30 de ago de 2014

A arquitetura clássica da Tijuca: edifícios residenciais (parte I)

Rua Carlos Vasconcelos 12: dois pavimentos, muro baixo, sem elevador, candeeiro, ares pacatos.

Passear pela Tijuca é também se encantar com a sua arquitetura clássica, sobretudo quando o pedestre se infiltra pelas ruas transversais e exclusivamente residenciais, muitas delas distantes do burburinho dos grandes eixos viários do bairro. Em geral, a arquitetura tijucana mais valorizada é aquela representada por emblemáticos prédios públicos ou de caráter cultural e religioso, como o Instituto de Educação e a Igreja dos Capuchinhos (na Haddock Lobo), marcos do ecletismo, ou então, alguns expoentes do art déco, como o Cinema Carioca e a Fundação Bradesco, extinto Instituto Lafayette, este último também na Rua Haddock Lobo.

O número 40 da Rua Caruso: art déco puro
Por outro lado, o time de arquitetura clássica residencial também é muito notável, apesar de muitos, devido à idade e à custosa manutenção, não estejam lá bem cuidados, assim. Outros já passaram por verdadeiras "cirurgias" em suas fachadas que acabaram resultando numa considerável descaracterização, quando não por completa.

A Rua Caruso, por exemplo - no início da Tijuca, entre as ruas Haddock Lobo e Doutor Satamini -, é um desses lugares cujos edifícios têm vivenciado o inevitável processo de gradeamento excessivo e de intervenções descuidadas, o que é quase uma desgraça diante da sua identidade exclusivamente art déco. Infelizmente, a insegurança e a chegada de novas tecnologias domésticas, como os modelos de ar condicionado split, induzem o morador a fazer adaptações em sua residência nem sempre de maneira zelosa conforme o projeto original.

Já na região das ruas Carlos Vasconcelos dos Araújos, zona de verticalização antiga por situar-se nas vizinhanças da Praça Saens Peña, há muitos prédios antigos e mimosos (mimoso é o adjetivo certo, acredite!): vemos azulejos lusitanos, torres arredondadas, colunas romanas em varandas com abóbadas, telhas coloniais. Na própria praça, junto à esquina de Desembargador Isidro, há um desses exemplos, delicadíssimo por sinal. Mais para cima, entre a Carlos Vasconcelos e Araújos, o edifício cuja imagem abre este post é um claro exemplo de como a Tijuca pode ter ares pacatos e nada cosmopolitas, assim como o prediozinho simpático que lhe fica de frente, colado a um armazém de estilo bastante tradicional.

Na esquina da Carlos Vasconcelos com Araújos, telhados coloniais e até rosa-dos-ventos!

A classe das colunas e das abóbadas (e alguns cobogós) no discreto edifício da Saens Peña

Na Rua Conde de Bonfim, no número 152, próximo à Rua Alzira Brandão, temos o Edifício Conde de Bonfim (sim, leva o mesmo nome da rua) com uma "roupagem" bem típica daqueles edifícios requintados de Copacabana dos anos de 1950. No entanto, as janelas principais, que dispunham de venezianas brancas, foram praticamente todas substituídas por modelos similares aos de acrílico, restando às charmosas venezianas sua aparição apenas nas ventanas coadjuvantes.

Edificio Conde de Bonfim, no 152 da rua
Enquanto isso, no outro lado da Conde de Bonfim, no número 544 (nas proximidades da Rua José Higino), o Edifício Tijuca, situado numa espécie de vila particular, reluz com um portão bonito de madeira cujo puxador de ferro foi todo trabalhado em linhas retas douradas, diferindo-se levemente da portaria do Edifício Cibrasil, na Rua Professor Lafayette Côrtes, meu preferido desde sempre! Este, apesar do tom flavescente igual ao do Edifício Tijuca, foi todo talhado em ondas que lembram bigodes ou rococós. Aliás, tais rococós aparecem novamente no topo da sua portaria, onde figura um trabalho bem bonito deste tipo de ornamentação e todo preenchido por azulejos floridos (já falei sobre esse edifício em março, relembre aqui).

Na Muda, o Edificio Marinezilda da Rua Doutor Otávio Kelly é um desses prédios que devem ter sido angelicais nos seus tempos áureos, mas que hoje carecem de um cuidado maior. Suas características principais foram preservadas, muito embora o estado decadente seja o que mais nos salta aos olhos. Há outros edifícios "gêmeos" ao Marinezilda que estão igualmente na mesma situação, na mesma rua. De todo modo, continua sendo um prédio simpático e em localização nobre, nas redondezas da Praça Xavier de Brito, a praça dos cavalinhos.

Por fim, logo no início da Avenida Edson Passos, o fabuloso Edifício Marapendi não só embeleza a subida do Alto da Boa Vista, bem como deixa muitos passageiros dos ônibus que vão para a Barra ligeiramente encantados com o seu porte! Situado junto à esquina da Rua Doutor Catrambi, o Marapendi possui uma entrada monumental cheia de motivos artísticos, um jardim vertical, pilotis e uma faixa de azulejos que não chega a revestir toda a sua fachada impecavelmente alva.

O estilo bastante fidalgo do Edifício Cibrasil, que se parece a um castelinho

O requinte da entrada do Edifício Tijuca, na Rua Conde de Bonfim 544

Na Muda, o Edifício Marinezilda apresenta aspectos mais vetustos, mas sem muitas descaracterizações

O Edifício Marapendi, por sua vez, reluz com a sua branquidão na subida do Alto

Este post reuniu apenas alguns poucos exemplos da arquitetura clássica tijucana. Por isso, essa é a parte I da série de edifícios residenciais. É preciso também mostrar as casas, igrejas, escolas, sobrados, et cetera. Lembro que a ideia de clássico, neste contexto, remete a todo estilo praticado até os anos 1960. Aguardem, pois certamente, após dessas publicações (e desses achados!), suas andanças pela Tijuca serão vistas por outros olhos.

Projeto Arte na Faixa diverte o semáforo da Saens Peña

Faixa de pedestre na Conde de Bonfim em frente à Praça: Projeto Arte na Faixa chegou à Tijuca.

Atravessar o sinal da Conde de Bonfim em frente à Praça Saens Peña ficou, no mínimo, mais inusitado. O Projeto Arte na Faixa, que já vem colorindo diversas faixas de pedestre ao longo do Rio, interveio recentemente aqui na Tijuca. Sob a curadoria do grafiteiro Airá Ocrespo e parceria com o Rio Eu Amo Eu Cuido, o impacto desta arte é o de fazer com que os pedestres sejam mais cuidadosos ao lidar com o trânsito, já que, acompanhado ao grafite, é apresentada a mensagem: "Agora que você reparou respeite a faixa. Pequenos gestos fazem grande diferença".

Além disso, tal intervenção é praticamente um portfólio público do trabalho de diferentes grafiteiros engajados no projeto: Nitcho, Bruno Zagri, Ap Stelling, Bella, Jaime, Meton, Mica, entre outros. Essa estampa da Conde de Bonfim é da autoria de Combo. As outras faixas de pedestre contempladas no projeto (e sob a responsabilidade de outros artistas) se encontram na Rua Marquês de Abrantes (no Flamengo, por Meton), no Boulevard 28 de Setembro (na Vila, por Camiz), na entrada do Parque Madureira (por Bruno Zagri), na Avenida Presidente Vargas (em frente à Central, por Caze) etc.

A proposta é conscientizar o pedestre, através da arte, sobre a importância de
dar a atenção devida ao fluxo de trânsito.

Veja a lista completa dos endereços cujas faixas foram grafitadas, aqui: http://rioeuamoeucuido.com.br/artenafaixa/

25 de ago de 2014

O bucolismo em meio à Conde de Bonfim

A Tijuca é mesmo um bairro de surpresas. Caótico em virtude do progresso e da verticalização acentuada, este ainda resguarda certas paisagens e detalhes capazes de deixar atônito qualquer turista ou pedestre desatento. Um bueiro histórico, o detalhe arquitetônico de renome, os trilhos do bonde sufocados pela camada espessa de asfalto, um panorama mais bucólico em meio à urbe: a Tijuca é mestre em surpresas. Veja este vídeo, por exemplo:

video


À primeira vista, poderíamos supor que tal cenário corresponderia a qualquer cantinho verdejante, de natureza pulsante, do Alto da Boa Vista. Uma corrente d'água assim, tão limpinha, não combina nem um pouco com o espírito pra lá de babélico da Rua Conde de Bonfim. Pois é, esse trecho do Rio Maracanã, que desce o Alto e perpassa a Conde de Bonfim rumo à Avenida Maracanã, é um oásis de tranquilidade na Usina, por onde estava passeando e gravei esse vídeo.

Por ali, na altura do número 1328, há uma mureta no lado par da calçada que divide o rio em relação às pistas da Conde de Bonfim e, por conseguinte, ao outro lado da calçada, dotado de condomínios e prédios modernistas, como esse em evidência. Adorável...

Externato do Colégio Marista São José: retoques finais

Externato São José: visão livre, sem tapumes na Barão de Mesquita.

Como foi apresentado neste blog em 18 de abril, as obras do antigo externato do Colégio Marista São José estão a todo vapor e, ao que tudo indica, prestes a acabar. Com reinauguração prevista para o ano letivo de 2015, a remodelagem deste suntuoso prédio tombado pelo decreto 19.342/2000, está dando ares menos lúgubres àquele trecho da Rua Barão de Mesquita onde se localiza. Fechado desde 1997, a calçada em frente já tinha até virado depósito de lixo, assim como moradia de roedores e estacionamento de vans piratas.

Após a remoção dos tapumes, a visão para a escola agora pode ser mais bem apreciada pelos pedestres que passam ali junto à ciclovia. Tudo impressiona: as cores, os detalhes, as árvores no entorno. Há um ipê rosa belíssimo dentro do seu terreno; o mesmo tipo de ipê que se avista, por exemplo, em outro colégio tradicional, o Instituto de Educação, na Rua Mariz e Barros.

Com o resgate do Externato São José, um pouco da nossa história também é conservada e reinserida no tempo. Além de ter contribuído com a formação de uma grande leva de pessoas célebres, esta unidade do São José também é famosa por ter sido o local onde o jornalista e político Carlos Lacerda discursou pouco antes do atentado da Rua Tonelero, em 1954, considerado por muitos o símbolo da queda do governo Vargas. Em artigo de Diego Augusto Bayer, O julgamento de Gregório Fortunato (disponível em: http://www.jurisway.org.br/v2/dhall.asp?id_dh=10429), há o seguinte trecho:

Acontece que, no dia 04 de agosto de 1954, Alcino e Climério, sem a companhia de Soares, vão até o Externato São José (hoje Colégio Marista), na rua Barão de Mesquita, na Tijuca. Lacerda, de terno branco, chegou e fez seu discurso. No entanto, havia uma multidão, e não foi possível concretizar o crime lá. Lacerda saí do Externato acompanhado do filho Sérgio e do major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, qual fazia a segurança à paisana de Lacerda. Climério e Alcino seguiram em um taxi de um conhecido chamado Nélson Raimundo de Souza (que era também barbeiro no Palácio do Catete). Todos seguiram até a rua Toneleros, em Copacabana.

Calçada em frente à escola foi revitalizada: ali era local de lixo e roedores.

O Externato São José fica na Rua Barão de Mesquita 164, entre as ruas Adolfo Mota e Deputado Soares Filho.

24 de ago de 2014

Bike Rio chega à Tijuca

A nova estação do Bike Rio, no canteiro central da Avenida Maracanã junto à Varnhagen:
sustentada por energia solar.

Com três anos de atraso, o sistema de bicicletas laranjinhas do Itaú, conhecido como Bike Rio, está finalmente chegando à Tijuca e arredores desde meados deste mês de agosto, quando o tijucano já pôde avistar algumas de suas novas estações sendo implantadas na Praça Varnhagen (180) e no Largo da Segunda-Feira (177) - as únicas estações até agora em operação, ou seja, já disponíveis para uso.

Detalhe da estação 180 (Varnhagen)
O Bike Rio surgiu em meados de 2011 apenas na parte turística da cidade, expandindo-se posteriormente para outras localidades da zona sul até alcançar o Centro - que, há cerca de 3 meses, foi contemplado por um número expressivo de novas estações - e o Parque Madureira, a única área isolada desta grande região atendida pelo sistema. Aqui na Tijuca, a estação mais próxima até então era a de número 174, localizada no Largo do Estácio.

Quando falo que o Bike Rio chegou com atraso à Tijuca e arredores deve-se ao fato de que foi precisamente em meados de 2011 e início de 2012 que ganhamos nossas primeiras ciclofaixas nas ruas Barão de Mesquita e Major Ávila, conectadas ao Estádio do Maracanã, além de outras do mesmo porte em Vila Isabel e no Grajaú. Isto é, na mesma época em que o Bike Rio foi implementado na cidade.

O Bike Rio será uma "mão na roda" para o tijucano se deslocar pelo seu bairro; afinal, a Tijuca, por ser extensa, é quase uma mini-cidade dentro do Rio. Isso sem levar em consideração os bairros contíguos como Vila Isabel, Grajaú e Maracanã, tão populosos e densamente ocupados como a Tijuca. É por essa razão que a Grande Tijuca merece um sistema de transporte alternativo como esse, que facilite a locomoção de seus moradores dentro da própria região; no fim de contas, entre essas vizinhanças, as distâncias são pequenas e seus caminhos têm grande rotatividade por a Tijuca ser um grande centro econômico e de serviços na área. 

Muito embora o mapa da estação 180 na Praça Varnhagen assinale que a Tijuca será contemplada com mais duas estações na Praça Xavier de Brito (188) e no Metrô Uruguai (185) - além da estação Maracanã Norte (197), junto ao estádio -, foram licitadas em 2013 um total de 26 estações do Bike Rio entre Tijuca e Vila Isabel, segundo a página Os Ciclanos:

TIJUCA (16 estações)
175 - Metrô Estácio
176 - Rua Dr. Satamini / Rua do Matoso
177 - Largo da Segunda-Feira
178 - Afonso Pena
179 - Colégio Militar
180 - Praça Varnhagen
181 - Heitor Beltrão
182 - Praça Saenz Peña
183 - Shopping Tijuca
184 - Praça São Charbel / EXTRA Maracanã
185 - Metrô Uruguai
186 - SESC Tijuca
187 - Oi Futuro
188 - Praça Xavier de Brito
189 - Praça Pinheiro Guimarães (Hospital da Ordem Terceira)
190 - Largo São Camilo (Usina)

VILA ISABEL/MARACANÃ (10 Estações)
191 - Shopping Iguatemi - rua Barão de São Francisco
192 - Praça Barão de Drummond
193 - Boulevard 28 de Setembro / Rua Souza Franco
194 - UERJ
195 - Maracanã
196 - Maracanã Sul
197 - Maracanã Norte
198 - Estádio Célio de Barros
199 - Praça Niterói
200 - EXTRA Boulevard

12 de ago de 2014

Obras que não acabam no piscinão da Praça da Bandeira


A Praça da Bandeira, digníssimo (e alagadiço) logradouro tijucano que dá as boas-vindas à Zona Norte e, mais adiante, aos subúrbios, encontra-se assim, nesse estado, como se fosse um areal há mais de dois anos. As obras intermináveis do reservatório (vulgo piscinão), que promete acabar com as enchentes no bairro, exterminaram a arborização da Praça da Bandeira, que dispunha de lindos abricós-de-macaco.

As outras duas vítimas são a Praça Varnhagen e a Praça Niterói, na Tijuca e no Maracanã, respectivamente. Não há previsão de devolução das praças à população. Enquanto isso, partes do nosso bairro continuarão dessa maneira, cinza e sem vida. 

10 de ago de 2014

E viva a boemia tijucana! (2) - de volta à 1985

A publicação anterior "E viva a boemia tijucana!" (10/08/2014) poderia ser muito bem correlacionada com reportagem veiculada no jornal O Globo há 29 anos, em 18/07/1985, com o título "Zona Sul? Já era. A noite tijucana é o maior barato". A matéria assinada por Marisa Castellani chama a atenção pelo longo texto (algo que difere demais do padrão editorial atual) e pelos detalhes dos lugares que eram verdadeiros points da região antigamente. Muitos dos locais citados já não existem mais, com exceção do Só Kana. Leia na íntegra:

Reprodução: Acervo O Globo.
O Globo, 18/07/1985. 
Zona Sul? Já era. A noite tijucana é o maior barato
Por Marisa Castellani
O que faria um jovem tijucano, uns quatro anos atrás, para curtir uma noite de sexta-feira na desagradável contingência de ter pouca "grana" e - oh, terrível desgraça - sem carro disponível para suas andanças? Na Tijuca as alternativas eram poucas: no máximo, uma ida de ônibus ao Alto da Boa Vista tomar uns chopinhos na Praça Afonso Viseu. Se nem isso fosse possível e estivessem definitivamente frustradas todas as caronas para a Zona Sul, o jeito era ir ao cinema ou procurar algum filme interessante na televisão. Ou, quem sabe, jogar baralhos com amigos em situação semelhante. Mau começo para um fim de semana.  
As coisas estão diferentes hoje em dia. A "noite tijucana" já é movimentada e, para muitos jovens, fica pouco a dever para os programas noturnos da Zona Sul. Os bares, a dacenteria Mamute, o pub Robin Hood, o tradicional barzinho do Alto e outros pontos que a juventude elege para se encontrar são alternativas das mais interessantes para se divertir num bom fim de semana. Com a vantagem da economia de gasolina. Se você convidar um amigo para dar umas voltas nos bares da Zona Sul pode até se arriscar a ouvir um "tá louco? Me despencar para lá à toa? Vamos ali no Off-Shopping que a gente logo descola um programa".
Sem falar na Discoteca Help, em Copacabana - essa ainda conserva seu prestígio junto à juventude tijucana -, muitas das outras atrações da Zona Sul estão perdendo o brilho de atração para quem mora por aqui. A Mamão com Açúcar, por exemplo, entrou em fase de "baixo astral", depois da morte da menina Mônica Granuzzo. Hoje ela é "out", até mesmo porque fechou. Melhor ficar na Tijuca onde ainda não "pintaram" essas confusões, defendem alguns jovens. 
Se você duvidar disso, certamente vai se surpreender ao encontrar o jovem tijucano Aloisio Pinto, 21 anos, acompanhado de dois primos que moram em Copacabana numa sexta à noite no Robin Hood. Os primos acham o pub "um barato" e vão lá muitas vezes. Igual sensação de surpresa você pode ter se encontrar Marcela de Paula Chaves dos Santos, 15 anos, e moradora da Gávea, com um grupo de amigos num bar da Tijuca. Ela diz que os bares da Tijuca "são bem mais baratos do que os da Zona Sul".

Para início de conversa, Off-shopping 
O roteiro para uma noite na Tijuca pode começar nos bares do Off-Shopping, perto da Praça Saens Peña. A turma se reúne lá para fazer hora, "azarar", jogar conversa fora e até planejar um programa para o resto da noite. Por volta das oito da noite, já tem gente por ali batendo papo. E também o lugar onde se encontram os "duros", que mesmo com a mesada curtinha na época, querem arranjar um jeito de se divertir. E conseguem.
Se estiver agradável, o papo em frente à pizzaria "Ed & Max" pode se prolongar por toda noite e já consistir no programa de sexta-feira. Dali, quem quiser por ir à Mamute, ao Robin Hood ou ao barzinho do Alto, dependendo só da vontade. Sim, porque carona sempre acaba aparecendo, nos muitos grupos de jovens que frequentam o Off. 
- Tenho 35 "barões" e eles têm que durar até domingo. Vim para cá porque não estava a fim de ficar em casa; de repente dá para "azarar" uma gatinha. Houve uma época que eu vinha para cá todo o fim de semana, foram oito meses seguidos - diz Carlos Henrique de Souza Gomes, 17 anos. 
Márcio Luiz Neves, 17 anos e Luiz de Souza Neto, de 18, acham que na Zona Sul tem um número maior de barzinhos como aquele, mas afirma que s"se o cara não tiver carro, se arruma bem pra caramba por aqui". Nas mesinhas em frente ao Ed & Max, uma blusa colocada dentro de um saco plástico pode se transformar numa bola de vôlei como num passe de mágica. O jogo por cima das mesas, acompanhado de gargalhadas, é uma das maneiras dos jovens brincarem. 
- A brincadeira já animou a gente. Agora só falta uma carona legal - diz Andréia Teixeira, 16 anos, em meio a muitas risadas.
- Serve no meu carro? - oferece um amigo. - Tá sem freio, com pouco álcool e eu tô duro.
A carona é recusada, claro. Mas a brincadeira continua e o grupo decide ficar por ali mesmo, em vez de ir para outro lugar. Os jovens só lamentam que dois outros bares tenham fechado no Off-Shopping, o "Pank's" e o "Batida de Frente".
- Há um ano isso aqui lotava mesmo. Agora perdeu um pouco o pique. O Ed & Max já promoveu até um show de rock na porta para levantar o lugar. Mas a coisa vai melhorar quando os outros dois bares reabrirem - diz Edson Lopes, 24 anos.
Gonçalo Xavier, o Guto, de 19 anos, é quem resume o espírito da moçada do Off-Shopping:
- Tudo é muito tranquilo. Quase ninguém vai para a Zona Sul, a não ser se for um programa especial, uma boate, por exemplo. Se alguém convidar para ir a barzinho por lá, o cara vai pensar que é maluquice. Agora, uma boa é comprar batida no Só-Kana e depois ir para a praia da Barra da Tijuca. Essa é uma grande turma, uma rapaziada bem legal.


Robin Hood: o rock que vem do Alto 
Os caminhos do Alto da Boa Vista levam a dois lugares diferentes em termos de programação noturna: um é o tradicional barzinho na Praça Afonso Viseu e outro é o pub Robin Hood, quase em frente à pracinha.
O barzinho, desde a gravação da novela "O Primeiro Amor", em 1972, é ponto de encontro da juventude. Faça calor ou faça frio. Agora, por exemplo, em vez de gente com roupas de praia e chope geladinho aproveitando a temperatura amena do Alto, você vê pessoas encasacadas, gorros de lã na cabeça e uma boa caneca de vinho nas mãos. Mas sempre no barzinho.
- É um lugar gostoso, perto da natureza. Tem pessoas bonitas sempre circulando - diz Leonel Chabloz, acompanhado de Mônica dos Santos Carvalho e mais dois amigos.
Se lá fora faz frio, no "underground" do Robin Hood - lugar onde a rapaziada mergulha no som - a temperatura é altíssima, com a música comandada pelos discotecários Maurício Rocha e Alexandre Leite. Muito rock, repertório das FMs. Do lado nacional, dá Paralamas, Ultraje a Rigor, Legião Urbana etc. Do internacional, B-52, U-2 e grupos de fama semelhante. Mas como os discotecários querem ampliar o padrão do repertório e até se antecipar às FMs, entram também novos grupos e novas bandas, como "The Smiths" e "The Cure".
A turma se espalha no underground nos dois salões com bar, na pizzaria, nos jogos eletrônicos e numa ruazinha inglesa que a casa projetou nos fundos. Não falta nem o saxofonista solitário embalando o namoro dos casais. Mas quem define melhor a frequência da casa e comportamento dos jovens é a relações públicas Andrea Bravo: 
- A Tijuca tem dois tipos de jovens: um mais conservador, que tem orgulho do bairro e vai a todos os lugares novos que abrem por aqui e outro mais "tipo Zona Sul". Esse só dorme na Tijuca. Trabalha, estuda e frequenta a Zona Sul. De noite, vai com seu Scort preto para os bares de lá, abre a porta do carro, põe o som no último volume e faz pose para as gatinhas. Mas todo mundo sabe que ele é tijucano. Ele não tem a malícia característica de Zona Sul - descreve.
Quem frequenta o pub do Alto, segundo Andrea, é o tijucano que tem turmas no bairro, não tem qualquer "problema psicológico" em morar na Tijuca e quer se encontrar com amigos. Essa, resumidamente, é a filosofia do Robin Hood: ser um ponto de encontro, onde as pessoas conversem, joguem dardos, tomem cerveja, dancem, bem de acordo com a filosofia dos pubs de Londres. Até lançamento de livro, de disco e formaturas tem por lá e o tradicional "chá das cinco" estão programados para breve.
A recepcionista Telma Prates, 20 anos, confirma o resultado desta filosofia:
- Tem turmas que pintam aqui em todos os fins de semana. Conheço quase todas as caras - diz ela.

Mamute: cada dia um grito bem diferente
A Danceteria Mamute é, sem dúvida, uma das principais opções para um programa à noite no fim de semana. O pique é depois das 23h, a não ser aos domingos, quando a matinê vai das 17h às 22h. Acostumado com o público que frequenta a casa, Milton Lucena, o relações-públicas de lá, diz que sexta, sábado e domingo são dias com características diferentes e faixa de frequentadores bem definida.
- Sexta-feira é dia da turma de 25 anos, que sai da faculdade, do trabalho, toma um chopinho com os amigos, vai para casa se arrumar e chega aqui tarde. Daí que o nosso show só começa por volta de uma hora, uma e meia da manhã. Eles gostam de new wave e rock convencional. No sábado é outro público, mais novo, com idade entre 18 e 20 anos. A turma é bem mais exigente, são ouvintes de FM, conhecem todos os lançamentos musicais. Eles querem Paralamas, Ultraje a Rigor, Léo Jaime e todos os que tocam oito ou nove vezes por dia nas rádios. O show tem que começar na hora, uma da manhã certinho. Senão o pessoal que se arrumou todo vai encrencar por estar cansado na hora do show - descreve ele.
Nos domingos, dia de matinê, o show começa às 19h e o artista ou o grupo musical é o mesmo que se apresentou para os adultos. A faixa etária desce bastante, em torno dos 12 anos. Mas a animação não cai. Muito pelo contrário, são os que mais vibram com a música, o entusiasmo regado a coca-cola e a pizza. Papais, mamães, titias e vovós acompanham a turma e ficam nas mesas saboreando petiscos, enquanto a garotada dança. Todo mundo arrumadinho, no rigor da moda. Nas sextas e sábados, com show, o preço único é Cr$ 15 mil. Aos domingos, a mesada da turminha fica mais pobre em Cr$ 10 mil, se o pai não bancar "a noite".
O discotecário Dico, à frente de toda a parafernália de som montada pela Mamute e considerada uma das melhores da cidade, também tem observações interessantes a fazer sobre o comportamento dos jovens que vão curtir uma noite ali:
- O melhor espírito é o domingo. São as turmas mais abertas. Ninguém fica com vergonha de subir aqui e pedir música. Pedem mesmo, na maior e conversam com a gente. Os outros devem se achar "muito adultos" para isso e acabam participando menos - diz ele.
Os jovens frequentadores da Mamute preferem as músicas brasileiras e os grupos de rock da onda, de acordo com Dico. Música estrangeira sai pouco e, mesmo assim, dos grupos que tocam nas FMs, como B-52 e U-2. Os tradicionais Jimmy Hendrix e Janis Joplin nunca são pedidos. Passaram.
Na Mamute você pode encontrar desde o frequentador habitual, do tipo que "bate-ponto" todos os fins de semana, até gente que mora na Zona Sul e vem dar uma "curtida". Ou a mistura dos dois:
- Tô sempre aqui na Mamute, sexta, sábado e domingo - afirma Rogério Machado Moraes, 19 anos, morador do Leblon.

E viva a boemia tijucana!

Arte em poste da Avenida Maracanã, em frente ao Buxixo: região da boemia.

Sexta-feira, 19 horas. A porta do Shopping Tijuca começa a se encher de adolescentes das mais variadas idades e tribos. Essa moçada marca ponto religiosamente ali igualmente aos sábados, domingos e feriados, sempre na mesma faixa de horário. Sem nenhuma matinê por perto que os divirta, concentram-se ali, aos montes, no ajardinado em frente ao Tijuca Off Shopping, junto à banca de jornal. Andam de skate, papeiam, namoram, fumam e bebem escondidos até o momento que seus pais chegam, por volta das 23h, e, às buzinadas, avisam que é "hora de ir embora".

Mais uma noite começa na Tijuca, esse bairro apaixonantemente "parado" como já comentei algum tempo atrás. Cada grupo de tijucanos desfruta o seu próprio tipo de boemia. Esses mesmos adolescentes, quando não vão passear pelos corredores do shopping, encontram-se nos rodízios de pizza da Parmê do América ou no Pizza & Grill da Barão de Mesquita, aquela cheia de sabores inusitados, refrigerantes 2 litros sobre as mesas e calorosos "parabéns pra você" a cada cinco minutos.

É possível se divertir na Tijuca numa boa, principalmente com amigos, a não ser quando o assunto é cinema. Afinal, encarar a programação blockbuster do cinema do Kinoplex Tijuca e ainda enfrentar suas filas quilométricas exige certa dose de paciência. Com o lado cultural em baixa por aqui, só nos resta olhar o Facebook e ver se há algum evento do Norte Comum rolando pelo bairro, ou então, em caso negativo, bora logo beber e fazer o jus máximo ao termo "boemia". Quando se fala em redutos etílicos, a Tijuca é mais do que especialista: tem pós-doutorado!

Na Praça Varnhagen, reduto boêmio mais expressivo (e pop) da Tijuca, comensais e beberrões têm dividido o espaço da praça com tapumes, guindastes e um pouco de poeira. Interditada há mais de um ano, a Varnhagen foi escolhida para abrigar um dos três piscinões subterrâneos da região - os tais reservatórios que prometem "acabar" com as enchentes tijucanas. Apesar do cenário pouco atrativo, ele não afasta a clientela fiel do Só Kana, Buxixo e Buteko Tijuca, além de todos os outros bares situados no eixo da Rua Almirante João Cândido Brasil. Essa região é balbúrdia pura e com opções para todos os gostos e bolsos. Ideal para beber em grupos, a Varnhagen atrai gente de toda a Grande Tijuca e bairros próximos da zona norte, como Engenho Novo e Méier.

Por outro lado, tem muito tijucano por aí que torce o nariz para os bares da Praça Varnhagen e prefere, em troca, ficar ali mesmo pelas imediações da Rua Uruguai. As filiais do Otto (seja o café, o de frutos de mar ou o convencional, na esquina com a Conde de Bonfim), por exemplo, são as preferidas do tijucano bon vivant, que gosta de ambientes mais requintados. O mesmo vale para todo o corredor gastronômico "estrelado" da Rua Barão de Iguatemi, na Praça da Bandeira.

De todo modo, o que caracteriza mesmo a boemia tijucana são os nossos tradicionais botecos - o pólo da Praça Afonso Pena que o diga! Enquanto esses pés-limpos, entre outros bares da moda, iniciam e encerram suas atividades conforme a demanda do mercado (vide o Devassa, que não durou nem cinco anos na Mariz e Barros), os botecos existem aos montes na Tijuca há décadas, firmes e fortes. O que mais encanta é a gestão de caráter mais familiar, que, contrapondo à "diplomacia do business", trata o freguês na base da empatia. E o horário de funcionamento? Muitos deles não têm; varia de acordo com o humor do dia. E, cá entre nós, a gente adora essa informalidade. Coisa nossa.

5 de ago de 2014

A dicotomia zona norte versus zona sul

Em "A invenção da zona sul e a construção de um novo processo de segregação espacial no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX", artigo da geógrafa Elisabeth Dezouzart Cardoso, vinculada ao IBGE, há o destaque parcial de uma crônica datada de 1953 sobre os marcantes estilo de vida entre a zona sul e a zona norte carioca. É interessante observar aí como a identidade da Tijuca, tida como bairro provinciano, pacato e meio conservador, se contrapunha ao perfil cosmopolita e "moderninho" emanado pela Zona Sul desde a "invenção" de Copacabana, no início do século XX.

Nos anos 1960, a "Rainha" da Tijuca representava
a mulher-padrão da conservadora Tijuca
 “Nos dois mundos antagônicos do Rio se forjaram dois estilos de vida totalmente diversos. Aqui não falamos, é claro, de meio termo, mas do que são, caracteristicamente, a ‘zona sul’ e a ‘zona norte’. A zona sul, que começa propriamente no Flamengo, é a civilização do apartamento, e das praias maliciosas, do traje e dos hábitos esportivos, da ‘boite’e do pecado à meia-luz, dos enredos grã-finos, do ‘pif-paf’ de família, dos bonitões de músculos à mostra e dos suculentos brotinhos queimados de sol, dos conquistadores de alto coturno e de certas damas habitualmente conquistáveis, do ‘short’, do blusão e do ‘slack’, dos hotéis de luxo (e de outros de má reputação) e dos turistas ensolarados. O Rio cosmopolita está na zona sul, onde uma centena de nacionalidades se tropicalizam à beira das praias.
A zona norte é Brasil 100%. A gente mora largamente em casa (muitas vezes com quintal) e a casa impõe um sistema diferente de vida, patriarcal, conservador. Vizinhança tagarela e prestativa. Garotos brincando na calçada. Reuniões cordiais na sala de visitas. Solteironas ociosas e mocinhas sentimentais analizando a vida que passa debaixo das janelas. Namoro no portão, amor sob controle- para casar. Festinhas familiares, de fraca dosagem alcoólica. A permanente compostura no traje, ajustada com o do procedimento. Paletó e gravata. Mais ‘toilette’ que vestidos, mais área coberta nos corpos femininos. Vida mais barata. Empregada de 300 réis. Menos, água, mais calor. Diversão pouca, nada de ‘boite’ e ‘night-clubs’. Noite vazia de pecados e de passos boêmios e sortilégios. Vida menos agradável aos homens, mais abençoada pelos santos. Zona sul- zona norte, paraíso e purgatório do Rio. Sair do purgatório e ganhar o paraíso é aspiração de quase todos, mas há quem prefira, sinceramente, a vida simples e provinciana dos bairros e subúrbios do norte. Para muitos a zona sul não é o paraíso, mas o inferno da perdição, onde Copacabana dita a imoralidade, o aviltamento dos costumes, a frivolidade e a boemia”.
GOMES, Pedro. "Dois mundos opostos do Rio". Revista O Cruzeiro, 3/01/1953. 
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