30 de ago de 2014

A arquitetura clássica da Tijuca: edifícios residenciais (parte I)

Rua Carlos Vasconcelos 12: dois pavimentos, muro baixo, sem elevador, candeeiro, ares pacatos.

Passear pela Tijuca é também se encantar com a sua arquitetura clássica, sobretudo quando o pedestre se infiltra pelas ruas transversais e exclusivamente residenciais, muitas delas distantes do burburinho dos grandes eixos viários do bairro. Em geral, a arquitetura tijucana mais valorizada é aquela representada por emblemáticos prédios públicos ou de caráter cultural e religioso, como o Instituto de Educação e a Igreja dos Capuchinhos (na Haddock Lobo), marcos do ecletismo, ou então, alguns expoentes do art déco, como o Cinema Carioca e a Fundação Bradesco, extinto Instituto Lafayette, este último também na Rua Haddock Lobo.

O número 40 da Rua Caruso: art déco puro
Por outro lado, o time de arquitetura clássica residencial também é muito notável, apesar de muitos, devido à idade e à custosa manutenção, não estejam lá bem cuidados, assim. Outros já passaram por verdadeiras "cirurgias" em suas fachadas que acabaram resultando numa considerável descaracterização, quando não por completa.

A Rua Caruso, por exemplo - no início da Tijuca, entre as ruas Haddock Lobo e Doutor Satamini -, é um desses lugares cujos edifícios têm vivenciado o inevitável processo de gradeamento excessivo e de intervenções descuidadas, o que é quase uma desgraça diante da sua identidade exclusivamente art déco. Infelizmente, a insegurança e a chegada de novas tecnologias domésticas, como os modelos de ar condicionado split, induzem o morador a fazer adaptações em sua residência nem sempre de maneira zelosa conforme o projeto original.

Já na região das ruas Carlos Vasconcelos dos Araújos, zona de verticalização antiga por situar-se nas vizinhanças da Praça Saens Peña, há muitos prédios antigos e mimosos (mimoso é o adjetivo certo, acredite!): vemos azulejos lusitanos, torres arredondadas, colunas romanas em varandas com abóbadas, telhas coloniais. Na própria praça, junto à esquina de Desembargador Isidro, há um desses exemplos, delicadíssimo por sinal. Mais para cima, entre a Carlos Vasconcelos e Araújos, o edifício cuja imagem abre este post é um claro exemplo de como a Tijuca pode ter ares pacatos e nada cosmopolitas, assim como o prediozinho simpático que lhe fica de frente, colado a um armazém de estilo bastante tradicional.

Na esquina da Carlos Vasconcelos com Araújos, telhados coloniais e até rosa-dos-ventos!

A classe das colunas e das abóbadas (e alguns cobogós) no discreto edifício da Saens Peña

Na Rua Conde de Bonfim, no número 152, próximo à Rua Alzira Brandão, temos o Edifício Conde de Bonfim (sim, leva o mesmo nome da rua) com uma "roupagem" bem típica daqueles edifícios requintados de Copacabana dos anos de 1950. No entanto, as janelas principais, que dispunham de venezianas brancas, foram praticamente todas substituídas por modelos similares aos de acrílico, restando às charmosas venezianas sua aparição apenas nas ventanas coadjuvantes.

Edificio Conde de Bonfim, no 152 da rua
Enquanto isso, no outro lado da Conde de Bonfim, no número 544 (nas proximidades da Rua José Higino), o Edifício Tijuca, situado numa espécie de vila particular, reluz com um portão bonito de madeira cujo puxador de ferro foi todo trabalhado em linhas retas douradas, diferindo-se levemente da portaria do Edifício Cibrasil, na Rua Professor Lafayette Côrtes, meu preferido desde sempre! Este, apesar do tom flavescente igual ao do Edifício Tijuca, foi todo talhado em ondas que lembram bigodes ou rococós. Aliás, tais rococós aparecem novamente no topo da sua portaria, onde figura um trabalho bem bonito deste tipo de ornamentação e todo preenchido por azulejos floridos (já falei sobre esse edifício em março, relembre aqui).

Na Muda, o Edificio Marinezilda da Rua Doutor Otávio Kelly é um desses prédios que devem ter sido angelicais nos seus tempos áureos, mas que hoje carecem de um cuidado maior. Suas características principais foram preservadas, muito embora o estado decadente seja o que mais nos salta aos olhos. Há outros edifícios "gêmeos" ao Marinezilda que estão igualmente na mesma situação, na mesma rua. De todo modo, continua sendo um prédio simpático e em localização nobre, nas redondezas da Praça Xavier de Brito, a praça dos cavalinhos.

Por fim, logo no início da Avenida Edson Passos, o fabuloso Edifício Marapendi não só embeleza a subida do Alto da Boa Vista, bem como deixa muitos passageiros dos ônibus que vão para a Barra ligeiramente encantados com o seu porte! Situado junto à esquina da Rua Doutor Catrambi, o Marapendi possui uma entrada monumental cheia de motivos artísticos, um jardim vertical, pilotis e uma faixa de azulejos que não chega a revestir toda a sua fachada impecavelmente alva.

O estilo bastante fidalgo do Edifício Cibrasil, que se parece a um castelinho

O requinte da entrada do Edifício Tijuca, na Rua Conde de Bonfim 544

Na Muda, o Edifício Marinezilda apresenta aspectos mais vetustos, mas sem muitas descaracterizações

O Edifício Marapendi, por sua vez, reluz com a sua branquidão na subida do Alto

Este post reuniu apenas alguns poucos exemplos da arquitetura clássica tijucana. Por isso, essa é a parte I da série de edifícios residenciais. É preciso também mostrar as casas, igrejas, escolas, sobrados, et cetera. Lembro que a ideia de clássico, neste contexto, remete a todo estilo praticado até os anos 1960. Aguardem, pois certamente, após dessas publicações (e desses achados!), suas andanças pela Tijuca serão vistas por outros olhos.

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