16 de set de 2014

A história do túnel entre a Rua Uruguai e o bairro da Gávea

O urbanista grego Constantino Doxiadis foi o fundamentador do Túnel da Rua Uruguai (Fonte: Arquivo O Globo, 1965)

Se você perguntar para algum morador do Jardim Botânico ou da Gávea se ele conhece a história do Túnel da Rua Uruguai, que conectaria a Tijuca a esse trecho da Zona Sul em instantes, muitos balançarão negativamente a cabeça. Outros vão até mesmo perguntar "onde fica essa tal de Rua Uruguai?!". Por outro lado, basta papear com qualquer tijucano típico, daqueles bem bairristas, que ele começará a falar entusiasticamente sobre esse projeto nos mínimos detalhes. Ao mesmo tempo, com um certo ar de lamentação, vai suspirar pelo fato do dito-cujo até hoje não ter saído do papel.

O chamado túnel da Rua Uruguai remete à gestão do governador Carlos Lacerda, nos anos de 1960, que contratou a equipe do urbanista grego Constantino Doxiadis para reformular toda a estrutura rodoviária da cidade. O Plano Doxiadis, como ficou conhecido, sugeriu a criação de seis vias expressas que integrariam grande parte da malha viária "guanabarense", todas estas batizadas com nomes de cores: Vermelha, Azul, Marrom, Verde, Amarela e Lilás. As linhas Vermelha e Amarela, como bem se sabe, foram implementadas nos anos de 1990. As outras não tiveram a mesma sorte ou foram executadas apenas parcialmente.

É o caso da Linha Verde, que prometia ligar a Rodovia Presidente Dutra à Gávea, "rasgando" uma grande parte do subúrbio carioca, até chegar à Vila Isabel e Tijuca e, por fim, à Gávea, através do Túnel da Rua Uruguai. É interessante notar que alguns trechos da Linha Verde ganharam forma e hoje fazem parte da malha viária da cidade. Um exemplo é a Avenida Pastor Martin Luther King (antiga Automóvel Clube) e o Túnel Noel Rosa, logradouros que fariam parte do traçado da Linha Verde.

Apesar disso, o verdadeiro filé mignon da Linha Verde, que seria esse túnel entre a Tijuca e a Gávea, parece não ter tido força econômica suficiente para ser efetivado. Há muitas hipóteses para isso: a mais lógica delas é que o Estado, naquele momento, não tinha dinheiro suficiente para criar um eixo viário de tal magnitude. Em primeiro lugar, porque o Túnel Rebouças, aberto ao lado da Tijuca em 1967, tomou muito tempo de obras e de verbas. Em segundo lugar, porque o Túnel da Rua Uruguai requereria a desapropriação de imóveis nas duas vertentes mais valorizadas da montanha: Jardim Botânico e Gávea, na sul, e o alto da Rua Uruguai, na norte, sendo este trecho considerado até hoje o mais nobre da Tijuca.

Mesmo sendo uma obra custosa, colossal, mas inteligente do ponto de vista geográfico, a integração da Tijuca com a Zona Sul também era motivada por uma necessidade de se encurtar as distâncias entre o que eram as duas maiores concentrações de alta renda do Rio em meados do século XX. Vale lembrar que intervenções segregacionistas costumam ser muito comuns entre áreas socioeconomicamente distintas (vide a remoção das favelas na Zona Sul por Lacerda), embora perceba-se, em contrapartida, que intervenções "integracionistas", isto é, entre regiões com grande concentração de renda, eram - e ainda costumam ser - de muito interesse, ocorrendo sempre que possível. Neste sentido, a construção de um túnel interligando a Tijuca à Gávea tinha motivações especialmente políticas, as mesmas que forçaram a integração da Barra da Tijuca à Zona Sul via metrô. Um outro exemplo rápido e ilustrativo a esse argumento, no passado, foi a junção da Grande Tijuca à Zona Sul no mapa funcional do Plano Diretor do Rio de Janeiro, que a definiu como um único território de planejamento (Área de Planejamento 2).

No início dos anos de 1980, o Governo do Estado desengavetou o projeto do Túnel da Rua Uruguai, mas transformando-o num túnel metroviário. Com a inauguração das estações tijucanas do metrô em 1982, a ideia era levá-lo da Praça Saenz Peña até a Rua Uruguai e, de lá, à Praça Antero de Quental, no Leblon. A estação da Rua Uruguai seria construída no espaço do então Colégio Batista Brasileiro, hoje ocupado pela Universidade Cândido Mendes, na Muda.

Segundo reportagem de O Globo de 22 de junho de 1982, intitulada  "Tome o metrô na Tijuca e vá tomar um chopinho no Leblon", o repórter Dênis de Moraes afirma que essa expansão daria forma ao "eixo básico" do metrô; no caso, a ligação em reta entre as duas regiões geograficamente muito próximas, mas separadas por uma montanha. Mesmo prevendo poucas desapropriações por ser um túnel subterrâneo - o que supostamente tornaria as obras mais baratas -, a Companhia Metropolitana tinha uma dívida externa que girava em torno de US$ 1 bilhão, o que possivelmente dificultaria a execução do projeto. A promessa era de que em 1985 o Leblon já tivesse uma conexão direta com a Tijuca e vice-versa.

Uma década depois, o túnel metroviário voltou a ser pauta do governo, mas com outro enfoque: a ligação não apenas da Tijuca com a Gávea, mas igualmente daquela com a Barra. A proposta, cuja defesa teve início em 1995 pela Câmara Comunitária da Barra, tinha o nome de "Barra Metrô 2000". Desta vez, não estava prevista uma passagem pelo Leblon, mas sim pelo Jardim Oceânico, São Conrado, Gávea e, finalmente, Uruguai. O Globo-Zona Sul de 07 de maio de 1998 alegou que o governo estadual dependia do apoio da iniciativa privada para isso e que tal demanda era uma reivindicação dos próprios moradores da Barra.

O ex-prefeito Cesar Maia cogitou a ideia de se fazer o túnel metroviário, mas não levou adiante a proposta

No final de 2000, Cesar Maia, quem voltaria a ser prefeito em 2001, rediscutiu a ideia de se construir o Túnel da Rua Uruguai mesmo que este não fosse um tema da sua alçada, já que o metrô sempre se referiu ao Estado. Em O Globo de 16 de novembro de 2000, o então futuro alcaide se comprometeu a sugerir uma parceria com a concessionária Opportrans, sob financiamento do BNDES, para a construção do túnel. Luiz Paulo Corrêa da Rocha, nomeado Secretário Municipal de Transportes na gestão de Cesar Maia, alegou na ocasião que este "era o trajeto mais simples, porque é uma linha reta. Além disso, 90% da ligação são formados por rocha, o que facilita a obra e diminui o problema das desapropriações".

Desde então, nunca mais se comentou oficialmente sobre o Túnel da Rua Uruguai, fazendo da discussão em torno do anel metroviário um tópico cada vez mais restrito aos fóruns de internet. Nem os protestos recentes de associações de moradores contra a Linha Quatro do metrô, na Zona Sul, foram capazes de defender o Túnel da Rua Uruguai como uma das primordiais medidas para se melhorar a eficiência do metrô e o deslocamento eficiente entre as duas regiões. Esses grupos falam de mil e uma alternativas para o metrô, mas parecem não ser tão entusiastas do projeto talvez por questões "segregacionistas", suponho, já que a força econômica e política da Tijuca foi consideravelmente transferida para a Barra da Tijuca ao longo dos últimos 20 anos.

Por fim, esta é a história do Túnel da Rua Uruguai, primeiramente caracterizado como uma via expressa para automóveis e, posteriormente, como uma linha de metrô. Os mais otimistas dirão que será possível sair da Gávea e chegar à Tijuca em poucos minutos na próxima década. Entretanto, diante de tantos interesses contrários a se fazer um metrô sério no Rio, cabe aos ativistas continuarem lutando pela sua implantação, e, aos mais resignados, esperar sentado.

Um comentário:

Andrés Esteban de la Plaza disse...

Excelente matéria! Infelizmente a incompetência dos sucessivos (des)governos levaram a não concretização desta importante obra! É triste pensar que esta ideia tem já mais de 50 anos. E notar também que mesmo com todos os erros, as administrações do prefeito César Maia (3 vezes prefeito), além de reformular a cidade com o Rio Cidade, o Favela Bairro e a Linha Amarela, foram as que recolocaram à iniciativa deste túnel!

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