11 de jul de 2014

Outrora, as viagens no 426 (Usina-Copacabana)

Lembro-me de que passar pelo Rio Comprido, mais especificamente a Rua Itapiru, no início dos anos 2000, era uma espécie de tabu geográfico para muitos tijucanos. Naquela época, tiroteios e balas perdidas conviviam diariamente com a rotina dos cariocas, inseguros com a violência urbana que assolava o Rio. Não se falava em favelas como destinos turísticos tampouco se tinha uma perspectiva positiva delas como atualmente.

Diante daquele contexto violento, como encarar a vulnerável Rua Itapiru, margeada pelo Complexo de São Carlos e pelas favelas do alto de Santa Teresa?

Quando adolescente, costumava pegar a linha 426 (Usina-Copacabana, apesar de que há pouco tempo seu itinerário se estendeu ao Jardim de Alah) quando precisava ir à zona sul. Era um dos poucos coletivos que transitavam por toda a extensão da Rua Itapiru, operado pela Auto Viação Alpha. Desembocava nos retornos e mergulhões cinzentos do Catumbi até dar de cara com o Túnel Santa Bárbara.

Existia uma tensão entre os passageiros quando o 426 passava pela Itapiru. Com exceção dos moradores dali – logo, aparentemente familiarizados –, as pessoas dentro do coletivo se entreolhavam como que numa conversa telepática em que rogos por piedade eram clamados incansavelmente até o momento em que o ônibus chegasse ao bairro de Laranjeiras. O risco estava ali, entre a Rua da Estrela e a Rua Doutor Agra. Não só porque essa moda de confrontos armados era imprevisível e muito recorrente, mas também porque os assaltos eram igualmente comuns. Nunca os presenciei, embora tenha visto as ameaças psicológicas que os “baderneiros” praticavam sobre os passageiros. Esses episódios aconteciam mais nos finais de semana ensolarados. O fluxo em direção à orla era expressivo.

Por essas razões é que se evitava passar pela Rua Itapiru. Só nunca entendi porque eu não a evitava. Sentia medo, sim, mas nunca dei as costas a qualquer rua ou região da cidade porque era mais ou menos segura. Não queria virar refém dos medos da urbe muito menos alienar-me aos limites dos bairros supostamente “livres de perigo”. Afinal, sou da Tijuca, bairro tão indefeso quanto o Rio Comprido naquela época, só que com mais pompa.

Pouco mais de uma década depois, a Rua Itapiru continua com seu aspecto de cidade fantasma. Em contrapartida, não sinto mais receio em pegar o 426. Aliás, nem tenho mais a necessidade de percorrer a Rua Itapiru em direção ao Santa Bárbara como antes. Mas mesmo assim embarco nessa linha com algum tipo de frequência quando quero quebrar a rotina. E vou sem aflição. Recentemente, até ousei em pedir a um taxista parado na Conde de Bonfim que me levasse à Santa Teresa pela Rua Barão de Petrópolis. Essa rua, transversal à Itapiru, estava ficando tão “mal afamada” quanto o logradouro vizinho naqueles tempos. Tive medo de uma resposta negativa, mas, vejam só, obtive nenhum pio sequer de sua parte. Levou-me imediatamente, sem titubear.

É confortante não ver mais a tensão dos passageiros codificada em unhas a ponto de serem totalmente ruídas nem em braços aferrados às bolsas e mochilas quando embarco num 426. Ele passa pela Itapiru com serenidade, com a sua lataria vermelha ou amarela, sem preocupar-se com a preferência de cores das facções criminosas. Entram mães, crianças, adolescentes, pais, homens, estudantes, senhoras, senhores, passeadores em geral. Dão bom dia, boa tarde; escutam-se mais por favores, obrigados, com licenças. Há mais sorrisos nos rostos e menos caras emburradas. Há mais gentileza e menos comportamentos grotescos.

O curioso é que as pessoas são as mesmas de antes. Já os tempos, são outros.

Um comentário:

Ricardo Freitas disse...

Boa tarde,

Estou adorando o blogger, e lendo várias postagens legais, mas dessa aqui em especifico achei ofensiva e deselegante e me sentir ofendido.

Realmente a região da Rua Itapirú passou por momentos ruins entre 1998/2006 com a guerra do tráfico que existia no local, assaltos e medo.

Mas daí você dizer " Entram mães, crianças, adolescentes, pais, homens, estudantes, senhoras, senhores, passeadores em geral. Dão bom dia, boa tarde; escutam-se mais por favores, obrigados, com licenças. Há mais sorrisos nos rostos e menos caras emburradas. Há mais gentileza e menos comportamentos grotescos. O curioso é que as pessoas são as mesmas de antes."

Esse treco ficou ofensivo e generalizado, parece que todos moradores da região são mal educados e agiam de forma grotesca.

Me sentir ofendido e considerei o comentário soberbo e desnecessário.
Por acaso em todos os bairros da cidade não existem pessoas boas e ruins?

E todos os bairros não existem pontos fortes e fracos?

Amo a tijuca, mas sou morador do Rio Comprido, um bairro deixado de lado há tempos pela politica pública de conservação, apesar de já ter sido moradia de ilustres família no passado glorioso.

Mas acho que nos comentário feitos deve-se haver respeito por TODOS os bairros e principalmente respeito nas palavras a se referir à seus moradores.

Abs e sucesso ao Blog.

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