5 de ago de 2014

A dicotomia zona norte versus zona sul

Em "A invenção da zona sul e a construção de um novo processo de segregação espacial no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX", artigo da geógrafa Elisabeth Dezouzart Cardoso, vinculada ao IBGE, há o destaque parcial de uma crônica datada de 1953 sobre os marcantes estilo de vida entre a zona sul e a zona norte carioca. É interessante observar aí como a identidade da Tijuca, tida como bairro provinciano, pacato e meio conservador, se contrapunha ao perfil cosmopolita e "moderninho" emanado pela Zona Sul desde a "invenção" de Copacabana, no início do século XX.

Nos anos 1960, a "Rainha" da Tijuca representava
a mulher-padrão da conservadora Tijuca
 “Nos dois mundos antagônicos do Rio se forjaram dois estilos de vida totalmente diversos. Aqui não falamos, é claro, de meio termo, mas do que são, caracteristicamente, a ‘zona sul’ e a ‘zona norte’. A zona sul, que começa propriamente no Flamengo, é a civilização do apartamento, e das praias maliciosas, do traje e dos hábitos esportivos, da ‘boite’e do pecado à meia-luz, dos enredos grã-finos, do ‘pif-paf’ de família, dos bonitões de músculos à mostra e dos suculentos brotinhos queimados de sol, dos conquistadores de alto coturno e de certas damas habitualmente conquistáveis, do ‘short’, do blusão e do ‘slack’, dos hotéis de luxo (e de outros de má reputação) e dos turistas ensolarados. O Rio cosmopolita está na zona sul, onde uma centena de nacionalidades se tropicalizam à beira das praias.
A zona norte é Brasil 100%. A gente mora largamente em casa (muitas vezes com quintal) e a casa impõe um sistema diferente de vida, patriarcal, conservador. Vizinhança tagarela e prestativa. Garotos brincando na calçada. Reuniões cordiais na sala de visitas. Solteironas ociosas e mocinhas sentimentais analizando a vida que passa debaixo das janelas. Namoro no portão, amor sob controle- para casar. Festinhas familiares, de fraca dosagem alcoólica. A permanente compostura no traje, ajustada com o do procedimento. Paletó e gravata. Mais ‘toilette’ que vestidos, mais área coberta nos corpos femininos. Vida mais barata. Empregada de 300 réis. Menos, água, mais calor. Diversão pouca, nada de ‘boite’ e ‘night-clubs’. Noite vazia de pecados e de passos boêmios e sortilégios. Vida menos agradável aos homens, mais abençoada pelos santos. Zona sul- zona norte, paraíso e purgatório do Rio. Sair do purgatório e ganhar o paraíso é aspiração de quase todos, mas há quem prefira, sinceramente, a vida simples e provinciana dos bairros e subúrbios do norte. Para muitos a zona sul não é o paraíso, mas o inferno da perdição, onde Copacabana dita a imoralidade, o aviltamento dos costumes, a frivolidade e a boemia”.
GOMES, Pedro. "Dois mundos opostos do Rio". Revista O Cruzeiro, 3/01/1953. 

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