recém-inaugurada Praça Antero de Quental, no Leblon.

Bancos de cimento: novo mobiliário.
Contudo, é durante o dia quando a Praça Varnhagen mais se enche de vida. Antigo reduto da feira de passarinhos (hoje situada junto à estação São Francisco Xavier do metrô), pode-se dizer que atualmente a Varnhagen seja o reduto “da família”. O moderno playground tem atraído crianças de toda a vizinhança, inclusive daquelas mais pequenininhas, que passeiam sonolentas nos carrinhos. Cachorros e outros animais de estimação também são figurinhas fáceis por lá. A poucos metros da criançada - e da cachorrada em coleira - fica a academia da terceira idade. Os novos aparelhos de ginástica chamam a atenção dos idosos, que ali se dedicam ao exercício físico com entusiasmo.

A temperatura amena deste inverno também tem propiciado agradáveis banhos de sol àqueles que se põem a descansar nos bancos da Praça Varnhagen. Feitos de blocos de cimento, os bancos têm cara e forma de mobiliário urbano barato, embora sejam bonitos pela simplicidade. Outras duas atrações da praça são o reservatório subterrâneo e a pista de patinação. No primeiro, pedestres curiosos observam frequentemente a profundidade do tanque pelas frestas do piso em forma de gradil utilizado naquele trecho da praça. No segundo, o antigo espaço do chafariz atrai patinadores sobretudo iniciantes, além de alguns skatistas. O que ficou de fora, entretanto, foi o posto de retirada de bicicletas do Bike Rio, colocado no canteiro central da Avenida Maracanã em agosto de 2014.

Mas, não faz mal: reinicio de praça é sempre assim mesmo, um período de ajustes e reajustes. Os tijucanos e visitantes saberão muito bem como se apropriar desse espaço e desfrutá-lo como merece. Bem-vinda de volta, Varnhagen!




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