26 de jun de 2014

Valorização (e verticalização) em alta

Lançamento imobiliário na Avenida Maracanã: verticalização novamente em ascensão.

A partir de 2008, quando foi dado início à implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em algumas favelas cariocas, o preço dos imóveis e o valor do solo aumentaram vertiginosamente no eixo econômico da cidade, compreendido pelos bairros das Áreas de Planejamento 1 (Centro) e 2 (Zona Sul e Grande Tijuca). Foi neste momento que a casa dos "milhões" passou a figurar nos classificados, à primeira vista como um fenômeno absurdo, mas agora encarada como algo já naturalizado nas transações imobiliárias de unidades familiares de classe média.

Tal cenário vem propagando um efeito dominó em toda a cidade do Rio, tendo afetado, primeiramente, a região do Leblon, depois a de Botafogo e, desde então, a Tijuca, que parece estar sendo uma alternativa viável de moradia para uma parcela da classe média expulsa da zona sul diante dos preços impraticáveis evidenciados no outro lado do Rebouças. Vale destacar aí igualmente o regresso de hordas de ex-tijucanos que se exilaram na Barra durante os anos 80 e 90 e agora retornam à "terra-mãe" motivados pela praticidade do bairro em se fazer tudo a pé, além da proximidade com o Centro e a excelente mobilidade urbana conferida à Tijuca.

Além disso, não são apenas os "expulsos" da orla os que estão à procura de um lugar por aqui. A reportagem de capa de O GLOBO-Tijuca de quinta-feira passada (19/06/2014) mostra que 90% dos apartamentos vendidos no bairro foram para pessoas que já residem nele, segundo pesquisa da construtora Concal. Há lançamentos imobiliários por toda a região, justificados pelas empreiteiras como a busca pelo tijucano de um novo estilo de vida dentro do próprio bairro:

Capa do GLOBO-Tijuca, de 19/06/2014
"- Quando iniciei minha trajetória no mercado imobiliário, a Tijuca era mais valorizada do que Ipanema. Foram três décadas de declínio e abandono, fazendo com que os tijucanos saíssem do bairro. Hoje, a Tijuca já é mais valorizada que bairros na orla, como Recreio, e se modernizou, ganhou condomínios-clubes. O tijucano não quer sair do bairro, ele quer melhorar de vida dentro da própria Tijuca." (Rubem Vasconcelos, presidente da Patrimóvel)

Mesmo que aparentemente se trate de uma reportagem "encomendada" por empresas do ramo imobiliário, é importante perceber nesta querela como a valorização do solo tijucano tem se dado unicamente por intermédio da construção de condomínios e prédios avarandados. Em nenhum momento comenta-se sobre a revitalização do espaço público, por exemplo, como elemento propulsor à valorização imobiliária.

É bem verdade que o estilo de moradia (pelo menos, a preferência) atualmente é bastante distinta daquele evidenciado em meados do século XX. O que gostaria de chamar a atenção para tal tema é a necessidade de se pensar na valorização do bairro de forma mais integrada, em rede, e não apenas em unidades habitacionais levantadas e nos serviços que elas oferecem aos seus moradores de modo exclusivo.

Outro ponto importante aí é observar que a Tijuca já foi densamente verticalizada nos anos 1970 e agora parece estar vivendo um novo boom. Os questionamentos que nos restam são os seguintes: isso é sustentável a médio prazo? Mesmo com uma boa infraestrutura, a Tijuca suportará o ritmo de intensidade no uso do seu solo? Que benefícios tangíveis a comunidade do bairro poderia usufruir de empreendimentos do gênero?

São tópicos merecedores de reflexão.

Um comentário:

Romulo Fernandes disse...

Olá, já acompanho o seu trabalho nas Ruas do Rio e fiquei muito feliz em saber que o bairro da Tijuca, o qual sou extremamente apaixonado, está sendo apresentado neste excelente blog. Continue descobrindo os encantos da Tijuca e se der, faz um post sobre a Praça Xavier de Brito (local onde moro), mais precisamente na Rua Pinto Guedes em frente a Radmaker. Valeu!!!

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