25 de mar de 2014

O Tijucano, caso de paixão radical

Reprodução da reportagem de 1990
Em março de 1990, o Segundo Caderno do Jornal O Globo publicou uma reportagem sobre o jeito de ser do tijucano, figurinha carimbada e pra lá de peculiar no imaginário carioca. A peculiaridade é tanta, aliás, que o tijucano chega a ser, por vezes, uma das 20 coisas mais irritantes que existem no Rio, conforme apontou o blog Diário do Rio em 2013, em tom de brincadeirinha. Maldade. Seja positiva ou negativa, a nossa fama incide sempre sobre um mesmo aspecto: o do bairrismo. Tijucano só é tijucano porque é bairrista, amamos o bairro acima de qualquer coisa, mesmo que, às vezes, tenhamos de criticá-lo e desqualificá-lo para logo em seguida, após um ataque súbito de racionalidade, voltar à emoção da coisa e afirmar, balançado: “É, fora todos os problemas, a Tijuca é mesmo muito boa para se morar!”.

A reportagem “Caso de paixão radical”, assinada pela repórter Cláudia Belém, disserta sobre o comportamento e o perfil do tijucano no início dos anos de 1990, quando o nosso bairrismo devia ser ainda mais forte do que hoje dada a quantidade de tradições significativas que seguiam preservadas naquela época. Entrevistando tijucanos ilustres, como alguns atores da TV Globo que eram residentes do bairro, a matéria comentava sobre as nossas preferências em consumo e na política – como, por exemplo, a afeição dos moradores pelo Bob’s em detrimento do McDonald’s e a nossa predisposição a sempre votar para quem está na oposição, como no caso do Lula nas eleições de 1989 –, assim como o preconceito de quem vive na Zona Sul em relação ao tijucano.

Leia a matéria na íntegra:

O Globo, 13/03/1990. 
Caso de paixão radical
Bairrista assumido, o tijucano dribla as piadas maldosas e se orgulha de morar na Zona Norte chique. 
Por Cláudia Belém 
Um bravo cavaleiro tentou cruzar a montanha, mas encontrou no seu caminho um túnel que, para deixá-lo passar, exigiu a solução de um enigma. Da boca do túnel saiu a seguinte frase: qual o ser que de manhã toma sorvete no Palheta da Praça Saens Peña, de tarde namora no Alto da Boa Vista e à noite foge para a Barra? Sem a possibilidade de erro, o bravo cavaleiro respondeu de uma só vez: 
— O tijucano.

Qual o outro carioca que é qualificado pelo bairro que mora, com direito a apelido, nome e sobrenome? Quem não ouviu um amigo pedir a outro, tijucano, o passaporte para atravessar o Túnel Rebouças? Quem é mais bairrista, defensor de seu território, com intimidade suficiente para chamar a Praça Saens Peña só de Praça, a Barra da Tijuca de minha praia e o trailer Via Onze de meu cachorro quente? Resposta certa: o tijucano.

Por isto foi fácil ao bravo cavaleiro solucionar o enigma proposto pelo túnel, tal como Édipo na lenda grega em que também é obrigado a decifrar um enigma elaborado pela esfinge para entrar na cidade sitiada onde estavam seus pais. Quando criança, o tijucano passeia na Praça Saens Peña, adora o sorvete do Palheta e do Pinóquio e os sanduíche do Bob’s, que ele não trai por nenhum McDonald’s. adolescente, ele sobe ao Alto da Boa Vista para namorar. Adulto, frequenta os teatros da Zona Sul e sonha em morar na Barra, da Tijuca. 
Todo carioca da gema sabe disso. Mas Miguel Falabella, criado na Ilha do Governador, atravessou o Túnel Rebouças, sem passaporte, e levou, pela primeira vez, este estereótipo para o palco, através de uma personagem tijucana, interpretada por Natália do Valle na peça “A Partilha”, em cartaz no Teatro Cândido Mendes e, a partir de abril, no Vanucci.
Selma, a tijucana, tem três irmãs, uma jornalista, uma esotérica e outra que vive às custas do marido em Paris. Unidas para divisão dos bens da mãe, após a sua morte, as quatro se degladiam na partilha das culpas e desejos que uma depositou na outra. Apesar do forte tom emocional, o texto de Falabella arranca boas gargalhadas do público, pelas quais Selma é uma das grandes responsáveis, quando defende bravamente a “sua” Tijuca das pilhérias das irmãs.
— Eu nunca morei na Tijuca mas acho que ser tijucano é como ser flamenguista. Tem uma torcida muito forte — acredita Natália.

O compositor Aldir Blanc, morador convicto do bairro, acredita que o tijucano ama tanto a Tijuca que nada o faz sair de lá. O tijucano é mesmo um apaixonado radical. Mas, depois de descoberta a Zona Sul, o tijucano tem duas opções. Ou fica no bairro e assume sua posição de Zona Norte chique, ou se rende à tentação e se muda para o lado de lá do túnel. O ator Pedro Paulo Rangel, que vive no Rio Comprido desde os 11 anos, resistiu e continua firme e forte no bairro, apesar de hoje pouco frequentar os points do bairro. 
— Com o trabalho e as novas amizades, a gente vai mudando. Hoje, eu passo pela Tijuca e sempre vejo alguma coisa nova, que não tinha na minha época. Afinal, eu tenho um referencial antigo do bairro porque passeei a minha adolescência lá, em bailes do América, aprendendo a tocar acordeon na casa da professora perto da Praça Afonso Pena ou estudando no Instituto Laffayete. A Lúcia Alves e a Tânia Fayal eram da minha turma. 
O ator conta que gostava de frequentar dois cinemas “poeiras”, fechados já há muitos anos:
— Um deles era o Olympia, muito grande, com três andares, e o Sky, que era pequenininho e ficava em uma galeria. Eu ainda peguei o tempo em que a Avenida Paulo de Frontin não tinha o viaduto e era linda, com os lados do canal gramados. Eu adorava ir ao Café Palheta. Era chique. E lembro que a gente ia a um bar na Haddock Lobo para fumar cigarro, que na época era o Capri. E tinha o Metro, com aquele cheiro de ar de montanha que saía do ar condicionado — lembra o ator, saudosista.
Uma questão de fuso-horário
A devoção pelo bairro é uma característica que não escolhe idade. A atriz Flávia Monteiro, de 17 anos, por exemplo, diz que só sairia da Tijuca para morar em um superapartamento na Lagoa com vista ampla e em andar alto. Enquanto a oportunidade não aparece, ela curte as amizades feitas durante os três anos em que estudou no Colégio São José, quando, depois das aulas, saía para fofocar e comer cachorro-quente no Bob’s Drive Thru, ao lado do Tijuca Off Shopping:
— O grande programa nas tardes vazias é passear na Praça Saens Peña.
Mas este programa tijucano vai perdendo a graça a partir do momento em que a adolescente entra na fase adulta. O que está ocorrendo com Flávia. Agora, ela enfrenta as dificuldades de se locomover para a Zona Sul. Sem carona dos amigos, que vivem no lado “chique” da cidade, ela depende dos pais para ir e voltar das festas e de ônibus lotados para chegar até o trabalho.
Não é à toa que todo tijucano é fascinado pela possibilidade de alcançar os 18 anos e conquistar a carteira de motorista. Ele está descobrindo os prazeres da Zona Sul mas a praia ele não trai. Continua sendo a mesma Barra, para qual, antes, ele ia de 233 com a prancha de surfe ou de bodyboard apertada no estreito corredor do ônibus.
A entrada no mundo mágico da Zona Sul, entretanto, tem um preço. Dos amigos moradores de Ipanema ou Copacabana o tijucano sempre ouve uma explicação para o atraso: o “fuso horário”. Flávia Monteiro conhece estas brincadeiras e conta que muitos dos seus amigos a chamam de “tijuquinha”.
Erasmo Carlos não enfrentou este tipo de preconceito. Ele foi um tijucano não típico, verdadeiro transgressor para os anos 60, que costumava se reunir com Jorge Ben Jor e depois com o morador do Lins Roberto Carlos, no bar Divino, na Rua Haddock Lobo, que existe até hoje:
— A Tijuca, junto com o Méier e a Pompéia em São Paulo, tem a honra de ser o berço do rock brasileiro. Eu lembro que a gente ficava ali no bar paquerando as menininhas que saíam do Cine Madri, entre uma briga e outra. Depois, aparecia um violão e não queríamos sair de lá por mais que o dono do Divino quisesse descer as portas. Acabavam chamando a polícia, que levava o nosso violão e nos deixava na rua. 
Como o delegado só devolvia o violão na manhã seguinte, passamos várias noites na porta da delegacia.
Se o rock nasceu na Tijuca, de lá para cá nada mais aconteceu. Apesar de ser, ao lado de Copacabana, o bairro que tem o maior número de cinemas do Rio, a Tijuca só assiste filmes comerciais de grande sucesso. Os teatros nunca tiveram uma vida longa.
Esta história só começou a ser quebrada com o novo aproveitamento do Teatro do Sesc e a inauguração do Teatro Ziembinski. O ator e diretor Walmor Chagas, à frente do Ziembinski, enfrenta a falta de tradição cultural do bairro e o preconceito do morador da Zona Sul em atravessar o túnel.

— Aliás, eu não acho nem mesmo que seja preconceito. É, simplesmente, outra cidade. O carioca da Zona Sul não vem à Tijuca porque ele não conhece o bairro e acha distante vir para cá. Uma das atrizes do elenco que está ensaiando a peça “Eu me lembro”, aqui no teatro, é tijucana. Ela conta que era obrigada a dar suas festas de aniversário na casa de amigas, na Zona Sul, porque, se desse em sua casa, ninguém aparecia.
Mas Walmor acredita que esta situação pode ser modificada. Ele garante que 70 por cento de seu público é formado por moradores da Tijuca e bairros vizinhos. Para ele, as razões para nenhum teatro ter conseguido sucesso no bairro é a falta de regularidade e de bons espetáculos. 
Mesmo sofrendo os preconceitos ou as brincadeiras do carioca da Zona Sul e sem muitas opções de lazer depois das 22h, o tijucano é arraigado à sua terra. Aceita as críticas com um sorriso amarelo, quando não parte para a briga na defesa pelo seu bairro. Afinal, como diz Natália do Vale na última cena de “A partilha”:
— Eu não deixo a minha Tijuca por nada deste mundo. 

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