30 de jun de 2014

"Meu bairro canta", por Quatro Ases e Um Coringa (1950)

Eu quero enaltecer 
Um bem que adoro 
O meu bairro, onde moro 
Meus amigos fiéis 

Dizer que do meu coração não sai 
Saenz Peña, rua Uruguai,
A Muda, o Ponto Cem-Réis 

Citar a velha Fábrica das Chitas
Tantas garotas bonitas 
Que o Salgueiro tem aos pés 

E também eu quase que me esqueço 
Não é só nesse endereço 
Meu samba vai mais além 

Eu quero relembrar por muitos anos 
Salve Unidos Tijucanos 
Minha gente, o que é que tem 

Quando a cidade toca os seus clarins 
Convocando os tamborins 
Meu bairro canta também. 

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composição de Valdemar Ressurreição
interpretado por Quatro Ases e Um Coringa (1950)




É por essas e outras que meu coração tijucano, nunca adormecido, dispara de emoção e contentamento. 

28 de jun de 2014

O chão da Rua Campos Sales

No chão da Rua Campos Sales, alguns resquícios de história.

Em geral, os pedestres não são lá muito atentos com os detalhes das ruas. Dificilmente abaixam ou levantam o olhar; para qual razão desviar o foco? É numa dessas andanças despropositadas, entretanto, que vamos descobrindo as belezas e surpresas do nosso bairro. 

Na Rua Campos Sales, por exemplo, no trecho entre a Doutor Satamini e a Haddock Lobo, se não fosse pelo meu cadarço solto do tênis, provavelmente não teria reparado no antigo bueiro da Companhia Telephonica Brasileira que jaz por ali. De origem canadense e nacionalizada em 1956 pelo governo JK, a CTB foi a antecessora da Telerj, criada nos anos de 1970.

Além disso, é interessante observar as descontinuidades do piso da calçada. Toda a área do bueiro era preenchida por pedras portuguesas, o que nos faz deduzir que a Campos Sales mantinha esse padrão. Com as descaracterizações das últimas décadas, cada trecho, hoje, conta com seu próprio tipo de piso. A predominância, agora, é de piso acimentado, algo, sem dúvidas, muito menos charmoso do que as típicas pedras lusitanas. 

27 de jun de 2014

Mariz e Barros ganha área comercial voltada à gastronomia fast food

Filial da Burger King, na Mariz e Barros com Rua Visconde de Cairu: gastronomia
fast food em peso na área.

Inaugurado há pouco mais de um ano, o novo edifício residencial da Rua Mariz e Barros, em estilo "condomínio avarandado", inovou e tem seguido o mesmo modelo implantado pelo lançamento imobiliário da Rua Nelson Mandela, em Botafogo (zona sul da cidade), que parcelou e destinou o seu térreo à locação de empreendimentos comerciais. Hoje, é um sucesso de público e referência em entretenimento nas bandas de lá, na praça próxima ao metrô.

As dependências da Catarina Doces e Salgados,
braço da Fornalha.
A ala gastronômica da Mariz e Barros, por sua vez, já conta com grandes expoentes das cadeias de fast food, como a gringa Burger King, em processo de expansão pelo Rio, além de franquias nacionais e já bem conhecidas nossas como Spoleto, Koni e a novata Catarina Doces e Salgados, que pertence à mesma rede da Fornalha, sem filial na Tijuca, entretanto. Estão previstos, ainda, a abertura de um pub e uma farmácia (mais uma!) neste complexo comercial, além do salão de beleza Lui's Coiffeur, que também já possui outra unidade no bairro, na Rua Santo Afonso.

A localização é estratégica, uma vez que a Rua Mariz e Barros é um grande pólo estudantil na Tijuca. Nas redondezas, estão o Instituto de Educação, o Instituto Isabel, o Instituto Guanabara, GPI, SENAC, Colégio pH, Colégio Militar, Pedro II, entre outros. Em frente ao empreendimento, há a presença também do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle. Nos dias úteis, tanto o Spoleto como o Koni são altamente procurados pelos estudantes da área em busca de um almoço rápido. Perto dali, na esquina com a Campos Sales, já havia um Mc Donald's e um Subway, que, pelo visto, agora estão precisando competir com os novos investidores. Vale destacar igualmente que fora do âmbito fast food, a região da Mariz e Barros já vinha se mostrando como um celeiro de boas opções gastronômicas para um público mais exigente, como o Brasa Goumert, o tradicional Salete e a segunda filial tijucana do Otto, no lugar do antigo Devassa.

Koni e Spoleto: os preferidos dos estudantes e trabalhadores no entorno.

É interessante observar como este modelo de empreendimento é uma releitura do que se praticava no processo de verticalização dos bairros lá anos 1960, sobretudo nas suas artérias principais como a Conde de Bonfim, Dias da Cruz, Nossa Senhora de Copacabana, Voluntários da Pátria etc. Essa maneira de se congregar o uso residencial com o comercial num único terreno deixou de ser usual a partir do crescimento da Barra da Tijuca, na zona oeste, que projetou, em relevância, um novo estilo de vida galgado na separação dos usos, muito embora os condomínios de lá congregassem serviços variados, como padarias, nas suas dependências.

Assim sendo, tal investimento na Mariz e Barros parece refletir uma maior otimização do uso do solo, especialmente em bairros muito adensados como a Tijuca. Essa conjunção, se for propagada em outros locais, promete ser uma alternativa viável à revitalização do espaço público por intermédio do estímulo ao comércio de vizinhança. Tomara que dê certo, pois público, já tem.

26 de jun de 2014

Valorização (e verticalização) em alta

Lançamento imobiliário na Avenida Maracanã: verticalização novamente em ascensão.

A partir de 2008, quando foi dado início à implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em algumas favelas cariocas, o preço dos imóveis e o valor do solo aumentaram vertiginosamente no eixo econômico da cidade, compreendido pelos bairros das Áreas de Planejamento 1 (Centro) e 2 (Zona Sul e Grande Tijuca). Foi neste momento que a casa dos "milhões" passou a figurar nos classificados, à primeira vista como um fenômeno absurdo, mas agora encarada como algo já naturalizado nas transações imobiliárias de unidades familiares de classe média.

Tal cenário vem propagando um efeito dominó em toda a cidade do Rio, tendo afetado, primeiramente, a região do Leblon, depois a de Botafogo e, desde então, a Tijuca, que parece estar sendo uma alternativa viável de moradia para uma parcela da classe média expulsa da zona sul diante dos preços impraticáveis evidenciados no outro lado do Rebouças. Vale destacar aí igualmente o regresso de hordas de ex-tijucanos que se exilaram na Barra durante os anos 80 e 90 e agora retornam à "terra-mãe" motivados pela praticidade do bairro em se fazer tudo a pé, além da proximidade com o Centro e a excelente mobilidade urbana conferida à Tijuca.

Além disso, não são apenas os "expulsos" da orla os que estão à procura de um lugar por aqui. A reportagem de capa de O GLOBO-Tijuca de quinta-feira passada (19/06/2014) mostra que 90% dos apartamentos vendidos no bairro foram para pessoas que já residem nele, segundo pesquisa da construtora Concal. Há lançamentos imobiliários por toda a região, justificados pelas empreiteiras como a busca pelo tijucano de um novo estilo de vida dentro do próprio bairro:

Capa do GLOBO-Tijuca, de 19/06/2014
"- Quando iniciei minha trajetória no mercado imobiliário, a Tijuca era mais valorizada do que Ipanema. Foram três décadas de declínio e abandono, fazendo com que os tijucanos saíssem do bairro. Hoje, a Tijuca já é mais valorizada que bairros na orla, como Recreio, e se modernizou, ganhou condomínios-clubes. O tijucano não quer sair do bairro, ele quer melhorar de vida dentro da própria Tijuca." (Rubem Vasconcelos, presidente da Patrimóvel)

Mesmo que aparentemente se trate de uma reportagem "encomendada" por empresas do ramo imobiliário, é importante perceber nesta querela como a valorização do solo tijucano tem se dado unicamente por intermédio da construção de condomínios e prédios avarandados. Em nenhum momento comenta-se sobre a revitalização do espaço público, por exemplo, como elemento propulsor à valorização imobiliária.

É bem verdade que o estilo de moradia (pelo menos, a preferência) atualmente é bastante distinta daquele evidenciado em meados do século XX. O que gostaria de chamar a atenção para tal tema é a necessidade de se pensar na valorização do bairro de forma mais integrada, em rede, e não apenas em unidades habitacionais levantadas e nos serviços que elas oferecem aos seus moradores de modo exclusivo.

Outro ponto importante aí é observar que a Tijuca já foi densamente verticalizada nos anos 1970 e agora parece estar vivendo um novo boom. Os questionamentos que nos restam são os seguintes: isso é sustentável a médio prazo? Mesmo com uma boa infraestrutura, a Tijuca suportará o ritmo de intensidade no uso do seu solo? Que benefícios tangíveis a comunidade do bairro poderia usufruir de empreendimentos do gênero?

São tópicos merecedores de reflexão.

17 de jun de 2014

Tijuca, esse bairro apaixonantemente "parado"

"Salve Tijuca", por Elli, na Rua Almirante Cochrane.

Faço pós-graduação em Planejamento Urbano pela UFRJ e, numa das aulas de Cidade e Sociabilidade, começamos a discutir sobre o jeito de ser da Tijuca. Toda essa querela se deu após a leitura do capítulo “Muda – Quando se Muda”, do livro Prosas Cariocas: uma nova cartografia do Rio de Janeiro (Casa da Palavra, 2004), organizado por Marcelo Moutinho e Flávio Izhaki.

A autora deste texto, a jornalista e atriz Bianca Ramoneda, exaltou sua relação com a Muda, onde residia – sublinhando enfaticamente a fase violenta da Tijuca, nos anos 90 e 2000 -, fazendo uma comparação com o momento em que finalmente deixou a região para morar num quarto-e-sala no Leblon. Pretendo comentar sobre esse texto em outra oportunidade, embora valha a pena destacar, diante do propósito deste post, o seguinte trecho:

"Eu tinha 18 anos, morava na Muda, pequeno bairro dentro da enorme Tijuca, onde era feita a troca de bondes. Lindo bairro pra morar, se a sua ideia for passar os dias e, principalmente, as noites dentro de casa. Como uma legítima cidade do interior, na Muda o transporte acaba antes das 22 horas e é impossível comer um salgadinho onde quer que seja, pois não há nada aberto. A Muda tem um silêncio impressionante durante a madrugada, herança da proximidade com o Alto da Boa Vista, um silêncio que só é rompido pelo latido dos infinitos cães que reagem ao som de cada folha que cai no asfalto (p. 51).”

Apesar do cenário descrito acima ser da Muda – de fato, uma cidadela pra lá de pacata entre a Tijuca e a floresta –, muita gente ainda associa essa ideia de bairro “parado” à Tijuca como um todo. “Ah, não há vida noturna na Tijuca”, apontam alguns. Mas como não, cara pálida? E a boêmia dos arredores da Praça Varnhagen? O que dizer, então, da balbúrdia dos pés-sujos da Haddock Lobo?

No entanto, entendo o que querem dizer com isso, principalmente quando esse argumento vem de um tijucano menos esclarecido: a Tijuca não é o bairro da moda. Logo, o que há de entretenimento por aqui nem se compara à diversão cosmopolita de Botafogo, esse sim o bairro vitrine do Rio, cheio de novidades, bares estilosos que abrem e fecham conforme a demanda de público, shoppings, excelentes livrarias e cinemas badalados. Paraíso do consumo cool, onde volta e meia me abasteço, é claro. Não há disso na Tijuca.

Por vezes não nos damos conta da influência impressionante que a publicidade e a mídia têm no nosso modo de viver. Neste sentido, o estilo de vida da zona sul (ou seja, o lugar que dita a moda) se impõe como padrão e, forçosamente, acabamos acreditando nessa concepção de que a Tijuca não é tão bacana assim. Daí surgem os argumentos mais ultrapassados possíveis contra este nosso vale: “bairro de gente velha e moralista”, “só tem farmácia”, “não tem praia”, “o lazer se resume ao shopping” etc.

Tá, tá, tá, tudo bem. O jeito como alguém gosta de se divertir é muito particular, não há como questionar. Se os encantos do capital são os que te cativam, é para a zona sul ou para a Barra que você, caro tijucano, deve ir mesmo. A Tijuca é prática e sem firulas, mantém a tradição, não se diversifica, com exceção do shopping center. Eu e minha família vamos sempre, há anos, no mesmo braseiro, o arrebatador Lareira, na Rua Major Ávila. Mas há quem prefira comer o mesmo galeto, e pagando talvez até mais caro, lá nesse tal de Braseiro do Baixo Gávea, lugar dos chamados trendsetters (grosso modo, termo em inglês para dizer que alguém lança moda).

A vida cultural do Centro ou de Botafogo são irresistíveis, confesso. Só que também me invade uma sensação muito esquisita quando volto desses lugares, algo que nasce e cresce dentro de mim, sempre que saio do metrô e deparo com o chafariz da Praça Saens Peña ou cada vez que um 415 cruza o viaduto Paulo de Frontin, perpassa a Praça Afonso Pena e segue reto, toda vida, até chegar à Usina. Bate uma emoção em atravessar tantas ruas queridas, tantos monumentos esplendorosos como a Igreja de São Francisco Xavier e o Colégio Marista! O encantamento com a zona sul fica pra trás.

Voltar à Tijuca, após uma noitada na Lapa, por exemplo, é retornar literalmente para casa. A gente se diverte lá e regressa sabendo que na Tijuca encontraremos o descanso e o silêncio. O afastamento necessário à vida mundana exalada pelos bairros notívagos. É como se as nossas ruas respeitassem seus próprios relógios biológicos: durante o dia, vivacidade, à noite, adormecimento. O clima de família, ainda que ultimamente visto como um valor antiquado, tempera o nosso bairro com doses irresistíveis de hospitalidade.

Vendo assim, a Tijuca pode até ser um bairro meio sem nada para fazer mesmo, mas um bairro apaixonantemente "parado".

Prédio do antigo Cinema Carioca amanhece pichado

A fachada do extinto Cinema Carioca após vandalismo

Há cerca de dois meses, o belíssimo prédio art déco do extinto Cinema Carioca, situado na esquina da Conde de Bonfim com a Rua das Flores, passou por uma remodelação completa na sua fachada: nova pintura e revitalização dos detalhes azuis que circundavam o antigo letreiro. A obra, realizada pela Igreja Universal do Reino de Deus, proprietária atual deste imóvel, foi feita com o maior esmero, dando todo um ar mais gracioso à paisagem caótica da Praça Saens Peña.

Eis que, infelizmente, nesta semana, a fachada central do Carioca amanheceu vandalizada com os dizeres "Igreja Universal faz lavagem cerebral". É certo que os moradores do bairro, sobretudo os mais saudosos, prefeririam que, ao invés da igreja, continuasse funcionando ali o cinema, mas para tudo há um limite. Além do ataque à crença alheia (cada um possui o direito de seguir o credo que escolher), o Carioca é um prédio tombado, patrimônio citadino, que agora está porcamente barbarizado.

Lamentável.