23 de abr de 2014

Mas, afinal, é Haddock ou Hadock?

Haddock ou Hadock: crise de identidade numa das principais vias tijucanas.

Uma das ruas mais movimentadas da Tijuca sofre de uma certa crise de identidade. A famosa Haddock Lobo, que começa no Largo da Segunda-Feira e finda no Largo do Estácio, leva esse nome graças ao médico, comerciante, delegado e juiz português Roberto Jorge Haddock Lobo, grande personalidade do Rio Imperial. Como bem se sabe, seu sobrenome segue à risca a grafia inglesa do Melanogrammus aeglefinus, peixe mais conhecido como hadoque, na versão portuguesa.

No entanto, desde a implantação da nova sinalização de logradouros, em 2007, o tal sobrenome teve um "D" reduzido, figurando, agora, nas placas, simplesmente como Hadock Lobo. O caso chama a atenção, mas não pelo fato de que as pessoas estejam realmente dando bola para isso; a questão é que vê-se claramente a falta de um esclarecimento sobre a grafia correta.

A Haddock Lobo paulistana, situada no luxuoso bairro dos Jardins,
manteve a grafia original do sobrenome em suas novas placas.
(Foto: Revista Veja)
A minha hipótese para tal é que a Prefeitura, ou os elaboradores da Plamarc, empresa responsável pela manutenção dos postes, deva ter querido aportuguesar o sobrenome sem levar em conta que a versão na nossa língua seria "hadoque", e não "hadock". E mais: tratando-se de um sobrenome, ou seja, um nome próprio, a alteração da grafia torna-se um caso ainda mais delicado e questionável.

Circunstância análoga é o da Praça Saens Peña, versão abrasileirada do Sáenz Peña dos ex-presidentes argentinos Luis e Roque - pai e filho, diga-se de passagem. Aí, a adaptação do nome é fato comprovado, ainda que muitos tijucanos (e a própria Plamarc) continuem chamando-na, por escrito, de Saenz Peña. Sonoramente, não interfere em nada. Muito menos em relação ao Haddock. E, honestamente, as pessoas escrevem muito mais Haddock do que Hadock, assim como Saens é mais popular do que Sáenz.

Mesmo que a história assegure que o Haddock do Roberto Jorge (por sinal, amicíssimo do conde de Bonfim tanto na vida real como na cartografia carioca) possua esse dígrafo, o aclamado livro Tijuca, de rua em rua (Editora Rio, 2004), de autoria da historiadora Lili Rose, e do administrador regional da Tijuca Nelson Aguiar, ambos tijucanos, apresenta algo bastante curioso: um cartão postal datado de 1904 da referida rua cuja grafia, veja só, aparece como Hadock Lobo. Isto é, nem mesmo naquela época eles deviam estar seguros quanto à veracidade dos dois "D" do Haddock. Vai entender...

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