27 de abr de 2014

O Alzirão, maior precursor da "Fan Fest" na cidade, é dificultado pela FIFA

Panorama do Alzirão durante a Copa de 2010 (Foto: Zulmair Rocha/UOL)

Quem mora no Rio com certeza deve saber que, de quatro em quatro anos, a esquina das ruas Conde de Bonfim e Alzira Brandão, aqui na Tijuca, é interditada para dar espaço ao Alzirão, a maior festa de rua da cidade em épocas de Copa do Mundo.

O evento, que chegou a congregar um número que beirou o de 40 mil pessoas na Copa de 2006, teve início em 1978 quando um grupo de quatro amigos resolveu pôr uma TV de 20 polegadas no meio da rua para assistirem juntos à Copa daquele ano, na Argentina. Em 82, o mesmo grupo se reuniu novamente para pintar a via e decorá-la com motivos patrióticos. Ao longo dos anos, tal reunião só foi crescendo até tornar-se um grande evento, chegando a ter patrocinadores e tudo, sob a simpática alcunha de Alzirão.

Reprodução de O GLOBO (27/04/14)
O Alzirão é o maior precursor do modelo de Fan Fest (nome em inglês metido à besta para festa de rua) que a FIFA, a multinacional do futebol, pretende bancar nas cidades brasileiras que sediarão as partidas. A diferença é que, em tempos de tanta importância turística aqui no Rio, o tradicional Alzirão parece não ter tido muito apelo midiático para que a festa tijucana fosse a oficial da cidade, que, por sua vez, será realizada na praia de Copacabana. Local mais estratégico - na ótica do turista, como a da FIFA -, não há.

Por outro lado, isso não impede em nada que o Alzirão aconteça em 2014, mas a festa pode ser, sim, dificultada. Segundo as colunas do jornalista Ancelmo Góis (O GLOBO, 24/04 e 26/04/14) e Gente Boa (O GLOBO, 27/04/14), o Alzirão estaria impedido de ocorrer à revelia da FIFA a não ser que os seus organizadores pagassem um tal de óbolo, um "pequeno" donativo, no valor de R$ 28 mil à multinacional do futebol por direitos autorais. Como a FIFA se diz detentora dos nomes "Copa 2014" e "Brasil 2014", o Alzirão também não poderá fazer menção alguma destes termos durante o evento.

Mesmo diante do absurdo quanto à imposição da FIFA sobre as festas genuinamente cariocas, os organizadores do Alzirão, em entrevista à repórter Carolina Oliveira Castro de O GLOBO, "descartaram a possibilidade de o evento não acontecer e dizem que, se for preciso, vão pagar para realizar a festa". Contudo, o nosso alcaide Eduardo Paes já avisou que "não há hipótese alguma de a FIFA cobrar taxa para o Alzirão funcionar". Menos mal, mas que é inacreditável a interferência, isso não podemos negar.

Que venha, então, o Alzirão, a festa que terá o caráter mais popular de todas em meio a essa Copa de negócios e de transações internacionais...

23 de abr de 2014

Mas, afinal, é Haddock ou Hadock?

Haddock ou Hadock: crise de identidade numa das principais vias tijucanas.

Uma das ruas mais movimentadas da Tijuca sofre de uma certa crise de identidade. A famosa Haddock Lobo, que começa no Largo da Segunda-Feira e finda no Largo do Estácio, leva esse nome graças ao médico, comerciante, delegado e juiz português Roberto Jorge Haddock Lobo, grande personalidade do Rio Imperial. Como bem se sabe, seu sobrenome segue à risca a grafia inglesa do Melanogrammus aeglefinus, peixe mais conhecido como hadoque, na versão portuguesa.

No entanto, desde a implantação da nova sinalização de logradouros, em 2007, o tal sobrenome teve um "D" reduzido, figurando, agora, nas placas, simplesmente como Hadock Lobo. O caso chama a atenção, mas não pelo fato de que as pessoas estejam realmente dando bola para isso; a questão é que vê-se claramente a falta de um esclarecimento sobre a grafia correta.

A Haddock Lobo paulistana, situada no luxuoso bairro dos Jardins,
manteve a grafia original do sobrenome em suas novas placas.
(Foto: Revista Veja)
A minha hipótese para tal é que a Prefeitura, ou os elaboradores da Plamarc, empresa responsável pela manutenção dos postes, deva ter querido aportuguesar o sobrenome sem levar em conta que a versão na nossa língua seria "hadoque", e não "hadock". E mais: tratando-se de um sobrenome, ou seja, um nome próprio, a alteração da grafia torna-se um caso ainda mais delicado e questionável.

Circunstância análoga é o da Praça Saens Peña, versão abrasileirada do Sáenz Peña dos ex-presidentes argentinos Luis e Roque - pai e filho, diga-se de passagem. Aí, a adaptação do nome é fato comprovado, ainda que muitos tijucanos (e a própria Plamarc) continuem chamando-na, por escrito, de Saenz Peña. Sonoramente, não interfere em nada. Muito menos em relação ao Haddock. E, honestamente, as pessoas escrevem muito mais Haddock do que Hadock, assim como Saens é mais popular do que Sáenz.

Mesmo que a história assegure que o Haddock do Roberto Jorge (por sinal, amicíssimo do conde de Bonfim tanto na vida real como na cartografia carioca) possua esse dígrafo, o aclamado livro Tijuca, de rua em rua (Editora Rio, 2004), de autoria da historiadora Lili Rose, e do administrador regional da Tijuca Nelson Aguiar, ambos tijucanos, apresenta algo bastante curioso: um cartão postal datado de 1904 da referida rua cuja grafia, veja só, aparece como Hadock Lobo. Isto é, nem mesmo naquela época eles deviam estar seguros quanto à veracidade dos dois "D" do Haddock. Vai entender...

18 de abr de 2014

Obras no antigo externato do Colégio Marista São José estão a todo vapor

O Externato do Colégio Marista São José, na Barão de Mesquita: prestes a ser reativado.

A Tijuca, de pouco em pouco, vem resgatando as suas tradições. Após dezessete anos fechado, o antigo externato do Colégio Marista São José, na Rua Barão de Mesquita 164, será finalmente reinaugurado no ano letivo de 2015. As obras estão a todo vapor, cujo fôlego se deu a partir do momento em que os terrenos situados na parte detrás da instituição foram vendidos para uma incorporadora imobiliária, que já levantou dois novos espigões de luxo voltados para a Avenida Maracanã.

O regresso do São José para a Barão de Mesquita fomentará ainda mais a competitividade das escolas neste eixo, como o Colégio Militar, o PH (com filial, além da Rua Professor Gabizo, também na Major Ávila) e o PENSI, assim como o Pedro II e o CEFET, que ficam igualmente nestas vizinhanças.

Fundado em 1902 pelos irmãos Maristas, o Colégio Marista São José é derivado do antigo Colégio Diocesano São José, controlado, até então, pelos padres diocesanos. A primeira sede do Marista ficava no Rio Comprido, chegando à Tijuca apenas alguns anos depois em duas unidades: o Internato, em funcionamento até hoje na Usina, e esse Externato, na Barão de Mesquita, desativado desde 1997.

Dada a tradição do colégio e sua importância para o bairro e para a formação intelectual de muitos cariocas, tramitou um projeto de lei em 1999 (Nº 1067/99) cujo objetivo era o tombamento deste edifício. O decreto, no entanto, só veio a ser homologado no final do ano 2000 (Nº 19.342/2000), sob esta justificativa do deputado Carlos Dias:

As colunas clássicas do Externato em contraste às
varandas modernosas do novo condomínio.
"O Colégio Marista São José é referência cultural deste Estado, tendo contribuído na formação de diversas gerações de brasileiros, assim como o Colégio Militar, o Colégio Pedro II e o Instituto de Educação, educandários que até hoje enobrecem nossa sociedade, tão carente de boas escolas.
Nos bancos do antigo Externato São José, que ora se pretende tombar, a história da educação fluminense foi pautada ao longo deste século, sendo o próprio Colégio testemunha, personagem e palco da vida política, social, cultural e artística do estado, à guisa de exemplos singelos, registre-se que no Colégio discursou Carlos Lacerda momentos antes do atentado da Rua Tonelero; no Colégio reuniram-se bispos e religiosos durante a recente visita do Papa João Paulo II; no Colégio, durante a Segunda Guerra Mundial, foram homenageados os que, ligados àquela comunidade, faleceram nos campos de batalha; no Colégio, até nossos dias, menores carentes são acolhidos à noite, albergados nas dependências dos prédios escolares.
A mídia aventa tristemente a possibilidade de demolição do Colégio, sepultando a memória de muitas gerações de antigos alunos, degradando a já pobre cultura deste Estado, que muito precisa de centros culturais, não podendo dispensar suas histórias referências.
Assim, proponho o tombamento em tela, amparado pelo disposto nos artigos 23, inciso III e IV e artigo 216, caput, inciso IV e §1º, todos da Constituição Federal, bem como também baseado nos preceitos do artigo 322, VIII, e do artigo 324 da Constituição Estadual, cujas regras asseguram a competência da ALERJ para promover tal providência, utilizando como meio de proteção do patrimônio cultural do povo do Estado do Rio de Janeiro". 

O estado do imóvel em 2011, antes da reforma: lixo e degradação.

Houve uma tentativa, entre os anos de 2010 e 2011, de que o Externato fosse alugado para fins comerciais na área da cultura, mas tal estratégia não foi lá bem-sucedida. Àquela altura do campeonato, a sua bela calçada de pedras portuguesas já estava tomada por lixo, entulhos e ratos, sendo utilizada diariamente como ponto final de kombis piratas que faziam o caminho Saens Peña x Avenida Brasil. A retomada das obras, e o consequente retorno do São José para a Barão de Mesquita, é, sem dúvidas, motivo de festejos para os moradores da vizinhança.

15 de abr de 2014

Barão de Itapagipe - Araújos, a ligação de ruas que nunca saiu do papel

Projeto viário Itapagipe-Araújos: passado.
Durante a segunda metade dos anos de 1970, a Tijuca ficou de “pernas para o ar” devido às obras do metrô na região. Demolições, fechamento de comércios, tapumes e muita poeira foram elementos pertencentes ao cenário tijucano na era pré-metrô, que só conseguiu ser inaugurado, depois de muitas postergações, em maio de 1982.

No entanto, não foi somente a entrega das estações metroviárias o produto destas obras. Muito da configuração espacial que existe hoje na Tijuca é advinda deste período, que culminou em grandes mudanças viárias, como a criação da Avenida Heitor Beltrão, por exemplo.

O trecho da Heitor Beltrão compreendido entre a Rua São Francisco Xavier e a Rua Pareto foi inaugurado em 1982, não só como uma nova opção viária de desafogamento do trânsito entre o Centro e a Tijuca, assim como uma forma de se fazer algo de “útil” diante de tantas demolições nesta reta por onde os trilhos do metrô foram implantados na sua parte subterrânea.

Naquela época, antes do metrô, vale lembrar que a Rua Conde de Bonfim, entre a Rua Pareto e o Largo da Segunda-Feira, era mão-dupla. Ou seja, todo o tráfego que existe atualmente na Heitor Beltrão, no sentido Centro-Tijuca, era contemplado pela Conde de Bonfim, o que caracterizava, sem dúvida, os famosos engarrafamentos tijucanos.

Uma das soluções para desafogar o caótico trânsito da Conde de Bonfim, segundo jornais da época, seria o prolongamento da Rua Barão de Itapagipe, que finda na Rua Valparaíso, até a Rua dos Araújos. O trecho, de aproximadamente 480 metros, compreendia um número expressivo de residências. Segundo O Globo de 19/07/1976, o então prefeito Marcos Tamoyo já havia assinado decreto autorizando a desapropriação de pelo menos 19 casas na faixa de domínio da nova rua.

Hoje sabemos que tal projeto nunca saiu do papel, talvez até por questões mais delicadas, já que a região era altamente adensada e ocupada predominantemente por classes mais altas – minha hipótese. Ainda nos anos 1970, as ruas próximas à encosta eram muito valorizadas e a favelização ainda não parecia ser algo tão alarmante como na década seguinte.

O esquema de trânsito na Grande Tijuca entre 1976 e 1982. Observe que a linha negra corresponde à reta dos trilhos do metrô, assinalando o traçado da Avenida Heitor Beltrão, inaugurada posteriormente.

Se houvesse sido concretizada, teríamos na atualidade mais uma opção viária no bairro conectando a região central e o Túnel Rebouças com os arredores do Colégio Batista através do eixo Bom Pastor – General Roca – Rua dos Araújos – Barão de Itapagipe. Vale ressaltar que a idealização da Avenida Heitor Beltrão, no trecho comentado, se complementaria com o prolongamento da Barão de Itapagipe num sentido de “ir-e-vir”.

Poucos se lembram, mas até abril de 2005, a hoje conhecida Avenida Gabriela Prado Maia Ribeiro, nos fundos da Praça Saens Peña, era chamada, igualmente, de Heitor Beltrão, mesmo que não tivesse conectividade alguma com a via de mesmo nome inaugurada em 1982. A ideia era justamente essa, a de se construir novas ruas que interligassem o Centro com a Tijuca de modo com que a Conde de Bonfim fosse desafogada.

A ligação Barão de Itapagipe – Araújos nunca foi levada adiante, assim como a “parte perdida” da Heitor Beltrão (que também já foi chamada de Rua dos Trapicheiros) nunca foi interligada com o trecho de maior movimento da "avenida-xará". Mas isso é assunto para outro tópico, já que a Rua Abelardo Chacrinha Barbosa, que margeia o Tijuca Tênis Clube, também se chamava Heitor Beltrão até 1989, o que indica que tais projetos começaram a ser executados, mas, por alguma razão, “se perderam no caminho”.

12 de abr de 2014

Escola Prudente de Moraes, uma das grandes joias arquitetônicas do bairro

Fachada eclética da Escola Prudente de Moraes, na Rua Enes de Souza

A Prudente de Moraes poderia ser apenas mais uma "reles" escola municipal do ponto de vista da imprensa se não fosse pelo polêmico episódio em que esteve envolvida no fim de 2013. A notoriedade do colégio se deu através da denúncia pelos pais dos seus alunos quanto às obras intermináveis do prédio, que se alastraram por quase um ano e meio, o que acabou culminando na transferência de 407 alunos para o CIEP Samuel Wainer que, por sua vez, já contava com seus 480 alunos originais. Ou seja, "deu ruim", como se costuma dizer.

Segundo a Secretaria Municipal de Educação, o "pesadelo" teria fim a partir do ano letivo de 2014, quando os alunos seriam retornados à escola da Rua Enes de Souza. E que escola, hein? Peço desculpas pela mudança abrupta de assunto, mas só quis comentar este conflito escolar como um preâmbulo ao meu discurso de admiração à beleza da Escola Municipal Prudente de Moraes.

Mesmo não conhecendo como são as suas dependências internas (pode ser que de fato estivessem carentes e, assim, necessitassem de obras), devo imaginar que a revolta dos alunos tenha sido também de natureza afetiva. Afinal, quem conhece o CIEP Samuel Wainer sabe que sua estrutura e localização não é nada aprazível, na sorumbática Avenida Heitor Beltrão, e, fora todos os transtornos, não chegaria nunca aos pés da graciosidade que é o prédio da Escola Prudente de Moraes.

Rua Enes de Souza 36
Construída em 1905, a Prudente de Moraes é uma das grandes joias arquitetônicas da nossa Tijuca, tendo entrado para o rol de bens culturais tombados do município do Rio em fevereiro de 2012. Em tempos de alta especulação imobiliária, a preocupação com o patrimônio histórico da cidade e do bairro é cada vez mais urgente, ainda que, muitas das vezes, os interesses financeiros acabem vencendo os de caráter coletivo.

O autor do projeto de lei que tombou o imóvel, o vereador Rubens Andrade, usou como justificativa o fato de que a escola possui um estilo eclético-republicano, cheio de feições neoclássicas, renascentistas e góticas, além de contar com uma "inspiração mourisca, anglo-saxônica, italiana e francesa, com as novas tendências europeias, como o art nouveau, exprimindo a internacionalização na economia e no comércio".

Além de toda a justificativa estética, o vereador também comenta sobre a preservação das diferentes concepções da educação pública discutidas e valorizadas nos tantos governos que o país já teve, o que refletiam, igualmente, "na influência na definição dos espaços destinados às realizações das práticas pedagógicas e de sociabilidade escolar".

A Escola Municipal Prudente de Moraes congrega alunos da educação infantil ao 5º ano e está localizada na Rua Enes de Souza 36, entre as ruas Bom Pastor e Desembargador Isidro. Vale a pena dar uma caminhada por essas bandas só para bisbilhotar, mesmo que pelo lado de fora, toda a imponência deste imóvel. Fica a dica!

9 de abr de 2014

Iguatemi versus Tijuca: estratégias, público-alvo e fracasso


Ainda com base no post “A riqueza do lado de cá do Rebouças”, baseado em reportagem publicada no Jornal O Globo em 1993 sobre o fato de a Tijuca ser um bairro com alta renda per capita no Rio, encontrei outra matéria no acervo do jornal, datada de 1997. Neste caso, comenta-se sobre a busca do Shopping Iguatemi, o primeiro centro comercial de grande porte da região, em conquistar o público da Tijuca, que, segundo o repórter, era uma “vizinhança ilustre”.

As dependências internas monumentais
do Iguatemi, em 2010
Como muitos conhecem, a marca Iguatemi está vinculada à ideia de shoppings monumentais e de lojas voltadas para o público da classe A, coisa que parecia estar garantido na Grande Tijuca se não fosse o êxodo de uma parcela significativa dos moradores com renda mais alta para a Barra da Tijuca no final dos anos de 1990.

Diante do que conhecemos dos fatos, o Iguatemi era um peixe fora d’água em Vila Isabel, sobretudo ao longo dos anos 2000, quando seu mix de negócios foi totalmente modificado para se adequar à realidade econômica deste trecho da Zona Norte na fase que muitos chamam de “decadente”. Assim foi a trajetória langorosa do Iguatemi na Vila, que saiu definitivamente do mercado carioca em 2011, passando a se chamar Boulevard Rio.

As razões para o fracasso do Iguatemi são várias, muitas delas factíveis, como a proximidade com o Morro dos Macacos e ausência de público-alvo inicial, elementos que, na lógica do capitalismo, são preocupantes e/ou letais para qualquer negócio. Por outro lado, há outras razões que só ficaram no campo da teoria, com bases muito hipotéticas e até mesmo conspiratórias.

Há quem diga que o Iguatemi, na verdade, nunca quis ter “fincado” a sua bandeira na Vila, mas sim na Tijuca, pois era a classe média tijucana o tipo de público que eles procuravam. Já ouvi até histórias de que os empresários foram “enganados” durante a compra do terreno. Ou seja, que eles não tinham muita ideia de se a localização era estratégica ou não. Isso é algo inimaginável, afinal, será mesmo que havia lugar para ingenuidade, como relatam, nestas transações milionárias?

O fetiche do Iguatemi pela "vizinhança ilustre" da Tijuca fica muito claro ao longo desta reportagem, publicada quando o grupo ainda não tinha nem um ano completo de existência na esquina das ruas Teodoro da Silva com a Barão de São Francisco. A estratégia de marketing deles parecia estar toda voltada, especificamente, para os moradores da Tijuca, que, por sua vez, e por alguma razão mal explicada, resistiam contra o shopping.

Fachada do Shopping Tijuca, inaugurado em 97
na Av. Maracanã: concorrência com o Iguatemi.
Assim, o Iguatemi investiu consideravelmente na qualidade dos seus cinemas para chamar a atenção do público cinéfilo da Tijuca, acostumado, até então, com o pólo cinematográfico representado pela Praça Saens Peña. Mesmo com toda a resistência, devo dizer que esse investimento gerou frutos, pois com o fechamento dos cinemas na praça, muita gente da Tijuca se dirigia era para o Iguatemi em busca de filmes, e não para o Shopping Tijuca, que naquela época operava com salas bastante precárias e com seleção limitada de filmes.

A decadência da Saens Peña foi um ponto positivo para o Iguatemi, se analisarmos por essa perspectiva, embora seu êxito tenha durado pouco, cujos tempos áureos duraram cerca de sete anos, algo entre 1997 e 2004. A partir deste ano, Vila Isabel afetou-se ainda mais pela violência, e quem era mais “classe-média”, grosso modo, passou a dar preferência ao Shopping Tijuca, por estar mais próximo ao metrô - logo, mais bem localizado, sob essa ótica de que a Tijuca se desvalorizou, mas não tanto comparada à Vila.

O Iguatemi tentou de tudo para se reerguer: tinha ônibus gratuito saindo de meia em meia-hora da Praça Saens Peña para lá, colocaram cinema a preços irrisórios durante a semana, e mais um sem-fim de medidas que não deram muito certo. Resultou que, de 2007 para cá, quando o Shopping Tijuca começou a adotar uma estratégia de enobrecimento, foi este que tornou-se o “Iguatemi” original, com grifes, restaurantes badalados e um Kinoplex, enquanto o Iguatemi da Vila transformou-se no que era o Tijuca inicialmente: uma galeria comercial sem muito charme e com poucas vivalmas em circulação.

7 de abr de 2014

Uma questão de pintura

Beco na Conde de Bonfim, próximo ao Tijuca Tênis Clube: antes e depois.

Muitos edifícios na Tijuca e adjacências sofrem dum mesmo problema: a pichação em suas fachadas. Não se sabe como, mas tem gente realmente talentosa na arte de escalar paredões com o único propósito de borrifar signos enigmáticos e, às vezes, agressivos nesses limites entre o espaço público e a propriedade privada.

No entanto, há também o descaso dos proprietários destes locais afetados que não elaboram nenhum plano de contingência ou de reparo. O prédio em cima da Leader Magazine, por exemplo, na Conde de Bonfim, mantém a sua fachada rabiscada há bem mais de 15 anos. Basta ver imagens antigas do extinto cinema Art-Tijuca para percebermos que as pichações são basicamente as mesmas. Estas, somadas ao encardido das fachadas e à mediocridade estética de alguns edifícios construídos nos anos de 1970, oferecem um aspecto bastante antipático à paisagem urbana da Tijuca.

Apesar disso, há toda uma teoria que discorre sobre o fato de que a pichação, nestes moldes marginalizados como costuma denominar o senso comum, é também um tipo de arte fora dos parâmetros "hegemônicos", digamos assim. E que o grafite, por ser uma forma mais "reconhecível" de significado - afinal, todo mundo supostamente consegue entender melhor um desenho colorido do que um garrancho, certo? -, acaba sendo mais bem visto pois é o que se aproxima melhor do que entendemos como arte.

Este assunto é ainda muito polêmico e esbarra em questões antropológicas e estéticas. Mesmo assim, apesar de respeitar a ideia de que a pichação também é arte e de compreender as motivações de quem se dedica a essa atividade, continuo sendo a favor da "limpeza" das fachadas. Há locais mais adequados para pichação e grafites. A seguir, deixo as minhas sugestões nas seguintes montagens de Photoshop.

Edifício sobre a Leader Magazine, na Conde de Bonfim: antes e depois.

Edifício residencial com entrada pela Rua Pinto de Figueiredo

4 de abr de 2014

Tijuca, um bairro com surto de farmácias

Nova filial da Droga Raia na Rua General Roca: expansão desenfreada pelo bairro.

A Tijuca engana. Se as suas praças exalam frescor, bucolismo e vivacidade, o seu comércio, no entanto, esconde o lado negativo do bairro: a vocação para a hipocondria. Não é de hoje que o segmento de farmácias têm se mostrado um grande negócio na Tijuca, sobretudo a partir do início dos anos 2000.

Enquanto os cinemas e outras lojas tradicionais foram encerrando as suas atividades, grandes corporações do ramo como a Pacheco e a Venâncio, por exemplo, foram se expandindo pelos arredores da Praça Saens Peña até alcançar suas ruas transversais e os trechos mais residenciais da Conde de Bonfim. Só no intervalo compreendido pela Rua Uruguai e o Largo da Segunda-Feira é possível contabilizar 21 (vinte e uma) farmácias ao longo de uma extensão de aproximadamente 2,5 km.

Esse número fica ainda mais elevado se levarmos em consideração os arredores comerciais da Conde de Bonfim, como trechos das ruas General Roca, Santo Afonso e Major Ávila, além da própria Praça Saens Peña, na calçada que margeia o Shopping 45. Nesta agrupação, o montante de farmácias sobe para 31 (trinta e uma), cuja liderança fica por conta da Drogaria Venâncio, com 9 (nove) filiais espalhadas dentro desse perímetro.

Contudo, a competição tem estado cada vez mais acirrada para as drogarias Venâncio e Pacheco desde o início de expansão da Droga Raia, que resolveu aumentar o seu número de filiais a partir do ano passado. A rede tem aportado em localizações estratégicas como a antiga agência bancária do HSBC na Conde de Bonfim próxima ao Hortifruti, além da Rua General Roca (em frente à Saens Peña) e na Conde de Bonfim novamente, onde funcionava o Armarinho Semblano, na esquina da Rua Marechal Taumaturgo Ferreira.

Filial da Pacheco no local do extinto Cinema América

Assim, a tríade Venâncio-Pacheco-Droga Raia pipoca pelas ruas da Tijuca de forma desenfreada e agressiva, como se estivesse participando de um jogo de campo minado. Só nas imediações da Praça Saens Peña, por exemplo, estão concentradas 5 (cinco) das 9 (nove) filiais da Drogaria Venâncio contra 3 (três) filiais da Pacheco, sendo 2 (duas) delas fincadas na mesma calçada, na quadra entre a General Roca e a Pinto de Figueiredo. Como se isso não fosse o bastante, redes menores como a Drogaria São Paulo, Drogasmil e Pague Menos também figuram por lá.

O boom das farmácias na Tijuca pode ser explicado, entre muitos fatores, pelo envelhecimento da comunidade tijucana. Segundo dados do Instituto Pereira Passos, houve uma variação de 10 a 19% da população de 60 anos ou mais na nossa Região Administrativa entre 2000 e 2010, índice similar ao de outras RA's como as de Vila Isabel, Botafogo, Rio Comprido e Méier.

Por outro lado, sabe-se bem que as farmácias contemporâneas não se dedicam mais exclusivamente à venda de medicamentos. Muitas delas têm sido especialistas igualmente em produtos cosméticos, o que chama a atenção de uma clientela muito mais abrangente daquela tradicional que ia às drogarias em busca de remédios. A nossa outra hipótese é que a Tijuca, além de hipocondríaca, também é bastante vaidosa.

Somado a isso, não podemos esquecer que a Tijuca é uma grande centralidade na Zona Norte, especialmente por ser um pólo tradicional de consultórios médicos. No final das contas, pode-se dizer que as empresas do varejo farmacêutico focam igualmente num público-alvo que não necessariamente é o tijucano, mas aquele que circula diariamente pelo bairro advindo de outras vizinhanças da cidade.

O que intriga é que não exista nenhuma regulação que interfira no equilíbrio da dinâmica comercial dos bairros. É um livre mercado gigantesco, de competição acirrada, que tem estigmatizado o comércio de rua da Tijuca em um perfil pra lá de doméstico e muito diurno, se colocarmos nesta equação também o número excessivo de óticas que existem por aqui. O comércio de rua da Tijuca já foi menos medíocre.


Área mapeada para a contabilização de farmácias

Lista das farmácias mapeadas:

Rua Santo Afonso 
Droga Raia

Rua General Roca
Drogaria Venâncio
Drogaria São Paulo
Droga Raia
Drogasmil 

Rua Major Ávila
Drogaria Pacheco 

Rua Pinto de Figueiredo
Drogaria Onofre 

Praça Saens Peña
Drogaria Venâncio – Shopping 45
Drogaria Venâncio – Carlos Vasconcelos 
Drogaria Venâncio – Palheta 
Drogaria Pacheco – América 

Rua Conde de Bonfim
Drogaria Pacheco – Uruguai e Itacuruçá
Drogaria Venâncio – Itacuruçá e Visconde de Cabo Frio
Drogarias Padrão – Esquina José Higino
Droga Raia – Armarinho 
Drogaria Max – Esquina Padre Damião
Pague Menos – esquina Abelardo Chacrinha Barbosa
Drogaria Pacheco – Esquina Pinto de Figueiredo
Drogaria Venâncio – próximo à General Roca
Drogaria Pacheco – próximo à General Roca
Medical Venâncio – Jurupari e Guapeni
Drogaria Venâncio – próximo à Conselheiro Zenha
Droga Raia – próximo à Conselheiro Zenha
Drogaria Extra
Drogaria Max – Moura Brito
Drogaria Pague Menos
Drogaria Venâncio – Alfredo Pinto
Drogaria Max – Aguiar
Drogaria Pop – Aguiar 
Drogaria Pacheco – Largo da Segunda-Feira

3 de abr de 2014

Orquestra Voadora "aterrisa" na noite da Saens Peña

Apresentação da Orquestra na Praça Saens Peña: surpresa

Há gente que reclama, e com toda razão, de que bate seis, sete, oito horas da noite e a Praça Saens Peña adormece. As lojas fecham e só se vê o movimento dos ônibus e da boemia tímida de alguns poucos bares ao redor do Shopping 45, além, é claro, dos tijucanos que desembarcam na estação do metrô após mais um dia de trabalho. Tijucanos estes, aliás, que tiveram uma grata surpresa na noite desta quinta-feira 3 de abril: a apresentação da prestigiada Orquestra Voadora em plena praça. Sim, aqui na Tijuca!

A apresentação fez parte do que eles têm chamado de Ataque Musical, iniciativa dos próprios integrantes para recolher fundos para a compra de dois novos instrumentos roubados da Orquestra Voadora durante o carnaval. Entre os itens perdidos, um saxofone e um trombone de vara, tendo este último desaparecido misteriosamente após um encontro de orquestras na Praça Tiradentes. O Ataque Musical já aconteceu no Largo do Machado e, hoje, para a nossa sorte, aterrisou na Praça Saens Peña chamando a atenção de muitos pedestres que por lá passavam, contribuindo, de quebra, financeiramente com a Orquestra.

video

O concerto estava previsto para começar às 18 horas, precisamente no horário mais movimentado não só da praça, mas também das saídas do metrô da Saens Peña. No entanto, a chuvinha fina que caiu na cidade acabou atrapalhando os planos da Orquestra, que só começou a ressoar seus instrumentos de sopro e percussão por volta das 19h30. Muitos não sabiam que haveria apresentação da Orquestra Voadora na praça hoje.

Eu, por exemplo, só fiquei sabendo por uma amiga que viu a notícia através do blog de moda Rio Etc, que costuma avisar sobre eventos culturais – geralmente gratuitos – rolando pela cidade em sua agenda virtual. 

Além da diversão propiciada pela Orquestra a todo mundo que passava pela praça nesta noite, foi a reflexão de que é possível, sim, renovar a vida noturna da Saens Peña com coletivos de arte e música e até mesmo, de forma mais ambiciosa, com investimentos empresariais voltados ao lazer. Basta o empresariado "sacar" esse panorama. Há fôlego e público para isso.

— Eu moro na Tijuca desde 1973. Mais eventos como esse têm que acontecer por aqui. A Tijuca é um bairro mortinho  confidenciou-me uma moradora, enquanto dançava em meio à balbúrdia aprontada pelo grupo.

Mesmo após os avisos de que tocariam a “saideira”, isso por volta de 21h, quase às 22h, quando fui embora, a Orquestra continuava na Praça, animadamente, resgatando uma das poucas coisas que a Tijuca possui: vitalidade notívaga.

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