31 de out de 2014

Os nomes originais (ou antigos) de ruas da Praça da Bandeira, Tijuca e Alto

Avenida Edson Passos, na subida para o Alto da Boa Vista: até os anos 1950 era chamada de Avenida Tijuca

Você sabia que a Praça Afonso Pena (que, na verdade, se chama Castilhos França), até 1931, tinha o nome de Praça do Hipódromo Nacional? Ou que a Rua Marquês de Valença, originalmente, se chamava Rua Almirante Barroso, tal qual a avenida do Centro da cidade? E a Praça Comandante Xavier de Brito, a nossa praça dos cavalinhos, veja só, já foi conhecida até os anos 1930 como Praça Washington Luiz!

Essas e muitas outras curiosidades sobre nomes originais de ruas eu consegui no livro As Ruas do Rio, lançado pela Prefeitura do Rio de Janeiro em 1977. O material é de autoria da Secretaria Municipal de Obras e Serviços Públicos (Departamento Geral de Edificações) cuja publicação se deu em dois grossos volumes, apresentando informações técnicas de todas as ruas do município separadas por região administrativa. Nesta obra, a lista de ruas e seus nomes originais compreende apenas os decretos de criação publicados de 1917 até 1977.

A tal enciclopédia da Prefeitura, de 1977
Separei uma lista de ruas que foram renomeadas pela Prefeitura durante o período mencionado (veja abaixo). Dessa amostra, vale mencionar que, em geral, as ruas tinham nomes com referências indígenas além de uma ou outra ser designada como Rua "A" ou "B" (suprimi a maioria desses casos, para não ficar enfadonho), dando a entender que eram títulos meramente oriundos dos projetos de engenharia e urbanismo cujos logradouros derivaram. Outra curiosidade é que tanto a Rua Engenheiro Cavalcanti, na Muda, como a Rua João da Mata, pequena ruela residencial na Avenida Maracanã, eram chamadas até os anos de 1930 de Rua Coati! Paralelo a isso, ruas estreitas ou pequeninas junto a ruas de maior porte eram normalmente denominadas como travessas que levavam o mesmo nome da rua vizinha. Por exemplo: a simpática Rua Benevenuto Berna (nos arredores da São Francisco Xavier) era conhecida como Travessa Lúcio de Mendonça por ser transversal à Rua Lúcio de Mendonça. Atualmente, ainda existem casos parecidos, como o da Rua José Higino e a sua Travessa José Higino. Vale lembrar que a obra de Lili Rose e Nelson Aguiar, Tijuca: de rua em rua (Editora Rio, 2004), também é um ótimo material de pesquisa.

Vejamos, então, o que extraí desta enciclopédia da Prefeitura. O ano em parênteses se refere à publicação do decreto que oficializou a rua, e, em colchetes, a localização específica da mesma, para aquelas não tão conhecidas:

Rua Adolfo Mota (1925) [rua do Hospital Prontobaby]: antiga Travessa Edite.
Rua Almirante Cochrane (1922): antigo prolongamento da Rua Mariz e Barros.
Rua Amado Nervo (1946) [próxima à Praça Afonso Viseu, no Alto]: antiga Travessa da Boa Vista.
Rua Ângelo Agostini (1929) [entre a Bom Pastor e Henrique Fleiuss]: antiga Rua "A".
Rua Antônio Rello Filho (1969) [situada no final da Delgado de Carvalho, perto da Barão de Itapagipe]: antiga Rua Professor Vital Brasil.
Rua Basiléia (1966) [transversal à Conde de Bonfim, na Usina]: antiga Rua Canapó.
Rua Benevenuto Berna (1953) [cruza a São Francisco Xavier]: antiga Travessa Lúcio de Mendonça.
Rua Carlos Vasconcelos (1923): antiga Rua Santo Henrique.
Rua Caetano de Campos (1937) [entre a Usina e o Alto]: conhecida por Estrada das Mangueiras.
Rua Carmela Dutra (1947): antiga Rua Piratini.
Praça Castilhos França (1931) [nome oficial da Praça Afonso Pena]: antiga Praça do Hipódromo Nacional.
Rua Clóvis Bevilaqua (1922): antiga Rua Antônio dos Santos.
Praça Comandante Xavier de Brito (1930) [a praça dos cavalinhos!]: antiga Praça Washington Luiz.
Rua Coronel Aristarco Pessoa (1951) [fica na Usina]: antiga Rua Itapira.
Rua Delgado de Carvalho (1917): antiga Rua Industrial.
Rua Deputado Soares Filho (1952): antiga Rua Universidade.
Rua Doutor Aníbal Moreira (1955) [rua vizinha à José Higino]: antiga Rua Jataí.
Rua Doutor Otávio Kelly (1928) [na Muda, margeia a Praça Xavier de Brito]: antiga Rua Trinta de Abril.
Avenida Edson Passos (1954) [a avenida que sobe e desce o Alto]: antiga Avenida Tijuca.

Praça Afonso Pena, no início da Tijuca: também já foi chamada de Praça do Hipódromo Nacional

Rua Embaixador Ramon Carcano (1956) [quase na Usina, em frente ao Hospital da Ordem Terceira]: antiga Rua Paratari.
Rua Engenheiro Cavalcanti (1935) [corta a Conde de Bonfim, na Muda]: antiga Rua Coati.
Travessa Frei Rogério (1951) [junto a Rua Pareto]: antiga Travessa Pareto.
Rua General Espírito Santo Cardoso (1953): antiga Rua da Gratidão.
Rua Goulart (1946) [próximo ao Morro do Salgueiro]: antiga Travessa dos Araújos.
Rua Jiquibá (1945) [na Praça da Bandeira]: antiga Travessa Senador Furtado.
Rua João Alfredo (1917) [na Muda]: antiga Rua 28 de Setembro.
Rua João da Mata (1931) [perto da Zé Higino, na Avenida Maracanã]: antiga Rua Coati,
Rua Joaquim Pizarro (1955) [na Barão de Itapagipe, quase Rio Comprido]: antiga Rua Conde Pereira Carneiro.
Rua dos Junquilhos (1947) [próxima ao Morro do Salgueiro]: antes conhecida como Rua do Encanamento.
Rua Livreiro Francisco Alves (1955) [quase na Usina, em frente ao Hospital da Ordem Terceira]: antiga Rua Uaçari.
Rua Mariz e Barros (ano de criação foi 1874, mas o decreto só veio em 1917): antiga Rua Nova do Imperador.
Rua Max Fleiuss (1955) [junto à Rua São Miguel]: antiga Rua Pucuruí.
Avenida Melo Matos (1926): antiga Avenida Onze de Novembro.
Avenida Osvaldo Aranha (1960): antiga Avenida Radial Oeste.
Travessa Padre Damião (1948) [em frente ao TTC]: antes conhecida como Rua Particular.
Rua Padre Elias Gorayeb (1961): antiga Rua Vinte e Quatro de Outubro.
Rua Palmira Gonçalves Maia (1950) [na Muda]: antiga Rua Membi.
Rua Pará (1917) [na Praça da Bandeira]: antiga Rua Santa Luiza.
Rua Pinheiro da Cunha (1949) [na Usina]: antiga Rua Geribatu,
Rua Raimundo Castro Maia (1946) [no Alto da Boa Vista]: antiga Rua Itapuá.
Rua Sabóia Lima (1930): antiga Rua Trapicheiro.

29 de out de 2014

Saguis invadem (e divertem) a Tijuca!

Um sagui se alimenta de banana em muro de residência próxima à Praça Hilda

Não é mais raro para o tijucano se deparar com um sagui travesso no muro de sua residência ou cambaleante pela fiação de sua rua. Embora comumente encontrados em ruas mais arborizadas e próximas da Mata Atlântica, como a Sabóia Lima e aquelas da Usina e do Alto da Boa Vista, os saguis estão presentes inclusive naquelas vias mais urbanas e distantes da encosta! Pertencentes à simpática subfamília de macacos chamada Callitrichinae, eles se espalham pelo bairro e viraram atração momentânea entre crianças e adultos curiosos quando surgem inesperadamente à procura de abrigo ou de comida.

Na Rua Alzira Brandão (veja vídeo abaixo), semana passada, uma família trôpega de saguis parecia estar fugindo de alguma zona de perigo ao percorrer a fiação dos postes de lá. O mais curioso foi ter percebido que na "garupa" de um dos membros saltitantes da trupe havia um filhotinho todo esquálido aferrado à suposta mãe. Já nas redondezas da Praça Hilda, aos pés da Pedra da Babilônia, um casal da espécie passeava displicentemente pelo meio-fio até alcançar o muro de uma das residências, cujos moradores ofereceram-lhes uma banana como "boas-vindas".

O gracejo gastronômico, no entanto, deve ser evitado - orientam especialistas. No Parque Lage, pelo menos, onde a presença de diferentes tipos de macacos é muito recorrente, os guardas advertem aos visitantes que alimentá-los pode ser um atentado à sobrevivência da espécie, que correria o risco de ser contaminada pelos nossos "germes" através da comida - ou seja, germes inofensivos apenas à espécie humana, mas nocivos aos macacos.



Por outro lado, ainda há muitas outras ignorâncias em torno dos saguis. Uma delas é que são, na verdade, originários do Nordeste e introduzidos no Rio de Janeiro por causa do tráfico de animais (pessoas que compraram e trouxeram para o Rio). Além disso, Pedro Develey, coordenador da ONG BirdLife, em entrevista ao site G1 em 2007, explicou que o Callithrix jacchus (nome designado à espécie), por ser um animal onívoro, pode ameaçar a existência de pássaros nas zonas urbanas - no caso, a zona urbana da Tijuca - já que se alimentam basicamente de ovos de aves.

Como são predadores consideravelmente novos na região, os pássaros ainda não adaptaram seus ninhos para proteger seus ovos, que se tornam alvos fáceis para os saguis. Todavia, ele pontua que a população de pássaros não entrará em extinção, mas que se o número de saguis continuar a crescer, o de pássaros poderá "diminuir drasticamente", segundo Develey.

Na mesma reportagem, Vitor Berbara, supervisor do Centro de Zoonose da Secretaria de Saúde do Rio, avisa que os saguis não oferecem riscos graves à população, apesar de poderem portar o vírus da febre amarela e da Raiva. E ainda aconselha aos pedestres que evitem muitas aproximações com o animal, pois, mesmo pequenino e aparentemente afável, o sagui costuma ser agressivo por se sentir em constante ameaça.

Seja como for, eles são praticamente um espetáculo circense em pleno cotidiano da Tijuca. De momentos insólitos, quem não gosta?

20 de out de 2014

Avenida Heitor Beltrão (3): o perímetro da decadência

O antigo imóvel da Casa de Cultura Lima Barreto: abandonado desde 2007 na Conselheiro Zenha

Vista como um sinônimo de modernidade e de progresso no seu momento de abertura, a Avenida Heitor Beltrão trouxe impactos negativos no longo prazo à região da Tijuca onde se localiza. Em primeiro lugar, a via jamais recebeu qualquer empreendimento imobiliário que desse algum tipo de feição residencial a seu cenário. Em segundo lugar, como uma consequência da primeira razão, a Avenida Heitor Beltrão, nesta lógica, nunca foi capaz de atrair pedestres para as suas calçadas; pelo contrário: seu aspecto exclusivamente rodoviarista acabou por repeli-los, mesmo com a presença ali do Teatro Ziembinski, de um Centro Cultural e de pequenos parques em suas margens.

Não à toa, o Zimba foi apropriado pela Prefeitura em 1992, que tornou-o um teatro municipal. Ao longo dos anos, o número de vezes de fechamento e reabertura do local por falta de verba ou de problemas com infraestrutura já não recordo. De todo modo, o Zimba segue lá, na Rua Urbano Duarte junto à Heitor Beltrão, com uma programação não muito badalada, mas ultimamente contínua. Em contrapartida, o Centro Cultural Lima Barreto fechou suas portas por volta do ano de 2007 e hoje seu antigo espaço jaz na esquina da Rua Conselheiro Zenha. Sem dúvidas, foi uma grande perda para a Tijuca.

Com menos de um ano, os pontos de ônibus já estão depredados
A hipótese de que a Avenida Heitor Beltrão é uma avenida fracassada também se confirma com a sua mais recente intervenção pública: a implantação de um corredor do Bus Rapid System (BRS). Inaugurado no segundo semestre de 2013, o BRS conferiu à avenida nova sinalização e novos pontos de ônibus que foram rapidamente vandalizados. O Ciep Samuel Wainer, por sua vez, é um outro caso de abandono: mesmo sendo um sucesso em termos escolares, suas dependências físicas são precárias e feias, especialmente o anexo formado pela quadra poliesportiva. 

Em suma, a Heitor Beltrão continuou sendo, desde a sua inauguração, uma avenida de grandes vazios urbanos. As praças construídas nesses locais - demanda, essa, da própria associação de moradores nos anos 1980 - não foram capazes de angariar um público cativo e, na atualidade, são comumente frequentados por usuários de maconha e/ou por cachorros encoleirados. No entanto, a ação de grafiteiros nas muralhas da Heitor Beltrão tem contribuído para melhorar a sua paisagem, assim como o evento de arte urbana Wallpeople, que vem procurando reocupar a Praça Paulo Emílio da Costa pelo menos uma vez por ano com encontros e troca de arte colaborativa.

Panorama da Avenida Heitor Beltrão: via pouco amigável aos pedestres.

Wallpeople, evento de arte urbana que acontece anualmente em mais de 30 cidades ao redor do mundo,
acontece na Heitor Beltrão com fins de revitalizá-la pelo menos por um dia

Muralha na Rua Almirante Cochrane: extinto posto de gasolina em frente ao Walmart.

O anexo do Ciep Samuel Wainer que dá forma à quadra poliesportiva: gradil depredado e
risco de assaltos no entorno.

O problema é que o "feitiço maldito" da Avenida Heitor Beltrão não se circunscreve apenas aos seus limites: as ruas vizinhas também foram atingidas pelo impacto negativo da avenida fantasma. Na Rua Pareto, por exemplo, os indícios de decadência são gritantes. Na esquina com a Conde de Bonfim, um antigo casario permanece fechado - e praticamente caindo aos pedaços - após o encerramento das atividades de uma lanchonete no início dos anos 2000. Já o extinto Colégio MV1 Pareto foi desmembrado em duas partes, onde uma delas tornou-se um prédio inexplicavelmente atroz. A ideia é que ali funcionasse uma loja popularesca chamada "Ti Ti Ti" que acabou não saindo do papel. Hoje, é um imóvel abandonado que, não raro, é invadido por mendigos e usuários de droga. 

Na Rua Almirante Cochrane, os efeitos são ainda mais perversos. De um lado, um prédio elegante junto à Pedra da Babilônia não dialoga mais em estética com o seu entorno, reconstruído mediocremente em virtude das demolições do metrô. Paredes pichadas estão por todas as partes, assim como um posto de gasolina abandonado na esquina da Rua Visconde de Figueiredo. Em frente, um grande elefante branco, o prédio do antigo Walmart, que está se degradando continuamente graças à deserção repentina de seus proprietários e, é claro, à ação do tempo. Panorama similar é o da Rua Marquês de Valença, no seu cruzamento com a Rua Pereira de Siqueira: o prenúncio de declínio econômico é muito evidente.

Imóvel centenário na Pareto com Conde de Bonfim à espera de revitalização

Ainda na Rua Pareto, imóvel desmembrado ao antigo Colégio MV1 , não raro, é ocupado por
sem-tetos e usuários de droga
Às margens do Walmart, fechado em outubro de 2013: destino desconhecido.

A falta de êxito na ambiência urbana da Avenida Heitor Beltrão, especificamente, se deve ao fato de que os terrenos baldios ali existentes ainda são de propriedade do governo estadual. A privatização do metrô nos anos 1990 não consistiu na entrega desses terrenos ao Metrô Rio, companhia que administra o transporte metroviário atualmente. Entretanto, em 2010 o governo estadual deu início a uma série de leilões de antigas áreas remanescentes do metrô na zona sul e na Tijuca. O objetivo era angariar verba para cobrir os gastos da expansão metroviária para a Barra via Linha Quatro.

Ao que tudo indica, não houve tantos interessados na Tijuca, mas em Botafogo está sendo evidenciado um fator positivo nesse processo. O resgate de um quarteirão entre as ruas Voluntários da Pátria e São Clemente, no coração do bairro, permitiu a expansão de uma nova rua, além da chegada de empreendimentos residenciais e comerciais que alavancaram o dinamismo econômico e de pedestres da área. O quarteirão, por sua vez, foi contemplado por uma bela praça e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), ambos elementos públicos muito bem utilizados pela comunidade e visitantes locais.

Talvez fosse essa a solução para a Heitor Beltrão: uma conjugação mais expressiva de usos, funcionalidades e serviços. Em outras palavras, continuamos à espera de um futuro melhor para essa avenida.

18 de out de 2014

Heitor Beltrão (parte 2): uma avenida que já foi de muitos endereços

Heitor Beltrão: por muito tempo, foi nome de quatro avenidas diferentes!

Imagine-se na situação de ser convidado por um amigo a visitá-lo em sua residência numa determinada rua X, mas que, no final de contas, você acaba indo parar em outro lugar completamente diferente que também leva o nome de rua "X". Deu para entender? Confuso, não? Pois é. Por muito tempo, aqui na Tijuca, a Avenida Heitor Beltrão foi nome de 4 (quatro, isso mesmo!) ruas completamente distintas. Segundo O Globo de 25/08/1987, a confusão só não era maior porque - talvez pelo zelo das autoridades ou por puro acaso - as numerações das quatro avenidas não se repetiam. As ruas eram:

1 - Avenida Heitor Beltrão: trecho entre a Rua Professor Gabizo e a Rua São Francisco Xavier;
2 - Avenida Heitor Beltrão: trecho inaugurado em 1982, prolongamento do trecho citado acima, entre a Rua São Francisco Xavier e a Rua Conde de Bonfim, nas proximidades da Pareto;
3 - Avenida Heitor Beltrão: trecho entre a Rua Conde de Bonfim e a Rua General Roca, passando por trás da Praça Saens Peña e atual Avenida Gabriela Prado Maia Ribeiro;
4 - Avenida Heitor Beltrão: trecho entre a Rua Desembargador Isidro e a Rua Conde de Bonfim, ao lado do Tijuca Tênis Clube e atual Rua Abelardo Chacrinha Barbosa.

Segundo o plano de arruamento do bairro, a ideia era que a Avenida Heitor Beltrão fosse uma longa avenida que conectasse os arredores da Rua Professor Gabizo com a Rua Desembargador Isidro (percurso de quase 2km) a fim de criar um fluxo de trânsito no sentido Centro-Muda que descarregasse, assim, a já caótica Conde de Bonfim. Se analisarmos o propósito desse projeto num mapa, percebe-se que essa Heitor Beltrão, para sair do papel, teria de desapropriar imóveis em muitos logradouros, especialmente no eixo Alzira Brandão-Pareto e no eixo General Roca-Barão de Pirassununga-Desembargador Isidro, sendo este último jamais executado.

Deste modo, os quatro trechos que levavam o nome de Heitor Beltrão eram nada mais que o caminho planejado para que uma nova avenida surgisse na Tijuca. Entretanto, apenas o eixo Alzira Brandão-Pareto sofreu intervenções, como foi mostrado na postagem anterior, em virtude da chegada do metrô e do prolongamento da Heitor Beltrão sobre os trilhos subterrâneos da Linha 1. Outros projetos de abertura de ruas, previstos no plano de arruamento da Tijuca, também não tomaram forma, como, por exemplo, a conexão da Rua Barão de Itapagipe com a Rua Carlos Vasconcelos, discutido em O passeador tijucano em abril de 2014.

Panorama da Avenida Heitor Beltrão nas redondezas da Marquês de Valença: pico do Grajaú ao fundo.

Além do alto custo das desapropriações, não se sabe bem quais foram os outros entraves que impediram a execução dessa grande "cirurgia urbana" na malha viária tijucana. Minha hipótese é de que as obras do metrô no bairro durante 1976 a 1982 causaram o caos suficiente para que a Tijuca nunca mais aceitasse conviver novamente com intervenções de tal porte. Nessa época, a atuação da associação de moradores era incisiva e dispunha de muita força política, o que decididamente freou uma atuação mais ousada do governo nessa questão.

Acredito que o primeiro sinal de desistência de unificação desses quatro trechos tenha se dado a partir de 1989, quando a Heitor Beltrão que margeava o Tijuca Tênis Clube teve seu nome mudado para Abelardo Chacrinha Barbosa, em homenagem ao ilustre comunicador da TV brasileira falecido em 1988. Esse trecho, inaugurado durante os anos 1970, curiosamente nunca teve edifício ou qualquer tipo de residência; até hoje é uma área livre, com vista para as empenas dos edifícios de ruas vizinhas e local de pontos finais de ônibus, como a 634 (Saens Peña-Freguesia) e a 636 (Saens Peña-Gardênia Azul).

Réplica do antigo portão do Tijuca Tênis Clube com menção de Heitor Beltrão, ex-presidente e patrono do clube

Por outro lado, o trecho vizinho correspondente à antiga Heitor Beltrão entre a Conde de Bonfim e a General Roca sempre foi residencial e já teve outro nome antes mesmo de ter sido "Heitor Beltrão". O jornalista João Máximo, em "Rua, avenida, clube e amendoim" (O Globo, 24/08/1995), afirma que esse trecho era chamado de Rua dos Trapicheiros, pelo fato da referida rua situar-se às margens do Rio Trapicheiros, embora não comente sobre a partir de que momento esta tornou-se de fato mais um fragmento da Heitor Beltrão.

Ao mesmo tempo, João Máximo indagava em sua crônica sobre a verdadeira identidade deste Heitor Beltrão, pois afirmava conhecer três pessoas célebres de nome Heitor Beltrão: o ex-presidente do Tijuca Tênis Clube (TTC); o compositor da canção "Amendoim torradinho", interpretado pela cantora Sylvia Telles; e o advogado, jornalista e parlamentar recifense. Sua dúvida era se, por aleatoriedade, cada um desses trechos "perdidos" se referissem a cada uma dessas personalidades que, de maneira supostamente insólita, possuíam nomes idênticos.

Avenida Gabriela Prado Maia Ribeiro:
deixou de ser Heitor Beltrão em 2005
Na verdade, ele estava enganado, pois o ex-presidente do TTC e o advogado, jornalista e parlamentar, no final de contas, eram a mesma pessoa. Lili Rose e Nelson Aguiar, no clássico "Tijuca, de rua em rua" (Editora Rio, 2004), apontam que Heitor da Nóbrega Beltrão, apesar de ter nascido em Recife, tem sua história intimamente ligada à Tijuca, fato que, inclusive, tornou-o patrono do TTC, além da notória vida política e jornalística. Já o compositor de "Amendoim torradinho", seja dito de passagem, se chamava, na verdade, Henrique Beltrão.

Voltado à antiga Rua dos Trapicheiros e posterior Avenida Heitor Beltrão, em 2002, a Prefeitura resolveu criar mais uma pista ali para facilitar o trânsito dos veículos que vinham da Rua Soares da Costa para a Rua General Roca. No entanto, essa intervenção foi inexpressiva, o que só contribuiu ainda mais para torná-la uma rua sem identidade e ligeiramente mal cheirosa - é neste trecho onde o Rio Trapicheiros é mais poluído.

Por fim, em abril de 2005, dois anos após o assassinato por bala perdida da estudante Gabriela Prado Maia Ribeiro em assalto na estação São Francisco Xavier do metrô, a antiga Rua dos Trapicheiros (e depois Heitor Beltrão) foi renomeada em tributo à Gabriela, moradora do bairro, dando fim ao ao aspecto "fragmentado" da Heitor Beltrão. Isso não tirou-lhe, entretanto, ocaráter polêmico e calamitoso, pois como veremos a seguir, é um dos principais logradouros que formam o "perímetro da decadência" no coração da Tijuca.


15 de out de 2014

Heitor Beltrão, o surgimento de uma polêmica avenida no coração da Tijuca

"Seja benvindo à Tijuca": monumento do Rotary Club inaugura a Avenida Heitor Beltrão, aberta
em 1982. Ao fundo, o Teatro Ziembinski, que chegou à avenida apenas em 1988.

A geração atual de tijucanos e amigos do bairro provavelmente ignora esse fato, mas a Avenida Heitor Beltrão, correspondente ao trecho entre o Largo São Maron e a Rua Pareto, foi inaugurada em 1982 graças à chegada do metrô na Tijuca. Prevista pelo plano de arruamento original do bairro, a Heitor Beltrão foi designada para escoar mais fluidamente o trânsito do Centro para a Praça Saens Peña, servindo, da mesma maneira, como parte do traçado subterrâneo dos trilhos pertencentes à Linha 1 do metrô. Até então, todo o trânsito da Tijuca para o Centro (e vice-versa) se restringia ao eixo Conde de Bonfim-Haddock Lobo, que trafegava em sentido duplo, e à Rua Almirante Cochrane, que trazia o fluxo de veículos advindo da Praça da Bandeira.

Vista do antigo Mercado São Lucas, em trecho antigo da Conde
de Bonfim que virou Heitor Beltrão. Fonte: O Globo, 09/10/1976
O projeto da “nova” Heitor Beltrão consistia na construção de uma praça junto à Igreja de São Francisco Xavier acompanhada de uma via para carros que rasgaria transversalmente ruas como Alzira Brandão, Marquês de Valença, Carmela Dutra, Visconde de Figueiredo, Conselheiro Zenha e Pareto, até chegar aos arredores da Saens Peña. Muitos imóveis foram demolidos na época, como grande parte daqueles situados no lado ímpar da Rua Almirante Cochrane (paralela à Heitor Beltrão), além do extinto Mercado São Lucas, cujo espaço abriga atualmente o camelódromo e uma agência dos Correios.

Segundo o livro "Tijuca - História dos Bairros/Memória Urbana", publicado pelo Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR/UFRJ (1984), a abertura da Avenida Heitor Beltrão deixou os moradores do bairro encantados com a vista livre que o pedestre passou a ter do Maciço da Tijuca naquela área. No entanto, a avenida foi inaugurada com grandes vazios ao longo do seu percurso; não havia prédio algum projetado para a Heitor Beltrão, somente a visão das empenas de edifícios situados em ruas vizinhas. Urbanisticamente falando, era uma avenida "moderna", porém feia.

Esse fato foi protestado pelas associações de moradores em atividade na época, como a Amoapra (Associação de Moradores da Praça Saens Peña), que exigia a implantação de áreas de lazer nesses terrenos, que eram antigos canteiros de obra. O deputado federal Chico Alencar, presidente da Amoapra na ocasião, encabeçou o movimento que solicitava a criação do “Parque da Tijuca” às margens da Heitor Beltrão. Tal parque consistiria na colocação de playgrounds, ciclovias, anfiteatros, áreas verdes e quadras desportivas nos moldes do Aterro do Flamengo. Em contrapartida, Jorge Washington Montillo, presidente da Associação Comercial e Industrial da Tijuca (ACIT) em 1982, defendia que a melhor opção para a nova via tijucana seria vender seus terrenos à iniciativa privada com a condição de que fossem criados espaços comunitários nos pilotis.

A Avenida Heitor Beltrão, na esquina com a São Francisco Xavier, em dois tempos: antes e depois das obras.
Em primeiro plano, a Praça Carlos Paolera. (Fonte: CARDOSO; VAZ; ALBERNAZ et al, 1984)*

Como vocês podem perceber, os próprios tijucanos não chegavam a um consenso sobre essa questão. Mesmo assim, o governador Chagas Freitas ratificou o decreto 5627 em 1983 garantindo para aquela área a criação exclusiva de parques, praças e quadras conforme a pressão e o desejo da maioria das associações de moradores. Entretanto, durante o governo de Leonel Brizola, esse decreto acabou sendo contrariado a favor da construção do Centro Integrado de Educação Pública Samuel Wainer (Ciep) num estreito terreno entre a Heitor Beltrão e a Almirante Cochrane em frente à Rua Conselheiro Zenha. Inaugurado em agosto de 1986, a chegada desse Ciep à referida avenida irou muitos moradores, que definiam tal decisão de Brizola como “autoritária” e desnecessária, pois a Tijuca já dispunha de muitas escolas primárias (vide O Globo-Tijuca, 29/09/86, p. 7).

Por outro lado, foi nesse mesmo ano quando a Avenida Heitor Beltrão começou a ganhar suas primeiras feições culturais, pois além da criação de um parque em toda sua extensão, havia a ideia também de se criar um corredor cultural por ali. Neste sentido, o Centro Cultural da Tijuca, sede do Sindicato dos Escritores, foi inaugurado na esquina da Rua Conselheiro Zenha em setembro de 1986. Pouco tempo depois, o local passou a ser chamado oficialmente de Casa de Cultura Lima Barreto. As atividades literárias e culturais desse centro cultural foram bastante efervescentes durante seu primeiro decênio de existência, com muitos cursos, exposições e oficinas. Além disso, havia inclusive um projeto de que fosse criado nas suas dependências um anexo destinado ao Museu da Tijuca, que apresentaria a história, fotografia e objetos referentes à cultura e tradição tijucana.

Praça Paulo Emílio da Costa, junto à Rua Alzira Brandão (esquerda) e à Avenida Heitor Beltrão (direita):
antigo canteiro de obra do metrô que virou parque.

Em meados de 1988, o Teatro Ziembinski chegou à Heitor Beltrão, nas vizinhanças da estação São Francisco Xavier do metrô. Capitaneado pelo ator e diretor Walmor Chagas, o Ziembinski (vulgo Zimba) tinha a proposta inovadora de abrigar, além do teatro, uma escola para atores. Sem dúvidas, seu grande desafio foi trazer uma programação qualificada à Tijuca que fizesse com que os moradores e frequentadores do bairro não precisassem se deslocar tanto para a zona sul em busca de boas obras teatrais.

E assim a Avenida Heitor Beltrão foi se adaptando à malha viária da cidade e ao cotidiano tijucano. Entretanto, quem acha que as polêmicas envolvendo essa via acabaram por aí, está redondamente enganado. Por décadas, a Heitor Beltrão foi nome de 4 (quatro!) ruas diferentes na Tijuca, graças ao projeto de arruamento do bairro que previa a unificação desses trechos jamais executada. Discorrerei sobre esse tópico na próxima publicação. Por fim, em outra e breve oportunidade, farei uma análise da evolução urbana da Heitor Beltrão até os dias de hoje. Nem preciso adiantar que entre os tijucanos é unânime a opinião de que a Heitor Beltrão é o maior símbolo de decadência do bairro, condição que se estende igualmente a muitas de suas ruas adjacentes.

*Fonte: CARDOSO, Elizabeth Dezouzart; VAZ, Lilian Fessler; ALBERNAZ, Maria Paula; et al [Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR - UFRJ]. Tijuca. História dos bairros / Memória urbana. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia / Index Editora, 1984. 

3 de out de 2014

Tijukistan, a irreverente grife da Tijuca

As estampas da Tijukistan: aposta numa linha street wear irreverente e bairrista.

— Sinceramente nunca vi sentimento igual ao do tijucano. Não tem bairro melhor, só falta uma praia. Os outros bairros nos odeiam e/ou invejam - gracejou, bem humorado, o designer gráfico João Leite, de 32 anos, sobre a peculiaridade do orgulho tijucano.

Morador da Usina, João é o idealizador e dono da marca de roupas Tijukistan, a grife exclusivamente tijucana referência entre os moradores do bairro, sobretudo entre os mais jovens. A página da Tijukistan no Facebook, por exemplo, já ultrapassou a marca das 4 500 curtidas, número consideravelmente alto para uma marca destinada a um público-alvo bastante segmentado e regionalizado.

Estampa rara da Tijukistan traz os
pombos da Praça Saens Peña
No entanto, foi precisamente com base nesse seleto mercado que João Leite apostou a criação do seu negócio em 2012. A repercussão positiva nas redes sociais e em alguns veículos de comunicação também se reflete na expressiva demanda pelas peças da Tijukistan. Segundo João, a cada dois meses surge uma coleção nova, sempre com boa liquidez, com preços na faixa de R$ 25 a 50,00:

— Conseguimos sempre vender praticamente toda a coleção, mas há estampas que os clientes estão frequentemente pedindo reprint, como a "I love Tijuca", "La Famiglia Tijucana" e "Made in Tijuca" – explica.

Apesar do cunho bairrista e enaltecedor das estampas, que exaltam as qualidades da Tijuca e o amor que seus moradores sentem por ela, o nome da grife, entretanto, alude à algo ligeiramente negativo: trata-se de uma analogia da ambiência urbana da Tijuca com a de um Afeganistão em tempos de guerra. Isso porque, durante muitos anos, os tiroteios e a violência excessiva imperaram em algumas partes do bairro, estigmatizando-as como perigosas e instáveis.

— A ideia do nome surgiu na época quando não tínhamos UPPs e os assaltos e tiroteios eram constantes no bairro. Ao mesmo tempo, acontecia a guerra no Afeganistão. Assim, o que seria uma brincadeira, virou coisa séria. Cheguei a me preocupar pelo nome, de ser associado à violência... mas já estava conhecido.

E João não teve com que se preocupar mesmo. O apelido "Tijukistão", que tinha tudo para ganhar uma conotação pejorativa e de desqualificação da Tijuca, passou a fazer parte do vocabulário da juventude tijucana nos anos 2000 como uma menção ainda mais de "camaradagem" e cumplicidade com o bairro. Afinal, tijucano que é tijucano sabe bem que, apesar dos pesares, a Tijuca é o seu grande xodó. Ponto certo para a Tijukistan, que soube identificar o nicho de mercado perfeito frente a um público que, muito mais do que narcisista, é fiel. Dito de outro modo: sucesso garantido!

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