30 de mar de 2014

A riqueza do lado de cá do Rebouças

O Globo, de outubro de 1993, fala sobre os hábitos sofisticados dos tijucanos cujo bairro de moradia
era a maior renda per capita do município

É muito curioso observar como o prestígio de um determinado bairro pode estar muito associado ao nível de renda de seus moradores. Quanto mais alto, mais admiração e notoriedade se lhe oferece, sobretudo por parte da imprensa e dos veículos de comunicação. Por outro lado, sabemos bem que essas questões econômicas e simbólicas podem ser bastante efêmeras. Se no início do século XX era a Rua do Ouvidor o grande “barato” da cidade, hoje é o Leblon com seus apartamentos milionários e estilo de vida fetichizado a bola da vez. Mas há 20 anos, por exemplo, a Tijuca, mesmo que nunca tenha sido um bairro midiático, é quem aparecia no “topo” das maiores arrecadações de impostos do município, sendo sua região estimada, aliás, como uma das maiores renda per capita do Brasil.

Foi com base nesse panorama de estabilidade financeira tão característica do bairro que o Shopping Iguatemi, precursor dos shopping centers de luxo no país, resolveu abrir suas portas no antigo campo do America Football Club, na esquina da Rua Teodoro da Silva com Rua Barão de São Francisco, em Vila Isabel, no ano de 1996. O Iguatemi, vale ressaltar, foi o primeiro shopping da Grande Tijuca e, não à toa, experimentou certo êxito nos seus primeiros anos ao oferecer ao consumidor da região da Tijuca um sem-fim de grifes nacionais e internacionais num espaço cômodo, refrigerado e livre de “violência”. A Praça Saenz Peña, principal reduto comercial até então, vinha sofrendo constantes ataques de assaltantes e arrastões.

Fachada do extinto Iguatemi Rio, em Vila Isabel
Entretanto, o Iguatemi parece ter chegado um pouco tarde demais à Grande Tijuca, pois, se sua intenção era aproveitar-se do alto poder aquisitivo dos tijucanos e vizinhos, estes mesmos tijucanos, de famílias mais endinheiradas, foram deixando o bairro, aos bandos, durante os violentos anos de 1990, precisamente quando o Iguatemi aportou na Vila. Como bem se sabe, houve um expressivo êxodo rumo à Barra da Tijuca e a alguns bairros da Zona Sul. A Tijuca entrou os anos 2000, então, já sem o pomposo status de maior renda per capita da cidade, tão referenciado por essa reportagem coletada do caderno "Tijuca", do Jornal O Globo de 1993, falando sobre “as pessoas sofisticadas da Tijuca”, que vocês poderão ler mais lá para baixo.

O Iguatemi, por sua vez, entrou em decadência devido à ausência do público-alvo almejado e à proximidade com o Morro dos Macacos, bastante violento especialmente naquela época. Com isso, veio modificando seu mix de negócios gradativamente até retirar-se do mercado carioca por completo, transformando-se em Boulevard Rio. A concorrência com o Shopping Tijuca, inaugurado no final de 1996, também pesou muito na balança já que a redução do poder de compra parece ter sido mais acentuada em Vila Isabel do que na Tijuca.

Mas voltando à reportagem de O Globo, encontrada graças ao ótimo acervo online do jornal, é interessante apontar como a repórter Andréa Magalhães procura transmitir uma ideia de prosperidade entre os tijucanos que, vista distanciadamente, soa um pouco caricata para os dias de hoje. Nos anos de 1990, a ostentação ao luxo e suas respectivas simbologias não eram qualificados tão pejorativamente como em 2014, ano em que este texto foi escrito. A classe média não tinha receio de dizer o que pensava e muito menos de transparecer a sua tão sonhada vocação para ser parte da classe dominante, tampouco em exibir seu "bom gosto". A separação das classes sociais e dos hábitos "sofisticados" dos "populares" fica muito em evidência, especialmente quando se fala do valor que se tem vinculado no esporte elitizado que é o tênis (carro-chefe até hoje do Tijuca Tênis Clube) e na ênfase que se dá ao fato de que morar "bem" na Grande Tijuca era só para quem tinha "muito dinheiro". 

Em virtude desse cenário, não fica difícil, então, entender por que o status da Grande Tijuca sofreu tanto com a violência e favelização naquela época. Afinal, em qualquer grande cidade, a "pobreza" está sempre à espreita da "riqueza", em suas margens. No fim de contas, o prestígio acabou por descer o Alto da Boa Vista rumo à Barra da Tijuca, consagrando a Tijuca, desde então, como um bairro exclusivamente de classe média e, por vezes, decadente. Nem preciso dizer que nos anos 2000 a Tijuca foi pauta de reportagens com teores bem menos afáveis do que esta de 1993, não é mesmo?

Nas estatísticas de 1993, a região da Tijuca ultrapassa em renda a Zona Sul


O Globo, 19/10/1993.
A riqueza do lado de cá do Rebouças
Temperada pelos hábitos sofisticados de muitos moradores, a Tijuca tem a maior arrecadação de ICMS do Rio e uma das mais altas rendas per capita do país

Por Andréa Magalhães

Do lado de cá do túnel também há grandes fortunas. Dados recentes da Secretaria Estadual de Fazenda, do IBGE e do IplanRio apontam a Tijuca como o bairro que mais arrecada ICMS no Rio e como uma das áreas de maior renda per capita do país. Mais de 20% das famílias residentes têm rendimento médio mensal superior a 20 salários mínimos. 
Diante de contas bancárias recheadas, o comércio consegue lucros significativos. A rede McDonald’s, por exemplo, inaugurou sua loja em abril e, atualmente, é a que mais vende no Rio. Os comerciários asseguram que os moradores são compradores em potencial, mas sempre muito exigentes quanto aos produtos e ao atendimento. 
José Antônio Grabowsky, diretor da Icatu Empreendimentos Imobiliários, empresa envolvida na construção do Shopping Iguatemi-Rio, no terreno do estádio do América Football Club, diz que a Grande Tijuca – Andaraí, Vila Isabel, Grajaú, Maracanã, Usina, Muda, Alto da Boa Vista, Praça da Bandeira e Tijuca – registra um dos maiores índices de consumo do país: 
— Contando com as regiões ao redor, o que soma 20 bairros, são 380 mil residências, 1,4 milhão de consumidores e uma renda per capital média igual à de Ipanema, da Lagoa, do Jardim Botânico, da Gávea e do Leblon. 
Para Marcos Arêas Ferreira, gerente-geral de marketing da NET, a Tijuca é uma forte candidata a ser o segundo bairro do Rio a receber a TV a cabo. 
Algumas famílias tijucanas e de bairros vizinhos recebem e frequentam a high society carioca e garantem que não lhes falta know-how e familiaridade com este universo. Segundo Lena Grumbach, diretora comercial da Gorgeous, a tijucana das classes A e B alta, independentemente de sua idade, é uma consumidora exigente e que quer estar sempre bem vestida em eventos sociais. Lena diz isso respaldada em sua experiência profissional e também nas lembranças de quando morou no bairro:
— A tijucana tende a optar pelos modelos mais clássicos e adora crepes, tafetás, chamois e roupas bordadas. Apesar de tender ao conservador e tradicional, não gosta de usar tons pastéis em festas, porque tais cores não chamam atenção. Vestidos pink, azul royal e púrpura saem muito. Também vendemos saias longas, spencers e peles de coelho com facilidade. E, atualmente, muitos vestidos longos.
Edly Saraiva não esconde que, quando vai à loja, pensa em comprar algo que a deixe “maravilhosa”:
— Para mim, é fundamental me sentir bonita e produzida para um evento.
Fazer a cabeça dos moradores classes A e B alta da Grande Tijuca não é fácil. Exigentes, eles prezam cortes e penteados adaptados ao seu estilo e padrão de vida. E, no geral, como afirmam os grandes coiffeurs da área, não se deixam seduzir por modismos.
Segundo o italiano Stefano Sangalli, diretor de franquia no Brasil da marca Jean Louis David, os clientes da Tijuca e bairros vizinhos são pessoas de bom gosto:
— No nosso recém-inaugurado salão, no Unishopping, na Universidade Estácio de Sá, alguns comentam que já tinham ido em franquias no exterior. Já percebi que gostam de se sentir como reis e rainhas.
Vera Lúcia Mosconi passou dois meses em Paris, treinando a técnica Jean Louis David com o próprio. Ela comenta que suas clientes são tão exigentes quanto as européias.
— Da recepção ao resultado final do corte ou penteado, tudo tem que ser 100%. A maioria preza serviços rápidos, e, para isso, nossa técnica exclusiva é perfeita.
Para a cliente Teresa Cristina Rodrigues, um bom corte é essencial:
— Preciso de um corte prático, perfeito para a vida profissional, e que, com um toque especial, esteja ótimo para um evento social.
Varandão e muito espaço nos imóveis 
Morar bem na área da Grande Tijuca não é difícil, desde que se tenha muito dinheiro. As construtoras lutam por terrenos nas ruas nobres: Dezoito de Outubro, Garibaldi e Itacuruçá, principalmente. Nelas, apartamentos de três ou quatro quartos são mais caros que seus equivalentes na Barra da Tijuca ou na Gávea.
Segundo Sérgio Magalhães, gerente comercial da Encol, as classes A e B alta da região não dispensam grandes varandas, salas amplas e dependências de empregada. Além disso, exigem dispositivos de segurança no prédio, áreas de lazer e duas ou três vagas na garagem. Nas fachadas, o granito faz sucesso:
— Tenho um amigo que diz que o tijucano é como o morador dos Jardins, em São Paulo. Os que têm mais dinheiro são muito exigentes quanto à sua moradia.
Sérgio informa que, nos 12 anos da Encol no Rio, a Tijuca sempre foi o bairro com menor índice de inadimplência. Daí, ele afirmar ser o tijucano seu melhor comprador.
Ele informa que, na Tijuca, apartamentos de três e quatro quartos custam, respectivamente, US$ 75 e 98 mil (cerca de CR$ 9,3 e CR$ 12,15 milhões). Na Barra, tais valores caem para US$ 70 e 92 mil (cerca de CR$ 8,68 e 11,4 milhões):
— Na Tijuca, vendemos 20 apartamentos de luxo em dois meses. Na Zona Sul, em três.Para mobiliar tais imóveis, muitos não dispensam criações de designers europeus. Na Ligne Roset, próxima à Saens Peña, Francisco Barbosa e Rosilda Araújo informam que todos os móveis têm modelos criados na França.

Vida ganha, é hora de jogar tênis
De raquete em punho, eles começam a chegar ao Tijuca Tênis Clube (TTC) às 6h. pressa não existe, porque a vida já está ganha. A maioria já passou dos 40, admite que pertence às classes B alta ou A, e acha o tênis um esporte sofisticado, elitizado e caro.
— Para jogar tênis, é preciso ter dinheiro. Um jogador de competição deve ter, no mínimo, três raquetes, já que, durante as partidas, é normal que elas sejam danificadas. Cada raquete americana fica em torno de US$ 150 (aproximadamente CR$ 18,6 mil). Se uma corda arrebenta, a troca do material fica por cerca de US$ 10 (CR$ 1,24 mil). Para muitos tenistas, tal troca ocorre a cada dois jogos – conta Hélcio Ferreira, vice-presidente de tênis do clube. 
Hélcio acrescenta que a manutenção das oito quadras de saibro também é cara. A cada três anos, elas têm que ser reconstituídas: tira-se a terra, troca-se o saibro, refaz-se a drenagem e troca-se as linhas de marcação. Isso tudo não sai por menos de US$ 1 mil (cerca de CR$ 124 mil), por quadra:
— O tênis é um esporte de elite. Por ter custos altos, precisa muito de patrocínio.
Enquanto isso, o advogado Arthur Favilla comenta que seus companheiros de partida são juízes, empresários e militares reformados:
— São pessoas mais afortunadas. Costumamos conversar sobre o esporte – que exige muita coordenação motora e bons reflexos –, política e economia.
O cônsul de Cabo Verde no Brasil, Aníbal Waldemar Chantre Oliveira, morador do bairro, diz que em seu país o esporte não é elitizado.

Sem medo de ser milionário
À boca pequena, comenta-se que os tijucanos não gostam de falar a respeito do dinheiro que têm. E há quem brinque dizendo que, às vésperas de um cruzeiro para a Europa, são capazes de falar em dificuldades financeiras.
Aos 52 anos, Álvaro Barros Moreira, o “Álvaro da Camélia”, é uma exceção. Considerado o grande comerciante do Mercado das Flores, no Centro, o tijucano gosta de falar e até de mostrar suas duas Mercedes e jóias. Ele também não deixa de mencionar que sua mansão, numa rua sem saída e com segurança particular, no Alto da Boa Vista, tem quatro andares e 13 banheiros:
— Quem costuma vir aqui é Roberto Dinamite. Ele gosta do meu campo de futebol e da quadra. Artur Sendas é meu vizinho e companheiro de sueca, junto com o publicitário Cleverson Valadão. Artur sempre perde.
Cercado por vizinhos importantes – outro é Manoel Fontes, dono da cadeia de supermercados Três Poderes –, Álvaro diz que a Tijuca é um bairro nobre:
— No que se refere a famílias importantes, o bairro não podia ser mais nobre. Há muitas pessoas ricas. No meu caso, tudo o que consegui foi à custa de muito trabalho. Tive uma infância muito pobre e cedo aprendi a valorizar o trabalho. Até hoje, minha rotina profissional vai das 6h às 19h.

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