23 de nov de 2014

A difícil arte de achar boas livrarias na Tijuca: o caso da Saraiva Mega Store

Panorama da Saraiva Mega Store, no Shopping Tijuca: império livreiro no bairro.

No O GLOBO-Tijuca da última quinta-feira (20/11/2014), a tijucana Nancy Zeitone, na seção "Carta dos Leitores", reclamou sobre a má qualidade dos cinemas na Tijuca. Disse que tem notado que bons filmes, dirigidos a uma classe mais exigente, só passam nos cinemas da Zona Sul. E enfatizou: Por que determinados filmes não passam nas salas de cinemas dos shoppings da região? Isso está parecendo discriminação, como se as pessoas da Zona Norte não tivessem o gosto apurado para determinadas películas.

Questão similar se refere à qualidade das livrarias no bairro, algo que muitos não comentam tampouco discutem. Outro dia fui à Saraiva Mega Store, do Shopping Tijuca, à procura de alguns livros para dar de presente - entre eles, "Barba ensopada de sangue", do escritor paulista-gaúcho Daniel Galera, e o recém-lançado "O pintassilgo", da americana Donna Tartt.

Antes de nada, cabe mencionar que ambas obras literárias têm tido certa importância e reconhecimento no mercado literário. O primeiro, de Galera, lançado em 2012, foi galardoado como o melhor livro do ano no Prêmio São Paulo de Literatura de 2013, assim como figurou o terceiro lugar no Prêmio Jabuti de RomanceJá "O pintassilgo" foi ganhador do prêmio Pulitzer de ficção em abril de 2014, além de estar contando com uma expressiva campanha publicitária por parte de sua editora, a Companhia das Letras.

Eis a minha decepção ao recorrer os olhos por todas as prateleiras e stands da Saraiva na esperança de encontrá-los em posição minimamente de destaque, como qualquer outra livraria o faria. Primeira tentativa em vão, tive de pedir ajuda aos poucos e concorridíssimos atendentes de lá. Depois de muito esforço e alguns minutos de espera, consegui a atenção de uma funcionária que, ao ouvir o nome "pintassilgo", hesitou e disse que "não havia na loja", embora afirmando logo depois que "tinha ouvido falar, sim, desse livro".

Soltou-me um "peraí" até que encontramos, finalmente, a única unidade deste produto disponível no local, meio empoeirada, aliás, e largada numa prateleira aleatória da seção de Literatura Estrangeira. Quanto ao "Barba", de Daniel Galera, foi-me dada a resposta usual e já esperada pela Saraiva Mega Store do Shopping Tijuca: "produto apenas sob encomenda".

Não era a primeira vez que isso tinha me ocorrido - isto é, de sair da Saraiva de mãos abanando. A diferença é que, nesta ocasião, não aguentei e resolvi perguntar à gentil e trabalhadora atendente:

- Qual o problema dessa filial da Saraiva? Eu não consigo encontrar nada do que quero por aqui. E não à procura de itens raros, mas sim de livros conhecidos e, muitos deles, bem vendidos em outras lojas e filiais.

Saguão de entrada da Saraiva Tijuca: loja que não se modernizou
e com arrumação pouco atraente
A moça fez uma cara de que estava me compreendendo, mas sem ter grande dimensão do problema. Contou-me que o sistema de fornecimento de produtos da Saraiva não era tão eficiente e que, portanto, demoravam a chegar à Tijuca, porque tudo depende da matriz de São Paulo (tá, e daí?). Complementou com o argumento de que esta filial (a tijucana!) é a que mais vende, superando até mesmo a grandiosa e pioneira Saraiva Mega Store do Rio Sul (palavras dela, o que explicaria, talvez, a falta de produtos), seguido pelo conselho final: "já foi ver na Eldorado?".

Falarei em outra oportunidade da Livraria Eldorado.

É necessário frisar agora o trecho "a filial que mais vende". Em outras palavras, a filial que mais fatura. Isso foi dito com orgulho velado pela atendente, embora haja aí uma questão muito grave que ninguém se dá conta, que é a do monopólio.

Inaugurada em maio de 2002, a Saraiva Mega Store do Shopping Tijuca praticamente monopoliza o mercado livreiro da Tijuca por ser a única livraria do bairro aberta todos os dias em horários que se estendem aos praticados nas lojas de rua. Por isso vende tanto, até mesmo pelo conforto de estar situada em um centro comercial! Além disso, é sabido que a Saraiva é uma livraria cujo foco tende à venda de livros meramente comerciais, best-sellers "pipocões" (em alusão aos blockbusters dos cinemas de shopping), deixando de lado obras de menos apelo comercial e/ou de conteúdo mais intelectualizado.

Basta visitar a Saraiva do Shopping Tijuca e perceber como a seção de Literatura Estrangeira, por exemplo, é muito maior e tem muito mais destaque que a de Literatura Nacional. Há uma enxurrada de livros comerciais, infanto-juvenis, obras que foram adaptadas para o cinema, etc, e uma pouca variedade em termos de autores brasileiros e/ou de ciências sociais. A Saraiva é orientada pelo mercado, aposta no que vende mais.

O que chama a atenção é que há filiais da Saraiva Mega Store em outros shoppings e bairros com muito mais qualidade do que a filial da Tijuca, não só em termos de espaço físico, mas também de variedade. A Saraiva do Rio Sul ou da Rua do Ouvidor não chega aos pés de uma Livraria da Travessa quanto à venda de livros menos comerciais, embora sejam filiais respeitadas pelo grande número de itens variados disponíveis.

E, por fim, é preciso apontar outros dois detalhes importantes: a ambiência da loja e o atendimento dos funcionários.

Acredito que todos os consumidores de livros esperam que as livrarias sejam locais aprazíveis e tranquilos de se passear, com boa iluminação, e, de preferência, com sofás e poltronas para manusear ou folhear aquele livro que desejam adquirir. Na Saraiva do Shopping Tijuca, entretanto, o único sofá de lá é disputado a tapas (onde muitos, de fato, lêem, mas há aqueles que acabam tirando uma pestana), e a ambiência da loja é quase tão caótica como a de um mercado persa.

Não bastasse o falatório natural de muitas pessoas reunidas num espaço, o sistema de comunicação entre funcionários da Saraiva é feito à base de microfone, fazendo com que todos tenham de ouvir a voz da gerente, e o som ambiente, veja só, é temperado por canções de artistas como Ivete Sangalo, Rihanna, Britney Spears, entre outros tum-tum-tuns eletrônicos e popeiros que ecoam frequentemente nas dependências da loja, confundindo a ida a um local supostamente intelectual com a de se estar numa danceteria ou coisa que o valha.

A experiência só piora se levarmos em consideração a má qualidade do atendimento. Há muitos funcionários que se esforçam em ser atenciosos e gentis em meio a tanto trabalho, mas vê-se claramente que são basicamente funcionários "ao pé da letra", isto é, têm unicamente a função de vender livros e nada mais. Em geral, são pessoas aparentemente leigas em literatura e com alguma dificuldade em escrever corretamente o nome dos livros solicitados, fato evidenciado diante da tela referente ao sistema de busca computadorizada da loja. Não raro, franzem a testa ao ouvir os nomes de alguns autores, mesmo aqueles nacionais.

De todo modo, é certo que a Saraiva Tijuca só continua apostando nesse tratamento cada vez mais decadente porque o público tem sido conivente com isso. Fica a pergunta: quem é mais banal, a loja ou os seus clientes? Eis a questão...

13 de nov de 2014

Noite de gala no Marista São José da Barão de Mesquita

Evento de gala para reinauguração do Marista da Barão de Mesquita: iluminação garbosa.

Na noite do dia 11 de novembro, o trecho até então meio lúgubre da Rua Barão de Mesquita ganhou novos ares (elegantes, por sinal) com a reinauguração oficial do antigo externato do Colégio Marista São José, emblemática instituição educacional tijucana.

Dotado de iluminação especial em sua fachada e no muro, o evento destacou a beleza arquitetônica da escola cujas árvores também ganharam projeção de luminosidade verde. Chama a atenção o esmero das obras de reforma, que mantiveram todos os detalhes originais da escola, incluindo o belíssimo portão.

A única exceção, no entanto, se deve aos fundos do Externato, vendidos a uma incorporadora imobiliária que levantou ali um condomínio residencial com duas entradas: uma para a Barão de Mesquita, junto ao portão da escola, e outra para a Avenida Maracanã, nas imediações da Churrascaria Estrela do Sul.

A instituição manteve o muro original da escola e a calçada de pedras portuguesas

Com a abertura de uma loja da Peugeot em frente, espera-se que o trecho se revitalize gradualmente.

11 de nov de 2014

Ensaio fotográfico: "Praça Saens Peña, entre a urgência e a quietude"

Reprodução da revista E-metrópolis, número 18
É com grande contentamento que compartilho com os leitores de O passeador tijucano o meu ensaio fotográfico "Praça Saens Peña, entre a urgência e a quietude", publicado na última edição (a de número 18) da revista E-metrópolis, voltada à comunidade acadêmica e especializada em tópicos relacionados a planejamento urbano e urbanismo em geral. 

A ideia do ensaio foi retratar o nosso dileto bairro da Tijuca sob o prisma do cotidiano da Praça Saens Peña, mais especificamente no horário entre 8 e 9h30 da manhã de um dia de semana. Enquanto uma quantidade expressiva de tijucanos e outros pedestres caminham afoitos rumo às obrigações do dia-a-dia e a pista da Rua Conde de Bonfim sentido Centro se engarrafa, no mesmo ritmo em que as escadarias do metrô ganham uma alta rotatividade de transeuntes, a Praça vai sendo tomada concomitantemente por um público descansado e sem muita pressa. Esse panorama não é inédito nem tampouco se circunscreve à Tijuca, embora represente com louvor o símbolo da maior praça tijucana, a Saens Peña, como importante subcentro econômico carioca e, ao mesmo tempo, local de lazer público na região.

A maioria das imagens foi registrada em um único dia, embora algumas delas tenham sido tiradas em outras ocasiões sempre na mesma faixa de horário mencionada acima. A quem se interessar, o ensaio completo pode ser acessado neste endereço (http://issuu.com/emetropolis/docs/emetropolis_n18/75?e=2528903/10026372), que vai da página 75 a 78 da edição referente ao mês de setembro de 2014 da revista E-metrópolis. Abaixo, publico o texto de apresentação do ensaio:


Praça Saens Peña, entre a urgência e a quietude
Sendo um dos subcentros mais tradicionais da cidade do Rio de Janeiro, a Praça Saens Peña é uma região pulsante. Logo nas primeiras horas após o despertar da alvorada, quando os raios solares já estão incidindo sobre os seus prédios e calçadas, um amontoado de ônibus e automóveis vai tentando se enfileirar na pista sentido Centro da rua Conde de Bonfim, a principal via comercial da Tijuca, bairro onde se localiza a Praça Saens Peña. Ou melhor dizendo: “a Praça”, como é usualmente referida pelos vaidosos moradores dali, os tijucanos. 
Num dia comum de labuta, em meio a tantos outros transeuntes que circulam por essa região, muitos desses tijucanos rumam afoitos à estação do metrô ou aos pontos de ônibus. Isso acontece ao mesmo tempo em que a faixa de pedestre, no primeiro indício de um sinal vermelho, recebe uma leva de pisadelas que só cessa quando o motorista, alvoroçado ao deparar com seu sinal verde de volta, dá uma buzinada e ameaça invadir aquele espaço de tiras horizontais brancas. Numa fração de segundos, tais tiras já estarão sob aqueles pneus, sem mais pedestre algum para “atrapalhar” o tráfego dos automóveis. 
E quanto a esse pedestre, pode ser que ele abandone a rua e resolva adentrar a Praça. Se o fizer, certamente estará cruzando o limiar entre a urgência e a quietude – do corpo, do espírito, do espaço. Deixa de lado o posto de pedestre para transformar-se num passeador.   
No cenário visto a partir de então, esse passeador avistará pessoas resfolgadas em bancos verdes de madeira com um jornal ou livro sobre os palmos das mãos. Perceberá, ainda, que tais pessoas são imperturbáveis, a não ser pelo ruído da pirueta dum certo peixinho que nada naquele lago artificial ou pelo incômodo causado diante do inconsolável mendigo que roga por esmolas. 
Ali, no interior da Praça Saens Peña, esse passeador descobrirá também que só quem se presta à movimentação contínua dos braços e das pernas, de modo a exercitá-los, são os ginastas da terceira idade. Ou então aquelas poucas crianças que saltam e correm ao longo do playground perante o olhar atento dos seus responsáveis. E, por fim, a alguns metros de altura, o passeador poderá contemplar os pombos que repousam sobre os postes e fiações da Praça – na verdade, singelos espectadores daquele mundo babélico que a ronda, um mundo completamente sem barreiras, absolutamente permeável.
BASTOS, Pedro Paulo. Praça Saens Peña, entre a urgência e a quietude. Revista e-metrópolis, n. 18, p. 75-78, set. 2014.