10 de ago de 2014

E viva a boemia tijucana! (2) - de volta à 1985

A publicação anterior "E viva a boemia tijucana!" (10/08/2014) poderia ser muito bem correlacionada com reportagem veiculada no jornal O Globo há 29 anos, em 18/07/1985, com o título "Zona Sul? Já era. A noite tijucana é o maior barato". A matéria assinada por Marisa Castellani chama a atenção pelo longo texto (algo que difere demais do padrão editorial atual) e pelos detalhes dos lugares que eram verdadeiros points da região antigamente. Muitos dos locais citados já não existem mais, com exceção do Só Kana. Leia na íntegra:

Reprodução: Acervo O Globo.
O Globo, 18/07/1985. 
Zona Sul? Já era. A noite tijucana é o maior barato
Por Marisa Castellani
O que faria um jovem tijucano, uns quatro anos atrás, para curtir uma noite de sexta-feira na desagradável contingência de ter pouca "grana" e - oh, terrível desgraça - sem carro disponível para suas andanças? Na Tijuca as alternativas eram poucas: no máximo, uma ida de ônibus ao Alto da Boa Vista tomar uns chopinhos na Praça Afonso Viseu. Se nem isso fosse possível e estivessem definitivamente frustradas todas as caronas para a Zona Sul, o jeito era ir ao cinema ou procurar algum filme interessante na televisão. Ou, quem sabe, jogar baralhos com amigos em situação semelhante. Mau começo para um fim de semana.  
As coisas estão diferentes hoje em dia. A "noite tijucana" já é movimentada e, para muitos jovens, fica pouco a dever para os programas noturnos da Zona Sul. Os bares, a dacenteria Mamute, o pub Robin Hood, o tradicional barzinho do Alto e outros pontos que a juventude elege para se encontrar são alternativas das mais interessantes para se divertir num bom fim de semana. Com a vantagem da economia de gasolina. Se você convidar um amigo para dar umas voltas nos bares da Zona Sul pode até se arriscar a ouvir um "tá louco? Me despencar para lá à toa? Vamos ali no Off-Shopping que a gente logo descola um programa".
Sem falar na Discoteca Help, em Copacabana - essa ainda conserva seu prestígio junto à juventude tijucana -, muitas das outras atrações da Zona Sul estão perdendo o brilho de atração para quem mora por aqui. A Mamão com Açúcar, por exemplo, entrou em fase de "baixo astral", depois da morte da menina Mônica Granuzzo. Hoje ela é "out", até mesmo porque fechou. Melhor ficar na Tijuca onde ainda não "pintaram" essas confusões, defendem alguns jovens. 
Se você duvidar disso, certamente vai se surpreender ao encontrar o jovem tijucano Aloisio Pinto, 21 anos, acompanhado de dois primos que moram em Copacabana numa sexta à noite no Robin Hood. Os primos acham o pub "um barato" e vão lá muitas vezes. Igual sensação de surpresa você pode ter se encontrar Marcela de Paula Chaves dos Santos, 15 anos, e moradora da Gávea, com um grupo de amigos num bar da Tijuca. Ela diz que os bares da Tijuca "são bem mais baratos do que os da Zona Sul".

Para início de conversa, Off-shopping 
O roteiro para uma noite na Tijuca pode começar nos bares do Off-Shopping, perto da Praça Saens Peña. A turma se reúne lá para fazer hora, "azarar", jogar conversa fora e até planejar um programa para o resto da noite. Por volta das oito da noite, já tem gente por ali batendo papo. E também o lugar onde se encontram os "duros", que mesmo com a mesada curtinha na época, querem arranjar um jeito de se divertir. E conseguem.
Se estiver agradável, o papo em frente à pizzaria "Ed & Max" pode se prolongar por toda noite e já consistir no programa de sexta-feira. Dali, quem quiser por ir à Mamute, ao Robin Hood ou ao barzinho do Alto, dependendo só da vontade. Sim, porque carona sempre acaba aparecendo, nos muitos grupos de jovens que frequentam o Off. 
- Tenho 35 "barões" e eles têm que durar até domingo. Vim para cá porque não estava a fim de ficar em casa; de repente dá para "azarar" uma gatinha. Houve uma época que eu vinha para cá todo o fim de semana, foram oito meses seguidos - diz Carlos Henrique de Souza Gomes, 17 anos. 
Márcio Luiz Neves, 17 anos e Luiz de Souza Neto, de 18, acham que na Zona Sul tem um número maior de barzinhos como aquele, mas afirma que s"se o cara não tiver carro, se arruma bem pra caramba por aqui". Nas mesinhas em frente ao Ed & Max, uma blusa colocada dentro de um saco plástico pode se transformar numa bola de vôlei como num passe de mágica. O jogo por cima das mesas, acompanhado de gargalhadas, é uma das maneiras dos jovens brincarem. 
- A brincadeira já animou a gente. Agora só falta uma carona legal - diz Andréia Teixeira, 16 anos, em meio a muitas risadas.
- Serve no meu carro? - oferece um amigo. - Tá sem freio, com pouco álcool e eu tô duro.
A carona é recusada, claro. Mas a brincadeira continua e o grupo decide ficar por ali mesmo, em vez de ir para outro lugar. Os jovens só lamentam que dois outros bares tenham fechado no Off-Shopping, o "Pank's" e o "Batida de Frente".
- Há um ano isso aqui lotava mesmo. Agora perdeu um pouco o pique. O Ed & Max já promoveu até um show de rock na porta para levantar o lugar. Mas a coisa vai melhorar quando os outros dois bares reabrirem - diz Edson Lopes, 24 anos.
Gonçalo Xavier, o Guto, de 19 anos, é quem resume o espírito da moçada do Off-Shopping:
- Tudo é muito tranquilo. Quase ninguém vai para a Zona Sul, a não ser se for um programa especial, uma boate, por exemplo. Se alguém convidar para ir a barzinho por lá, o cara vai pensar que é maluquice. Agora, uma boa é comprar batida no Só-Kana e depois ir para a praia da Barra da Tijuca. Essa é uma grande turma, uma rapaziada bem legal.


Robin Hood: o rock que vem do Alto 
Os caminhos do Alto da Boa Vista levam a dois lugares diferentes em termos de programação noturna: um é o tradicional barzinho na Praça Afonso Viseu e outro é o pub Robin Hood, quase em frente à pracinha.
O barzinho, desde a gravação da novela "O Primeiro Amor", em 1972, é ponto de encontro da juventude. Faça calor ou faça frio. Agora, por exemplo, em vez de gente com roupas de praia e chope geladinho aproveitando a temperatura amena do Alto, você vê pessoas encasacadas, gorros de lã na cabeça e uma boa caneca de vinho nas mãos. Mas sempre no barzinho.
- É um lugar gostoso, perto da natureza. Tem pessoas bonitas sempre circulando - diz Leonel Chabloz, acompanhado de Mônica dos Santos Carvalho e mais dois amigos.
Se lá fora faz frio, no "underground" do Robin Hood - lugar onde a rapaziada mergulha no som - a temperatura é altíssima, com a música comandada pelos discotecários Maurício Rocha e Alexandre Leite. Muito rock, repertório das FMs. Do lado nacional, dá Paralamas, Ultraje a Rigor, Legião Urbana etc. Do internacional, B-52, U-2 e grupos de fama semelhante. Mas como os discotecários querem ampliar o padrão do repertório e até se antecipar às FMs, entram também novos grupos e novas bandas, como "The Smiths" e "The Cure".
A turma se espalha no underground nos dois salões com bar, na pizzaria, nos jogos eletrônicos e numa ruazinha inglesa que a casa projetou nos fundos. Não falta nem o saxofonista solitário embalando o namoro dos casais. Mas quem define melhor a frequência da casa e comportamento dos jovens é a relações públicas Andrea Bravo: 
- A Tijuca tem dois tipos de jovens: um mais conservador, que tem orgulho do bairro e vai a todos os lugares novos que abrem por aqui e outro mais "tipo Zona Sul". Esse só dorme na Tijuca. Trabalha, estuda e frequenta a Zona Sul. De noite, vai com seu Scort preto para os bares de lá, abre a porta do carro, põe o som no último volume e faz pose para as gatinhas. Mas todo mundo sabe que ele é tijucano. Ele não tem a malícia característica de Zona Sul - descreve.
Quem frequenta o pub do Alto, segundo Andrea, é o tijucano que tem turmas no bairro, não tem qualquer "problema psicológico" em morar na Tijuca e quer se encontrar com amigos. Essa, resumidamente, é a filosofia do Robin Hood: ser um ponto de encontro, onde as pessoas conversem, joguem dardos, tomem cerveja, dancem, bem de acordo com a filosofia dos pubs de Londres. Até lançamento de livro, de disco e formaturas tem por lá e o tradicional "chá das cinco" estão programados para breve.
A recepcionista Telma Prates, 20 anos, confirma o resultado desta filosofia:
- Tem turmas que pintam aqui em todos os fins de semana. Conheço quase todas as caras - diz ela.

Mamute: cada dia um grito bem diferente
A Danceteria Mamute é, sem dúvida, uma das principais opções para um programa à noite no fim de semana. O pique é depois das 23h, a não ser aos domingos, quando a matinê vai das 17h às 22h. Acostumado com o público que frequenta a casa, Milton Lucena, o relações-públicas de lá, diz que sexta, sábado e domingo são dias com características diferentes e faixa de frequentadores bem definida.
- Sexta-feira é dia da turma de 25 anos, que sai da faculdade, do trabalho, toma um chopinho com os amigos, vai para casa se arrumar e chega aqui tarde. Daí que o nosso show só começa por volta de uma hora, uma e meia da manhã. Eles gostam de new wave e rock convencional. No sábado é outro público, mais novo, com idade entre 18 e 20 anos. A turma é bem mais exigente, são ouvintes de FM, conhecem todos os lançamentos musicais. Eles querem Paralamas, Ultraje a Rigor, Léo Jaime e todos os que tocam oito ou nove vezes por dia nas rádios. O show tem que começar na hora, uma da manhã certinho. Senão o pessoal que se arrumou todo vai encrencar por estar cansado na hora do show - descreve ele.
Nos domingos, dia de matinê, o show começa às 19h e o artista ou o grupo musical é o mesmo que se apresentou para os adultos. A faixa etária desce bastante, em torno dos 12 anos. Mas a animação não cai. Muito pelo contrário, são os que mais vibram com a música, o entusiasmo regado a coca-cola e a pizza. Papais, mamães, titias e vovós acompanham a turma e ficam nas mesas saboreando petiscos, enquanto a garotada dança. Todo mundo arrumadinho, no rigor da moda. Nas sextas e sábados, com show, o preço único é Cr$ 15 mil. Aos domingos, a mesada da turminha fica mais pobre em Cr$ 10 mil, se o pai não bancar "a noite".
O discotecário Dico, à frente de toda a parafernália de som montada pela Mamute e considerada uma das melhores da cidade, também tem observações interessantes a fazer sobre o comportamento dos jovens que vão curtir uma noite ali:
- O melhor espírito é o domingo. São as turmas mais abertas. Ninguém fica com vergonha de subir aqui e pedir música. Pedem mesmo, na maior e conversam com a gente. Os outros devem se achar "muito adultos" para isso e acabam participando menos - diz ele.
Os jovens frequentadores da Mamute preferem as músicas brasileiras e os grupos de rock da onda, de acordo com Dico. Música estrangeira sai pouco e, mesmo assim, dos grupos que tocam nas FMs, como B-52 e U-2. Os tradicionais Jimmy Hendrix e Janis Joplin nunca são pedidos. Passaram.
Na Mamute você pode encontrar desde o frequentador habitual, do tipo que "bate-ponto" todos os fins de semana, até gente que mora na Zona Sul e vem dar uma "curtida". Ou a mistura dos dois:
- Tô sempre aqui na Mamute, sexta, sábado e domingo - afirma Rogério Machado Moraes, 19 anos, morador do Leblon.

2 comentários:

Anônimo disse...

daria a todo meu futuro pra curtir mais uma noite no robbin hood pub e meio ambiente li o texto escutando The Clash - Guns Of Brixton

Anônimo disse...

a minha formatura do científico no final dos anos 80 foi na robin hood,que depois virou meio ambiente....viviamos sempre la,mas ai ocorreu o acidente que o 233 passou por cima e matou umas 9 pessoas senao me engano.morreram varios alunos do guanabara,alias acho que todos eram do guanabara.foi um terror.uma das meninas era da turma da namorada do meu irmao na epoca,só tinha 15 anos(obvio,que estava la com carteira de identidade falsa)...e depois do acidente,o meio ambiente fechou,pq os pais nao deixavam mais ninguém subir o alto e na tijuca é aquilo,o que um faz,o outro segue...kkkkkkkkkk

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