5 de set de 2014

Das fábricas aos decadentes hipermercados: uma retrospectiva

O extinto Walmart da Tijuca, na Rua Almirante Cochrane, junto à Pedra da Babilônia: antigo Complexo Industrial da Brahma. (Créditos: Fernando Stankuns)

Um bairro de feições industriais, mas que acabou se entregando por completo ao terceiro setor: assim tornou-se a Tijuca a partir dos anos 1990, quando algumas de suas tradicionais fábricas foram fechando pouco a pouco até pulularem, em seus antigos espaços, grandes templos de consumo como os hipermercados. Em meio à recessão e às políticas neoliberais, a moda, nessa década, era consumir tal como se fazia na Barra da Tijuca, bairro importador de modelos comerciais estrangeiros para toda a cidade, sobretudo naqueles com terrenos disponíveis para a construção de colossais centros de compra.

Um dos primeiros a surgir por aqui foi o Carrefour, em julho de 1997, no antigo terreno da Fábrica Souza Cruz, que foi fechada em 1992 na Usina. Com investimento de R$ 15 milhões, a multinacional francesa inaugurou sua décima-primeira loja no Brasil justo na Rua Conde de Bonfim, causando certo frisson entre os tijucanos diante de tão modernoso hipermercado logo aqui no nosso “quintal”. Tal sinônimo de modernidade e sofisticação consistia na presença de outros tipos de lojas lá dentro, como cafeterias e lanchonetes, por exemplo, algo sem dúvida inovador na época.

Já na Avenida Maracanã com a Rua José Higino, havia a Companhia Cervejaria Hanseática, que tornou-se posteriormente na Fábrica da Brahma. Suas atividades foram encerradas no ano de 1992, no mesmo ano em que a Souza Cruz retirou-se da Usina. Segundo O Globo, durante a recessão daquele ano, embora a empresa pudesse continuar fabricando 17 milhões de litros de cerveja por mês, engarrafava apenas 8 milhões! Foram mais de 400 demissões, ao todo. Desde então, o terreno de aproximadamente 52 mil metros quadrados ficou abandonado e cheio de escombros, até que em 1999 o grupo Pão de Açúcar tornou-se proprietária dali para erguer, no ano 2000, o Extra Maracanã, hipermercado no mesmo molde do Carrefour: bastante imponente, grandioso e com o diferencial de funcionar 24 horas!

Companhia Hanseática Cervejaria, na Rua José Higino 115: registro de Augusto Malta.

O Extra ficou por muito tempo conhecido como um supermercado tijucano já que muitas das suas filiais localizavam-se na Grande Tijuca: Extra Mariz e Barros, onde era o antigo Superbox, e o Extra Boulevard, onde funcionava o Paes Mendonça de Vila Isabel e, claro, a antiga Fábrica de Tecidos Confiança. A alcunha tijucana também lhe era muito comum por ter sido um dos estabelecimentos comerciais precursores em expor fotos antigas do bairro em seus vastos corredores.

Tal prática de estímulo à memória cultural da região se alastrou por restaurantes, lojas, cafés, drogarias e até mesmo por outros hipermercados, como o estadunidense Walmart, que mesmo sem relação íntima alguma com a Tijuca, sabe-se bem que fez de tudo para angariar a simpatia dos tijucanos. Inaugurado no segundo semestre de 2007 no antigo Complexo Industrial da Brahma da Rua Almirante Cochrane 146, o Walmart era mais bem visto como um local capaz de dar maior sensação de segurança pública ao seu lúgubre entorno do que propriamente uma opção de onde-se-fazer-compras. Resultado: suas dependências, sempre vazias, foram fechadas ao público em outubro de 2013.

O caso do Carrefour: planos que nunca saíram do papel  

Carrefour da Usina
O fechamento do Walmart, no entanto, não foi pioneiro. Em abril de 2005, o Carrefour deu seus últimos suspiros na Usina. Diz-se que uma das grandes razões do seu insucesso tenha sido a instável segurança pública da época, que culminava em eventos muito frequentes de tiroteios dada a sua proximidade com a favela do Borel, Casa Branca e Indiana. Além disso, parece que assaltos e saques ao Carrefour eram também muito comuns, o que afugentava os fregueses.

Quem passa hoje pela Conde de Bonfim, indo ou vindo do Alto, depara com o espectro de um gigantesco hipermercado cujas vidraças já não existem, e de onde, inclusive, surgiram galhos e plantas entre as fissuras das antigas esteiras rolantes. Ainda é possível ver um ou outro cartaz indicando as promoções do dia, mas quase ilegíveis pelos seus tons amarelados.

Ideias para o local sempre foram muito recorrentes. Em agosto de 2009, o então secretário municipal de habitação Jorge Bittar apresentou a proposta de se construir ali um conjunto habitacional que serviria de residência para os moradores da Favela Indiana, permitindo, deste modo, que tal assentamento pudesse ser removido da Rua São Miguel.

A proposta foi vista com grande polêmica e alarde por muitos moradores, que temiam ter seus imóveis desvalorizados com a possível degradação do local sob o argumento de que "as políticas públicas atuais nem sempre são contínuas e capazes de manter algo daquele porte". Por fim, a última notícia que se teve é que o ex-Carrefour foi comprado em 2010 pela BVA Empreendimentos, que, em sociedade anônima, atua nos segmentos bancário, imobiliário e de energia.

Extra Maracanã: futuro Shopping Conviva Maracanã

Extra Maracanã: erguido junto à antiga Fábrica da Brahma, em 2000.
Fonte: Um coração suburbano
Se por um lado o Carrefour e o Walmart não resistiram à crise, o Extra Maracanã, por sua vez, continua suportando o tempo de vacas magras sem economizar nos sinais de decadência. No ano 2000, quando foi inaugurado, seu espaçoso ambiente era sinônimo de modernidade e conforto. Hoje, quem o frequenta percebe claramente que o número abundante de caixas registradoras é over, enquanto a seção de CDs, DVDs e livros parece ser quase inútil em tempos tão digitais. Na fachada, o letreiro está amarelado e com algumas pichações. Cenário similar é o da filial-irmã na Rua Mariz e Barros, que clama por reforma.

No entanto, a localização nobre - junto à Rua José Higino - tem sido vista como ponto estratégico para a GPA Malls, que anunciou a futura instalação do Conviva Maracanã ali, algo que eles chamam de shopping de vizinhança, definido como uma "alternativa de espaço comercial para lojistas, com a praticidade e segurança dos grandes shopping centers e o despojamento do comércio de rua". O projeto foi conceituado a partir de pesquisas qualitativas sobre o comportamento dos consumidores da região da Tijuca objetivando oferecer um mix de lojas inteligente que atenda à comunidade local.

Ainda não se sabe, porém, se o Conviva Maracanã transformará o Extra em Pão de Açúcar, como aconteceu com o antigo Freeway da Avenida das Américas, na Barra, o primeiro "Conviva" carioca. Em suma, a ideia do shopping de vizinhança é a criação de um pequeno centro comercial que reúna uma série de lojas de apelo doméstico e gastronômico, além de pet shops e academias de ginástica. Resta saber se manterão o Centro Coreográfico do Rio de Janeiro no local.

Um destino para o Walmart?

No final de 2013, assim que o Walmart encerrou suas atividades na Almirante Cochrane, capitaneei um movimento a favor da transformação deste terreno em um complexo cultural e de entretenimento (nosso abaixo-assinado: http://goo.gl/pauWcK). A ligeira repercussão causou-me uma nota jornalística no O GLOBO-Tijuca de 19 de dezembro de 2013. Na época, a multinacional estadunidense afirmou que já estava em fase de negociações com outras empresas interessadas no local. Suspeitava-se que ali se converteria numa Leroy Merlin, algo que definitivamente, pelo menos até agora, não saiu do papel. E hoje, quem passa pela Almirante Cochrane, consegue prever que o extinto Walmart está fadado à mesma alcunha do já comentado Carrefour: a de um verdadeiro elefante branco na Tijuca.

Material consultado:

ARAÚJO, Ledice. Carrefour vai inaugurar filial na Tijuca semana que vem: empresa pretende investir R$ 300 mihões ainda este ano. Economia. O Globo, 1 jul. 1997, p. 26.

KOPSCHITZ, Isabel. Prédio do Carrefour é vendido. O Globo-Tijuca. O Globo, 23 set. 2010, p. 2.

MASCARENHAS, Gabriel. Loja do Carrefour nos planos da prefeitura. O Globo-Tijuca. O Globo, 13 ago. 2009, p. 2.

SANTOS, Ana Cecilia. Dança renasce nos escombros: o centro coreográfico criado pela Prefeitura ocupará ruínas da Brahma. O Globo - Tijuca. O Globo, 21 jan 1999, p. 8.

2 comentários:

saulo disse...

O fechamento do Carrefour foi exclusivamente por conta da violência. Esse fantasma que teve o auge nos anos 90 na Tijuca.

Sansil disse...

O Walmart deu lugar, em março de 2016 a mais uma filial do Guanabara.

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