15 de out de 2014

Heitor Beltrão, o surgimento de uma polêmica avenida no coração da Tijuca

"Seja benvindo à Tijuca": monumento do Rotary Club inaugura a Avenida Heitor Beltrão, aberta
em 1982. Ao fundo, o Teatro Ziembinski, que chegou à avenida apenas em 1988.

A geração atual de tijucanos e amigos do bairro provavelmente ignora esse fato, mas a Avenida Heitor Beltrão, correspondente ao trecho entre o Largo São Maron e a Rua Pareto, foi inaugurada em 1982 graças à chegada do metrô na Tijuca. Prevista pelo plano de arruamento original do bairro, a Heitor Beltrão foi designada para escoar mais fluidamente o trânsito do Centro para a Praça Saens Peña, servindo, da mesma maneira, como parte do traçado subterrâneo dos trilhos pertencentes à Linha 1 do metrô. Até então, todo o trânsito da Tijuca para o Centro (e vice-versa) se restringia ao eixo Conde de Bonfim-Haddock Lobo, que trafegava em sentido duplo, e à Rua Almirante Cochrane, que trazia o fluxo de veículos advindo da Praça da Bandeira.

Vista do antigo Mercado São Lucas (O Globo, 09 out. 1976)
O projeto da “nova” Heitor Beltrão consistia na construção de uma praça junto à Igreja de São Francisco Xavier acompanhada de uma via para carros que rasgaria transversalmente ruas como Alzira Brandão, Marquês de Valença, Carmela Dutra, Visconde de Figueiredo, Conselheiro Zenha e Pareto, até chegar aos arredores da Saens Peña. Muitos imóveis foram demolidos na época, como grande parte daqueles situados no lado ímpar da Rua Almirante Cochrane (paralela à Heitor Beltrão), além do extinto Mercado São Lucas, cujo espaço abriga atualmente o camelódromo e uma agência dos Correios.

Segundo o livro "Tijuca - História dos Bairros/Memória Urbana", publicado pelo Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR/UFRJ (1984), a abertura da Avenida Heitor Beltrão deixou os moradores do bairro encantados com a vista livre que o pedestre passou a ter do Maciço da Tijuca naquela área. No entanto, a avenida foi inaugurada com grandes vazios ao longo do seu percurso; não havia prédio algum projetado para a Heitor Beltrão, somente a visão das empenas de edifícios situados em ruas vizinhas. Urbanisticamente falando, era uma avenida "moderna", porém feia.

Esse fato foi protestado pelas associações de moradores em atividade na época, como a Amoapra (Associação de Moradores da Praça Saens Peña), que exigia a implantação de áreas de lazer nesses terrenos, que eram antigos canteiros de obra. O deputado federal Chico Alencar, presidente da Amoapra na ocasião, encabeçou o movimento que solicitava a criação do “Parque da Tijuca” às margens da Heitor Beltrão. Tal parque consistiria na colocação de playgrounds, ciclovias, anfiteatros, áreas verdes e quadras desportivas nos moldes do Aterro do Flamengo. Em contrapartida, Jorge Washington Montillo, presidente da Associação Comercial e Industrial da Tijuca (ACIT) em 1982, defendia que a melhor opção para a nova via tijucana seria vender seus terrenos à iniciativa privada com a condição de que fossem criados espaços comunitários nos pilotis.

Antes e depois das obras da Avenida Heitor Beltrão, junto à Rua São Francisco Xavier *

Como vocês podem perceber, os próprios tijucanos não chegavam a um consenso sobre essa questão. Mesmo assim, o governador Chagas Freitas ratificou o decreto 5627 em 1983 garantindo para aquela área a criação exclusiva de parques, praças e quadras conforme a pressão e o desejo da maioria das associações de moradores. Entretanto, durante o governo de Leonel Brizola, esse decreto acabou sendo contrariado a favor da construção do Centro Integrado de Educação Pública Samuel Wainer (Ciep) num estreito terreno entre a Heitor Beltrão e a Almirante Cochrane em frente à Rua Conselheiro Zenha. Inaugurado em agosto de 1986, a chegada desse Ciep à referida avenida irou muitos moradores, que definiam tal decisão de Brizola como “autoritária” e desnecessária, pois a Tijuca já dispunha de muitas escolas primárias (vide O Globo-Tijuca, 29 set. 1986, p. 7).

Por outro lado, foi nesse mesmo ano quando a Avenida Heitor Beltrão começou a ganhar suas primeiras feições culturais, pois além da criação de um parque em toda sua extensão, havia a ideia também de se criar um corredor cultural por ali. Neste sentido, o Centro Cultural da Tijuca, sede do Sindicato dos Escritores, foi inaugurado na esquina da Rua Conselheiro Zenha em setembro de 1986. Pouco tempo depois, o local passou a ser chamado oficialmente de Casa de Cultura Lima Barreto. As atividades literárias e culturais desse centro cultural foram bastante efervescentes durante seu primeiro decênio de existência, com muitos cursos, exposições e oficinas. Além disso, havia inclusive um projeto de que fosse criado nas suas dependências um anexo destinado ao Museu da Tijuca, que apresentaria a história, fotografia e objetos referentes à cultura e tradição tijucana.

Praça Paulo Emílio da Costa, junto à Rua Alzira Brandão (esquerda) e à Avenida Heitor Beltrão (direita):
antigo canteiro de obra do metrô que virou parque.

Em meados de 1988, o Teatro Ziembinski chegou à Heitor Beltrão, nas vizinhanças da estação São Francisco Xavier do metrô. Capitaneado pelo ator e diretor Walmor Chagas, o Ziembinski (vulgo Zimba) tinha a proposta inovadora de abrigar, além do teatro, uma escola para atores. Sem dúvidas, seu grande desafio foi trazer uma programação qualificada à Tijuca que fizesse com que os moradores e frequentadores do bairro não precisassem se deslocar tanto para a zona sul em busca de boas obras teatrais.

E assim a Avenida Heitor Beltrão foi se adaptando à malha viária da cidade e ao cotidiano tijucano. Entretanto, quem acha que as polêmicas envolvendo essa via acabaram por aí, está redondamente enganado. Por décadas, a Heitor Beltrão foi nome de 4 (quatro!) ruas diferentes na Tijuca, graças ao projeto de arruamento do bairro que previa a unificação desses trechos jamais executada. Discorrerei sobre esse tópico na próxima publicação. Por fim, em outra e breve oportunidade, farei uma análise da evolução urbana da Heitor Beltrão até os dias de hoje. Nem preciso adiantar que entre os tijucanos é unânime a opinião de que a Heitor Beltrão é o maior símbolo de decadência do bairro, condição que se estende igualmente a muitas de suas ruas adjacentes.

*Fonte: CARDOSO, Elizabeth Dezouzart; VAZ, Lilian Fessler; ALBERNAZ, Maria Paula; et al [Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR - UFRJ]. Tijuca. História dos bairros / Memória urbana. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia / Index Editora, 1984. 

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