28 de mai de 2014

"Eu, tijucano", por Tutty Vasques

Crônica publicada, originalmente, na
Veja Rio (1º/06/2005), por Tutty Vasques
O orgulho de ser carioca da Zona Norte, recentemente celebrizado por Fernanda Montenegro em anúncio de shopping center de Del Castilho, não significa necessariamente que a atriz não esteja bem lembrada do lugar onde nasceu. Nós é que não conhecemos a aprazível Campinho dos anos 1930. A Tijuca que me pôs no mundo em 1954 também já não existe, o que não me impede de ter boas lembranças dos quintais da minha infância querida, que os anos não trazem mais. Precisaria o Rebouças ser um túnel do tempo para reencontrar esse passado. A Zona Norte de hoje, acreditem, não tem nada a ver com a Vila Isabel de América. Ninguém, que eu saiba, jamais teve orgulho de nascer na Rua Leopoldo, mesmo depois que Gilberto Braga recriou o Andaraí em Celebridade. Mais perto da verdade, cá pra nós, está o colega de Veja Rio Manoel Carlos, que modestamente se contenta em glamourizar o Leblon.

Por mais que a novela das 8 e os comerciais de TV insistam em associar a Zona Norte ao bom malandro, ao sambinha da esquina e àquela gente humilde em casas simples com cadeiras na calçada, na fachada escrito em cima que é um lar, nada disso existe mais por lá. Restam o abandono, sinais de empobrecimento, o medo das balas perdidas, as grades e o mau gosto. Sejamos francos: a Zona Norte é horrível, eu sou de lá, eu sei. O caos arquitetônico avançou sobre a paisagem humana que a violência baniu das ruas. Sou do tempo dos cines América, Carioca, Olinda, quando a Praça Saenz Peña era um Multiplex a céu aberto. Só vendo o que aquilo lá virou! Sempre que visito meus pais – como bom tijucano, visito muito meus pais – passo pelo lugar que me fez moleque e, olhando a muralha de prédios erguida ao redor, não sei dizer a meus filhos exatamente onde era a minha casa. Nem a dos meus amigos ou a daquela velha chata que furava as bolas que caíam no seu jardim. Dessa época, sobrou por lá o nome da rua na placa da esquina: Maria Amália.

Migrei há 27 anos. Do outro lado do túnel, Humaitá, Bairro Peixoto, Jardim Botânico, Lagoa, Botafogo, Leblon, Urca, Gávea, já morei em tantas casas que nem me lembro mais, nada que me faça esquecer de onde eu vim. Quem é tijucano sabe que, embora seja possível escapar da Tijuca, jamais a Tijuca sairá de você. Por mais que o sujeito disfarce, a gente sempre nota o que há sob as roupas Richards de um ex-tijucano. De repente um gesto inseguro, uma indecisão no olhar, uma preocupação desnecessária com o cabelo, o trepidar da perna na ponta dos pés, aquela agonia de não saber o que fazer com as mãos e, pronto, o cara se entrega. O medo de errar, de ousar, de arriscar, de mudar, de falhar, dessas coisas que atormentaram minha juventude ninguém se livra assim, de uma hora para outra.

O poeta Torquato Neto, um raro vizinho malcomportado que só descobri no livro póstumo Os Últimos Dias de Paupéria – ele se matou quando eu tinha apenas 17 anos –, usava uma frase doce para definir o que azedava minha relação com o bairro: "O tijucano se diverte olhando". Gente que não precisa beber, comer, dançar, conquistar, comprar, tocar, experimentar, participar, agir, transgredir, nada. Olhar a vida – eis o mistério da satisfação tijucana naquela época em que havia muita coisa para olhar em volta, morávamos então numa espécie de calçadão da Zona Norte. Uns miravam os outros, comiam uma pizza no Palheta e, hoje percebo, não há nada de errado em se dar por satisfeito com isso.

A Tijuca já foi para mim muitas coisas, mas acho que nunca consegui vê-la como ela exatamente é ou foi. Era sinônimo de vida no paraíso quando eu andava de pés no chão pulando de um quintal para outro, subindo em árvores, soltando pipa, moendo vidro para cerol em trilho de bonde, jogando pião, amarelinha, carniça, pique, queimado, marimba, bicicleta, botão de galalite, carrinho de rolimã, bola de gude, marraio feridô sou rei. Perdeu a graça quando me vestiram uma calça comprida e disseram "agora cresce". Ficou insuportável quando percebi que queria mais, muito mais do que ver a banda passar. A vida não é lugar para estar à toa.

Quando o amor me chamou pela primeira vez e eu atravessei o túnel para casar, não demorei muito a perceber que levava a Tijuca dentro de mim. Longe dos tijucanos, eu era o próprio. Passei vinte anos tentando me livrar desse sotaque que nos denuncia mesmo calados. Sou resultado dessa batalha diária contra a caretice programada como destino. Deu nisso: uma espécie de maluco responsável, encabulado, engraçadinho, medroso e atrevido, não necessariamente nessa ordem ou ao mesmo tempo. Parei de brigar com a Tijuca quando passei a usá-la em legítima defesa dos meus instintos. É ela que me faz decidir "não vou" quando Xangô manda dizer "vai, vai, vai, vai..." De vez em quando eu vou, e volto.

Virei um tijucano de ocasião. Evoco minhas raízes toda vez que sou flagrado avançando o sinal do bom comportamento. "Eu? Claro que não, gente! Sou tijucano, caramba!" O argumento é inapelável. Como ninguém – acho que isso ficou claro nesse texto – sabe exatamente o que é a Tijuca, posso inventar o que quiser a respeito do lugar onde nasci. Nessas horas, do mesmo jeito que a Fernandona, morro de orgulho de ser da Zona Norte.

27 de mai de 2014

Camafeu Bistrô: aprazível opção de café e quitutes na praça

Canelinha do Camafeu Bistrô
Todo tijucano sabe que, em meio a tanto comércio, pelo menos em matéria de gastronomia, a Praça Saens Peña perde feio para o shopping. Sim, isso é bem verdade, mas logo ali, na Rua Carlos Vasconcelos, como se fosse um oásis no deserto, figura o Camafeu Bistrô (antigo Grão Espresso), simpático restaurante pouco conhecido na região com ótimo cardápio e, o primordial, preços honestíssimos levando em conta o ambiente e o serviço.

Embora leve o nome de bistrô, o Camafeu funciona melhor como um café, o carro-chefe do seu menu, loteado de expressos e drinques cafeinados, doces, tortas e salgados. O expresso deles não tem erro, é só pedir que vem quente na medida certa acompanhado de um biscoitinho, prática ainda não tão difundida nas cafeterias da cidade. Se você não for dos mais tradicionais e quiser algo além do simples cafezinho, sugiro o Canelinha (expresso acanelado a R$ 4,20, pedindo a xícara pequena) ou, para o horror dos diabéticos, o Misturadinho (R$ 8,00), drinque servido numa taça com camadas sobrepostas de leite condensado, café e chantilly transbordante.

Fora o café e a vocação de sobremesa do Camafeu Bistrô, eles também possuem um cardápio especial de almoço, de segunda à sábado. Os pratos consistem em quiches com saladas, carne assada, croquete de soja, bacalhau etc., e podem ser personalizados com outros acompanhamentos. Variam de R$ 15,90 a R$ 20,90 e são senhores-pratos! Não pude tirar foto das refeições alheias, mas me pareceram bem apetitosas. Além disso, a casa também vende cervejas artesanais, como a Colorado, a Eisenbahn e, o que parece ser exclusividade, a Noi.

O irresistível Misturadinho: camadas de leite condensado, café e
chantilly.

Ambiente arejado, mas refrigerado, no coração da Saens Peña

E antes que o leitor pense que isto é uma "propaganda combinada", devo dizer que só estou enaltecendo o Camafeu Bistrô por livre e espontânea vontade, porque é um lugar onde você pode ir tranquilamente ler um livro ou trabalhar sem ser apressado por garçonetes ávidas pela rotatividade da clientela. E, por fim, tem sido raro encontrar atendimentos sorridentes e gentis, o que faz do Camafeu, como bem lhes disse, um oásis no meio do deserto. Recomendo!

Camafeu Bistrô
Rua Carlos Vasconcelos 155 Loja E
Tel: 3172-4223 - Fecha às 19h30.
Aceita cartões.
Página no Facebook: https://www.facebook.com/camafeubistro

* O passeador tijucano informa que o Camafeu Bistrô fechou suas portas em 2016. 

26 de mai de 2014

O reforço da identidade tijucana através da publicidade

Publicidade encontrada no O Globo (30/03/1982)

Ainda que inerente às décadas passadas, o estereótipo tijucano galgado na ideia de família, valores conservadores, cultura clubística e situação financeira "bem-resolvida" ainda é, de certa forma, muito presente no imaginário carioca. Por outro lado, é curioso perceber como os arquétipos publicitários de antigamente faziam questão de reforçar essa identidade através da propaganda. Ou seja, ressaltar o jeito de ser tijucano, mais do que promover uma personalidade comunitário, era mostrado como status.

Garimpei esta propaganda publicada em O Globo de 1982 pelo comerciante Luiz Melo Dias, proprietário da "charmosa" Cláudia Boutique, localizada à Rua Santo Afonso. A loja, autorreferida como o lugar da moda esportiva para a jovem tijucana, além de exaltar o seu suposto requinte a preços honestos, afirma que seus fregueses não são meros compradores, mas sim amigos! Melo Dias explica que esse é um padrão de atendimento cujo círculo de amigos só vai crescendo, algo que só pode acontecer num bairro na verdadeira acepção da palavra. E daí percebemos como a identidade do modus vivendi tijucano é visto como um atributo de diferenciação.

Repare, também, como a percepção do tijucano visto como parte de uma classe média estável e honrada é sugerida no seguinte trecho:

Isto é o que leva a um fato inteiramente inusitado: Luiz Melo afirma que possui cadastrados cerca de 4.000 clientes em seu crediário e que o percentual de inadimplência é 0 (zero). "Pode haver atrasos - compreende-se", continua aquele líder lojista, "mas falta de pagamento, nunca".

A publicidade contemporânea não dispõe mais desses artifícios: os textos não passam de frases curtas quase enigmáticas, sem falar na predominância de grandes corporações no mercado publicitário em detrimento do pequeno comerciante, algo tão peculiar ao comércio da Tijuca em outras épocas.

Confrontar o conteúdo da publicidade da Cláudia Boutique com o panorama atual é constatar que a Tijuca, um bairro até então bastante provinciano, apostou suas fichas no cosmopolitismo e no "progresso" sem prever que o território do bairro passaria por uma série de agruras nos anos seguintes. É normal; nenhum lugar "fechado", social e culturalmente como a Tijuca, sobreviveria em cidade tão global como o Rio. Contudo, penso que a identidade tijucana ainda persiste, mas na sombra de muitos outros modos comportamentais cariocas que interessam bem mais à publicidade do que a exaltação de um jeito de ser/viver num bairro convicto de seus valores, embora sem apelo midiático.

13 de mai de 2014

Novidades na Saens Peña

O novo relógio digital da praça: mais ações publicitárias
Eis que a Praça Saens Peña começa a respirar novas ares. Enquanto os projetos de renovação urbana desenvolvidos pelos alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ (FAU/UFRJ) não ficam prontos (relembre aqui o caso), a praça vem ganhando um certo frescor que promete ser o esboço de uma nova fase para a Tijuca, tanto no lado comercial como no de aparatos urbanísticos.

O ineditismo da conversa é que, após a inauguração incessante de tantas farmácias e óticas nestes arredores, a calçada que margeia o Shopping 45 foi contemplada recentemente por uma filial da Mr. Cat, cujo carro-chefe são os sapatos tanto masculinos como femininos, além de acessórios de couro. A marca, presente igualmente no Shopping Tijuca, parece que chegou para contribuir com a diversificação do mix de negócios da Saens Peña, atualmente muito homogeneizado a favor do comércio doméstico. Se a loja vingar, essa seria a prova de que o comércio de rua na Tijuca ainda tem fôlego para congregar outros perfis comerciais que valorizem e estimulem a fruição do espaço urbano pelo consumidor e, sobretudo, pelo pedestre.

No que se refere à organização espacial da praça, o que tem chamado a atenção por lá é o seu novo relógio na esquina da Conde de Bonfim com a General Roca. Mobiliário urbano da Prefeitura, o relógio, agora, é digital, o que provavelmente tem facilitado a ação publicitária. Antigamente, estes contemplavam uma única propaganda de papel removida de tempos e tempos conforme a renovação do contrato entre a marca e os órgãos públicos competentes. Com o novo modelo, é possível variar uma série de propagandas que vão e vêm a cada série de segundos. C&A, Bradesco e Mizuno são umas das marcas que têm dividido espaço com os dados sobre a hora e a temperatura local. Modelo idêntico foi implantado no cruzamento da Conde de Bonfim com a Uruguai.

A vitrine da nova Mr. Cat na Saens Peña: diversificação do perfil comercial no comércio de rua tijucano.

Intervenções poéticas
Além da nova sinalização da estação Saens Peña do metrô, agora com fundo preto, obedecendo ao novo padrão aplicado pelo Metrô Rio em toda sua rede, os arredores da praça têm ganhado intervenções poéticas com frases bastante espirituosas. Mensagens como "só vim te ver pra lembrar quem sou" ou "ME LIGA EM CASA QUE EU TÔ NA RUA", que lembram a técnica artística de serigrafia, estampam não só os respiradouros do metrô, assim como os tapumes do novo Rabicho da Tijuca. Interditado desde meados dos anos 2000, o estacionamento subterrâneo está prestes a ser reativado graças à estação Uruguai do metrô, que utilizou parte do terreno do antigo Rabicho para a expansão dos seus trilhos.

Por fim, é capaz de que, muito em breve, a Praça Saens Peña receba a exposição dos projetos que estão sendo criados pelos estudantes de arquitetura e urbanismo da UFRJ. O trabalho, parte de uma disciplina acadêmica, tem utilizado a praça mais renomada da Tijuca como objeto de análise para se discutir de que modo o local poderia ser requalificado em termos urbanísticos a favor do pedestre e da dinamicidade comercial que sempre foi tão peculiar à Saens Peña. O passo-a-passo do Atelier Integrado II, comandado pelos professores Victor Andrade, Sônia Hilf, Naylor Vilas Boas e Ivete Farah, já está na rede e pode ser conferido no site oficial da turma, aqui neste endereço: http://ai2atelierc.wix.com/ufrj#!home/mainPage.

7 de mai de 2014

Placa centenária da Rua Sabóia Lima some misteriosamente

O antes e o depois da placa da Sabóia Lima: em cima, abril de
2014, e na parte de baixo, em agosto de 2013.

Quem já percorreu toda a extensão da bucólica Rua Sabóia Lima, nas imediações do Colégio Baptista, sabe que lá em cima localiza-se uma represa do Rio Trapicheiros colada à Praça Hans Klussmann - aquela praça meio quimérica, cheia de animaizinhos de argamassa. É neste local onde, no início do século XX, o então Departamento de Águas e Esgotos, proprietário da área hoje pertencente à CEDAE, instalou a seguinte placa junto aos resquícios do antigo portão da represa:

SENDO PRESIDENTE DA REPUBLICA
O Sr. Dr. FRANCISCO DE PAULA RODRIGUES ALVES
E MINISTRO DA INDÚSTRIA VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS
O Sr. Dr. LAURO SEVERIANO MÜLLER
A INSPECÇÃO GERAL DAS OBRAS PUBLICAS
ASSENTOU ESTE CONTADOR VENTURI NESTE GÊNERO 
INSTALLADO PARA O SERVIÇO DO ABASTECIMENTO D'AGUA
À CAPITAL FEDERAL
28 - 2 - 1906

Tijuca & Floresta. Coleção Bairros do Rio. 
Editora Fraiha, 2000. Página 76. 
Placa que deveria ser patrimônio oficial da cidade, sumiu misteriosamente em meados de março deste ano. Deparei com a sua ausência ao levar um amigo de fora da Tijuca para conhecer este recanto - agradabilíssimo, por sinal -, quando, ao nos aproximarmos da entrada da represa, não havia mais do que um vestígio retangular da mesma. 

Cheguei a perguntar ao guarita da Rua Sabóia Lima se ele sabia sobre o paradeiro da placa, mas recebi uma resposta negativa. Isso foi no dia 6 de abril; passado um mês, retornei à rua para investigar o caso, e mesmo assim ninguém sabe ao certo o que ocorreu.

Neste período, tentei divulgar a gravidade do caso junto ao colunista Ancelmo Góis (do jornal O GLOBO) que, apesar de sua equipe ter me exigido o envio de uma série de documentações e imagens sobre a placa, não deu prosseguimento ao caso tampouco publicou notas a respeito, tanto no jornal impresso como no blog deles. A última notícia que me foi dada é a de que "um morador havia guardado". Por qual razão?

Estes episódios servem para refletirmos como o patrimônio da Tijuca - e da Zona Norte como um todo - é ignorado e, por vezes, desvalorizado. Divulguem nas redes sociais!

O Rio Trapicheiros na Rua Sabóia Lima: pequeno riacho. (Fonte: As Ruas do Rio)

Para ler mais sobre a Rua Sabóia Lima, leia estas crônicas fotográficas publicadas por mim na minha coluna As Ruas do Rio:

Praça Hans Klussmann: o recanto dos bichinhos, As Ruas do Rio (10/08/2013).
Rua Sabóia Lima, Tijuca, As Ruas do Rio (26/08/2013)