27 de dez de 2015

Praça Hans Klussman


A imaginação das crianças é um mundo rico e infinito de situações, diálogos e invenções. Foi com base nessa concepção que o professor Paulo de Tarso, morador da Rua Sabóia Lima, recriou na sua vizinha Praça Hans Klussmann um verdadeiro recanto de fantasias. Aliás, mais do que um professor, Paulo de Tarso é um artista: criou esculturas de argamassa e ferro evocando figuras tanto do folclore brasileiro assim como do reino animal.

Todas elas foram obras suas, custeadas por ele próprio, em meados dos anos de 1970. A praça, colada a um pequeno riacho originário da Floresta que desemboca no Rio Trapicheiros, é um dos melhores exemplos no bairro de como urbe e natureza se conectam e, portanto, convivem. O resultado foi a criação de uma grande floresta de mentirinha, que além de atiçar a imaginação da meninada, deixa adultos, como eu, um tanto quanto faceiros graças à energia da Mãe Natureza e ao poder que as fábulas ainda exercem sobre a criança que existe em cada um de nós.

Apesar dos mosquitos e de outros insetos pegajosos que rodeiam o local (um bom repelente já resolve esta questão), o alto da Rua Sabóia Lima oferece o cenário ideal para meditações, relaxamentos e qualquer outro tipo de descanso mental. A quebra d’água do riacho mantém a correnteza sempre constante, e, portanto, a sinfonia derivada dali nunca cessa. Além disso, há um atalho que percorre o riacho até um determinado ponto onde podem ser observadas as intervenções artísticas realizadas dentro do próprio canal aquífero: de um lado, uma raposa; do outro, um jacaré.

Foi neste momento em que tive a percepção de não estar vendo tudo o que de fato existe na Praça Hans Klussmann. Rodopiei os olhos de uma maneira bem infantil e, embasbacado, localizei um bicho-preguiça figurando em um dos galhos, além de uma coruja verde, o símbolo da sabedoria, ajeitada num espaçozinho que poderia ser muito bem o de um ninho de verdade. E vi mais, muito mais.

O curioso dessa minha visita é que da última vez em que estive ali, a prefeitura ainda não havia reformado as esculturas. Elas passaram uns bons anos sem nenhum tipo de conservação, o que, de certa forma, transformava a praça num divertido jogo de esconde-esconde: os animais, cobertos por musgos e terra úmida, sem mencionar a pintura descascada, camuflavam-se à natureza dali, fazendo-nos acreditar que aquilo realmente poderia ser de verdade.



Após a recuperação das esculturas, a Praça Hans Klussmann ganhou um colorido todo especial, mas que, paralelamente, ainda engana o campo visual do espertinho que pensara já ter sacado tudo que existe de quimérico por lá. Cheguei a essa conclusão quando, distraído, tropecei e percebi que não se tratava de uma pedra, um galho ou de qualquer outro obstáculo no meu caminho: eu estava com os joelhos suavemente ralados sobre a cauda de um crocodilo!

O grande barato das esculturas da praça é que elas seguem uma escala coerente entre si, de modo a recriar, de verdade, um reino animal. Fico imaginando o que as crianças pensam da ilusão ótica que isso lhes deve proporcionar. Ainda mais porque essas esculturas também são "interagíves", no sentido de que é possível sentar entre as corcovas de um camelo e, dessa maneira, fantasiar um passeio pelo deserto - por exemplo.



Diferentemente do zoológico, onde comumente não há contato do humano com o bicho, na praça essa convivência é liberada e desenfreada, contribuindo para a criança compreender como se dão os espaços e a visão dos animais. O próprio tiranossauro rex é um exemplo, cuja cauda forma um escorregador. Não me atrevi a deslizar sobre aquela rampa, apesar de ter ficado por um bom tempo abraçado no pescoção do dino e seu filhote, que fica no topo da escadinha, apreciando toda uma perspectiva que não era a minha. Como é bom, volta e meia, mudar o nosso olhar diante do espaço em que estamos inseridos.

Num mundo cada vez mais conectado às caricaturas dos video games, a Praça Hans Klussmann oferece a oportunidade - gratuita, diga-se de passagem – de retomarmos as nossas raízes culturais e infantis com figuras pra lá de simbólicas. Vá visitá-la e você irá deparar-se com o Bumba-Meu-Boi, o Saci, a sereia, além de um gnomo perdido por aquelas aleias. Emília, a boneca falante de Monteiro Lobato, notabiliza-se bem próximo ao atalho que dá para o riacho.


Ao seu lado, destacam-se o que parecem ser dois Viscondes de Sabugosa, ambos concentrados em suas leituras. Um urso polar acolá, uma galinha aqui, um cacique mais adiante rodeado de cipós, e, em outro rincão, um elefantinho rosa, que parece o Dumbo, próximo a um colorido avestruz. A Praça Hans Klussmann proporciona uma grande viagem a diferentes fábulas e nichos ecológicos dentro de um espaço que, felizmente, não está dentro de um shopping center, mas sim sob o teto do céu azul – e, à noite, estrelado – da nossa natureza. A nossa real natureza.

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Texto publicado em meu outro blog, As Ruas do Rio, em 10 de agosto de 2013.

21 de dez de 2015

Conde de Bonfim: uma rua extensa, multifacetada

A Rua Conde de Bonfim dispensa apresentações: é conhecida em toda a cidade e é quase tão famosa quanto a Praça Saenz Peña, aquela que, fixada em suas margens, concedeu-lhe o epíteto de principal alameda comercial da Tijuca. Do Largo da Segunda-Feira ao Largo da Usina, onde começa e finda – ou vice-versa -, são aproximadamente cinco quilômetros de extensão, apresentando diferentes morfologias, sentidos, serviços e contornos. Antigo Caminho do Andaraí Pequeno, é, portanto, o símbolo portentoso da Tijuca, a meca desta região da Zona Norte.

E quando eu digo que ela começa no Largo da Segunda-Feira, os mais atentos críticos poderão erguer as mãos em intenção de protesto. Evidente; afinal, o sentido viário vigente (e predominante) na rua leva os automóveis da Usina em direção ao Centro. Por outro lado, esse sentido é decrescente em relação à numeração dos imóveis, o que me oferece o argumento de afirmar que a nossa Conde de Bonfim nasce bem ali, no outrora Engenho Velho, na confluência de Haddock Lobo e São Francisco Xavier – o Largo da Segunda-Feira!







Por lá, as palmeiras competem em altura com os espigões da área. Os prédios têm suas plantas baixas ocupadas – todos elas – por toda sorte de comércio doméstico. Algo, aliás, que caracteriza os serviços tijucanos: armazéns para donas-de-casa misturados a agências bancárias, padarias, pequenos restaurantes, um tímido polo moveleiro, farmácias e muitos botecos. Nas calçadas, circulam famílias, gente local e consumidora. Às segundas, feira livre na Rua Aguiar; às quartas, mais adiante, tem outra na Visconde de Figueiredo. A Conde de Bonfim é portal de entrada e saída para esses mercados; cheira à fruta e à peixe, zaragatada pelas tendas de pastel e caldo de cana, moída na hora.

A cada portão de garagem aberto, além dos carros, sai o cheiro do mofo inconfundível dos edifícios antigos. Do Largo à Rua Pareto, poderia ser facilmente confundida, a nossa rua, com a Barata Ribeiro de Copacabana. Tem uma morfologia peculiar às vias da Princesinha do Mar: pista larga, calçadas amplas cobertas por sofisticadas pedras portuguesas disformes, o corredor de prédios.



Na altura do Alzirão, ninguém se atreve a cruzar a Conde de Bonfim sinuosa, de curva jeitosamente acentuada, que veda o tráfego oriundo da Praça Saenz Peña. Já um pouco antes da Rua Guapeni, frente a frente, duas saudades: o extinto Cinema III - que depois virou a danceteria Mamute e, hoje, abriga uma igreja universal - e a galeria do também extinto Cine Palace Tijuca. Junto à esquina de Conselheiro Zenha, jaz um poste. Metade dele, diga-se de passagem, pois consta apenas a base – uma carcaça luminária do então Distrito Federal.

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A sucessão de árvores fica para trás quando a Rua Pareto surge. Este é o limiar entre a Conde de Bonfim sombreada e a árida. A calçada da Khalil M. Gebara parece estralar os neurônios de qualquer indivíduo que por esta transite, tamanha a sequidão. O prédio descartável da UPA, de um branco encardido, não valoriza o entorno, bem como o centenário imóvel abandonado da Savassi Lanches, caindo aos pedaços. Letreiros flutuam como propagandas perdidas na paisagem aérea: veem-se facilmente os do Hotel Tijuca e da Granado. O tombadíssimo prédio da Granado, aliás, disputa atenções, em forma, com a moderníssima torre amorfa, no esqueleto, da Saens Peña Offices.




Aqui, a Conde de Bonfim ganha duplo sentido, ares de avenida. O canteiro central, de palmeiras esquálidas e outras mortas, funciona literalmente como divisor de pistas. A Praça Saenz Peña, essa adorada praça, cresce triangularmente em direção à Desembargador Isidro e General Roca. Um triângulo isóscele, pouco arborizado e com muito cimento, mas com um lago de parar a freguesia. O espetáculo d´água, graças ao chafariz nele instalado, não raro adorna a praça com um rastro de arco-íris.




A praça, margeada por calçadas de uma Rua Conde de Bonfim densa, pujantemente comercial, assiste a toda movimentação de transeuntes e automóveis, ambas as classes ávidas por mobilidade. Na sua área, ginastas da terceira idade movimentam continuamente braços e pernas, enquanto uma molecada, de não mais de cinco anos de idade, corre pra lá e pra cá sob o olhar atento de pais, avós e babás. A alguns metros de altura, pombos repousam sobre postes e fiações: são singelos espectadores daquele mundo babélico que ronda a Saenz Peña.

E, por lá, compra-se também qualquer tipo de mercadoria – mais quinquilharias do que artigos de grife, ultimamente. Acha-se muitos medicamentos e produtos de higiene pessoal, vide o número de farmácias, e quase nada de produtos culturais. Os cinemas estão lá, mas travestidos de outras funcionalidades. O sebo a céu aberto, o mais tradicional da cidade – afirmo, convicto –, aceita até Visa e Mastercard, um luxo ante a simplicidade livreira local. Enquanto isso, ônibus e mais ônibus se enfileiram, de minuto a minuto; os passageiros e passeadores são muitos.



Toda praça minimamente charmosa é merecedora de bons cafés, mas não há tantos deles no estilo parisiense ou porteño, considerando que Sáenz Peña (na grafia original) nada mais foi que o sobrenome de uma personalidade política argentina. No nosso caso, os cafés tijucanos se escondem, mormente, em galerias comerciais refrigeradas, cujos espaços diminutos não permitem caber nada além do que um extenso balcão que separa o comerciante do freguês. O Café Palheta, mutilado parcialmente por uma rede de farmácias, funciona assim, de “bunda-de-fora” para a Conde de Bonfim. A clientela fiel há décadas não o abandona, fomentando alta rotatividade de cafezinhos e broas de milho o dia inteiro.

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Os ares de avenida da Rua Conde de Bonfim seguem até pouco depois da Rua Uruguai, passando pelo Tijuca Tênis Clube. A muralha do TTC esconde todo um mundo de piscinas, quadras de tênis, vôlei e esportes variados naquele privilegiado quarteirão. Nos dias de semana, meninos e meninas, enrolados em roupão de banho, saem de lá de mãos dadas com seus pais após a aula de natação. Atravessam a rua, rumo às casas, baralhando-se ao grupo de católicos praticantes concentrado na porta da Igreja dos Sagrados Corações. Além deles, há outra onda de pedestres que circula por ali, ora entrando, ora saindo do sem fim de opções de comes e bebes presentes: casas de mate em geral, o disputado Pão & Companhia, a Casa Pedro, o self-service Via 502. Mais adiante, já perto da José Higino, a padaria Nova Elba, a Home Pizza, a Parmê Express – o paladar de pizza mais nostálgico e infantil já saboreado.




A Rua Marechal Taumaturgo de Azevedo, uma cul-de-sac transversal à Conde de Bonfim situado uma quadra antes da Rua José Higino, é um daqueles exemplos de logradouros da fase dourada da Tijuca. Edifícios de não mais de três andares compõem a pequena extensão da ruela. Portarias garbosas, de traços clássicos, são coroadas pela vista verde para o Sumaré que se tem dali. Já o Edifício Ullmann (n. 549), na Conde de Bonfim mesmo, exala o discreto charme da burguesia tijucana: classudo, em centro de terreno, e imponentemente cinquentista. Ofuscado pelas entradas envidraçadas da estação Uruguai do metrô, a portaria do prédio no número 590 da via também chama a atenção pela gala.



O chamado “Alto da Tijuca”, apelido dado à Conde de Bonfim no trecho entre as ruas José Higino e Uruguai, incluindo Dona Delfina, Itacuruçá, Visconde de Cabo Frio e paralelas adjacentes, é um oásis arbóreo. Diferentemente da Praça Saenz Peña, árida pelos maus-tratos do Projeto Rio Cidade, em 1995, e pela displicência da Fundação Parques e Jardins atualmente, o “Alto da Tijuca” faz da Conde de Bonfim uma espécie de bulevar. É onde as caminhadas são mais agradáveis e os prédios mais bem tratados e valorizados, sem deixar de lado o espírito pujantemente comercial que domina as plantas baixas.

Na esquina com a Rua Uruguai, o ponto de ônibus que concentra as linhas direcionadas à Barra da Tijuca se abarrota de gente. E é de gente que não sai apenas da Tijuca, mas também do Andaraí, da Vila, do Grajaú. Rumo à floresta e ao oceano, este trecho da Conde de Bonfim está a dois passos de outro Alto: o da Boa Vista.


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Na Muda, a Conde de Bonfim se estreita, respeitando os contornos de vale que notoriamente afunilam o território tijucano. O bucolismo vai emergindo e contagiando ruas e praças na medida em que a Conde de Bonfim se aclima e inclina. As transversais que ligam a Praça Xavier de Brito alimentam todo um fluxo de gente entretida e bronzeada pelo sol que não é o da praia, mas daquele que reflete o chão da terra batida. Os rostos são de um crestado áspero, mas efusivos diante das benesses dos parques urbanos.


Passando a Garibaldi, onde fica o elegante palacete do nosso Centro Municipal de Referência da Música Carioca, um ciclista já dispende mais esforços no pedal do que antes. Ao mesmo tempo, já se torna possível, eventualmente, a partir dali, avistar carroças percorrendo a região diante de um estilo de vida calmo, interiorano e mais campestre. A Praça Professor Pinheiro Guimarães, simpático campo aberto em frente ao portentoso Hospital de S. Francisco da Penitência, é o mais comovente exemplo ilustrador do que lhes conto.

A praça, margeada por confortáveis casinhas que também beiram o Rio Maracanã – menos sujo, ali, do que em sua foz –, ecoa latidos de cachorros e o farfalhar das vassouras. Expressa o lado mais calmo da Tijuca, quase provinciano, confrontado pelas desigualdades sociais do Morro do Borel, incrustado três quadras para trás.

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O tráfego sobe a Usina numa Conde de Bonfim que em nada lembra seu lado urbanoide entre a Saenz Peña e o Largo da Segunda-Feira. As linhas de ônibus diminuem, mas competem desproporcionalmente as duas pistas da via com automóveis particulares e os de autoescola. As alamedas transversais e paralelas à Conde de Bonfim, na Usina, são ritos de passagem para os aprendizes de motorista tijucanos. Treinam balizas, freios, acelerador e a buzinar nas vizinhanças como a parte teórica, experimental, “café-com-leite”. Uma vez transferido o carro para a Conde de Bonfim, experimenta, o aprendiz, a arte da direção numa rua diversa e riquíssima em know-how.

A vegetação abundante circunda os edifícios da área, como o modernista e requintado Jequitibá (n. 1325), e os antigos casebres que, longe da dinamicidade econômica da Praça Saenz Peña, parecem pedir arrego em tempos tão relapsos perante o patrimônio da cidade. O Armazém Loureiro, na esquina de São Rafael, não lembra mais os tempos áureos anteriores à era dos hipermercados, cuja trajetória de altos e baixos não cessa. O Carrefour, poderosa rede francesa, até hoje não sabe o que fazer com o monstruoso esqueleto de sua extinta filial abandonado ali, que fragiliza há pelo menos uma década o espaço urbano da Conde de Bonfim entre as ruas Ary Kerner e Santa Carolina.






Em contrapartida, o Collegio S. José (na grafia original), um dos maiores símbolos da Tijuca, adorna a Rua Conde de Bonfim tal qual um discreto monumento parisiense. E sua arte final não deriva de seus traços arquitetônicos, mas sim do abraço que o envolve; a Conde de Bonfim, em forma de vale, abraça o tijucano e o visitante. É onde ela, como um veloz tentáculo, penetra a floresta sem anunciar. Metamorfoseia-se, relembrando a alcunha de “Sintra Brasileira” recebida por estrangeiros na virada do século 19 para o 20.

A curva arrebatadora, à direita, decreta o ponto de chegada e o início do Alto da Boa Vista. O Largo da Usina, a céu aberto, reordena os automóveis e ônibus que por este retornam ou estacionam. As rochas lisas, encantadoras, sem vegetação e sempre umidificadas, embelezam o cenário – o estonteante cenário da Rua Conde de Bonfim em seu epílogo.

3 de dez de 2015

"O Tijucano", por Aldir Blanc

Eis um clássico de Aldir Blanc que merece ser compartilhado com os leitores de O PASSEADOR TIJUCANO. A crônica "O Tijucano", escrita por ele nos anos 1970 e que faz parte da antologia Rua dos Artistas e arredores (Editora Codecri, 1979), é uma dessas exemplares literaturas que mais bem refletem o ethos tijucano. Coloco-a aqui como ilustração ao mini-doc inserido no final deste post, divulgado por Fabrício Gonçalves em sua página do Facebook, trazendo Blanc e Moacyr Luz em forma de entrevista no Bar da Dona Maria, na Muda (se não me engano). Além disso, o vídeo apresenta filmagens inéditas da Praça Saens Peña nos anos 1950 cuja narração é, em grande parte, a leitura desta crônica.

O Tijucano, por Aldir Blanc 
A verdade é que o Tijucano vive num dilema desgraçado. Considerado semi-ipanemense pelos suburbanos e tido como meio suburbano pelos ipanemenses, o Tijucano passa momentos difíceis num bairro impreciso. 
— Tu mora aonde? 
— Tijuca. 
O autor dessa resposta pode morar no Largo da Segunda-Feira, no Maracanã, no Andaraí, em Vila Isabel, em Aldeia Campista... digamos que entre o Estácio e o Grajaú tudo é Tijuca. 
Se vocês estão pensando que eu vou dizer “o Tijucano é um estado-de-espírito”, aqui ó! 
O Tijucano é um estado-de-sítio. 
Premido pelo sagrado horror da acusação de suburbano e sonhando, secretamente, com as mordomias ipanemenses, o Tijucano adota uma atitude blasé em relação a seu controvertido bairro. Acha a Tijuca “devagar, careta, meio-não-sei-como, sacou? ” 
Saquei, bestalhão. A Tijuca é exatamente isso: meio-não-sei-como. Uma amostra magnífica do nosso querido Brasil. 
O Tijucano não tem salvação. Pode fingir, fugir, mudar, inventar, mas será sempre tijucano. Mesmo que o corpo disfarce, a alma, como o criminoso, como o filho pródigo, voltará sempre à Tijuca.  
Nenhum morador, de nenhum bairro, padece tanto do tal conflito amor-ódio como o Tijucano. Ele fala mal dos bares da Tijuca, mas não sai deles. Detesta os cinemas do bairro, mas raramente vai a outros. Venera as tangas, desde que não seja na mulher dele. É progressista, desde que o progresso não o afete. Esmera-se em sua descontração. Vigia sua esportividade. Obstina-se em sua espontaneidade. Por trás da indiferença, com que trata o bairro, esconde-se o orgulho. O maldito orgulho de ser Tijucano. 
O Tijucano-Padrão é feito aquele amigo meu que pirou em plena Praça Saens Peña, tirou toda a roupa, subiu numa árvore e começou a gritar: 
— A Tijuca é uma merda! Tô farto disso aqui! Num guento mais a Tijuca! É uma merda! Uma verdadeira merda! 
Quando a ambulância chegou e meu amigo leu o que estava escrito nela, o escarcéu aumentou. Do alto da árvore, nu, mas em pose de senador, bravava: 
— Pro Pinel, jamais! Nós, Tijucanos, temos nosso próprio sanatório! 

BLANC, Aldir. Rua dos Artistas e arrredores. Rio de Janeiro: Editora Codecri, 1979. pp. 192-193.


Aldir Blanc e Moacyr Luz - o Rio profundo: Tijuca, zona de fronteira, Saudades da Guanabara, meio suburbano e meio...
Posted by Fabrício Gonçalves on Sábado, 28 de novembro de 2015

21 de out de 2015

Tijuca entra na era dos edifícios empresariais

No Largo Atumã, um novo edifício comercial e corporativo: o Saens Peña Offices.

Croqui do empreendimento: lojas na planta baixa
Lentamente, a Tijuca vai entrando na era dos edifícios empresariais. Antigos terrenos baldios do bairro estão sendo ocupados por grandes incorporadoras que, fora do enfoque residencial, apostam na criação de novos polos médicos e de escritórios por aqui. No Largo Atumã, na esquina da Rua Almirante Cochrane com Santo Afonso, placas divulgavam até pouco tempo atrás o mais novo empreendimento local, o Saens Peña Offices. O que parecia demorar a sair do papel, já ganhou vigas, estruturas e até altura, ultrapassando claramente o gabarito da região.

“Você vai contar com o público de maior poder aquisitivo e com enorme potencial de consumidores dos bairros vizinhos” – este é o mote publicitário da Padrão Construtora W3 para atrair compradores e locatários para as 90 unidades do Saens Peña Offices. O Largo Atumã, atualmente utilizado como parada de kombis, deve ser repaginado com o empreendimento. Segundo a apresentação institucional, o térreo ganhará espaço para lojas nos mesmos moldes do Flamengo Tower Empresarial, no Largo do Machado, cuja planta baixa recebeu uma filial moderníssima da rede de lojas de roupa Renner.

Rua Engenheiro Enaldo Cravo Peixoto: localização estratégica junto ao Shopping Tijuca.

No entanto, um dos endereços mais cobiçados pelas construtoras é, sem dúvida, a Rua Engenheiro Enaldo Cravo Peixoto, a via que circuncida o Shopping Tijuca. Só neste trecho, são três empreendimentos em processo de lançamento: o Titanium Offices Tijuca, da Cyrela, já completamente erguido; o Tijuca Corporate, da João Fortes, cujo preço médio da cobertura é de R$ 700 mil; e o Corporate Tijuca, também da João Fortes, com 180 salas, 6 coberturas e 9 pavimentos.


Fora do coração do bairro, novas apostas 

Quase na divisa com o Rio Comprido, a Even Construtora e Incorporadora levantou o Haddock Business

Na Rua São Francisco Xavier, ao lado da Escola Orsina da Fonseca, a construtora Senpro levantou o SFX 111. O prédio, que tem 10 pavimentos e segue o padrão espelhado da arquitetura contemporânea, foi recém-inaugurado e vende suas salas comerciais a partir de R$ 480 mil. O marketing, assim como a do Saens Peña Offices, aposta nos atributos particulares da Tijuca como chamariz: “O cenário ideal para o seu negócio em uma das áreas comerciais mais valorizadas do bairro com o charme e a tradição da Tijuca”.

As bandas da Rua Haddock Lobo, até então residenciais, também não escaparam aos olhos dos investidores. O maior desses empreendimentos listados, o Haddock Business, foi entregue pela Even Construtora e Incorporadora em maio deste ano. Localizado em frente ao tradicional clube tijucano Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria, o terreno era ocupado antigamente por um estacionamento. O empreendimento conjuga salas comerciais de 23m² a 52m² e lojas de 105m² a 150m² quase na divisa com o Rio Comprido, indicando que a fronteira comercial e empresarial tem potencial de expansão para além da Praça Saens Peña, o tradicional coração financeiro do bairro.

15 de out de 2015

Elitização, crescimento demográfico e opções domiciliares: o perfil da Tijuca entre 2000 e 2010

Vista aérea da Tijuca: de acordo com o Observatório das Metrópoles (UFRJ), região, que faz parte do
núcleo da cidade, se elitizou entre 2000 e 2010 (Foto: Guilherme Canhetti).

Entre 2000 e 2010, a região compreendida pela Tijuca, Praça da Bandeira e Alto da Boa Vista apresentou índices de maior elitização. É o que mostra o livro Rio de Janeiro: Transformações na Ordem Urbana, a ser lançado neste mês pelo Observatório das Metrópoles , instituto de ciência e tecnologia vinculado à UFRJ, e pela editora Letra Capital. Com base em dados do IBGE e dos dois últimos Censos Demográficos apresentados na obra, o número de categorias superiores profissionais - isto é, formadas pela classe de dirigentes, profissionais de nível superior e pequenos empregadores - residindo no bairro subiu de 35%, em 2000, para 42% em 2010, impactando na redução de categorias médias e de trabalhadores manuais.

Segundo os professores do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ) Luciana Corrêa do Lago e Adauto Lucio Cardoso, autores do capítulo dedicado à análise das classes sociais na ocupação do território carioca, o processo de elitização de uma área é evidenciado sempre que a renda média do chefe de domicílio com imóvel próprio em prestação é maior que a do chefe de domicílio com imóvel já quitado. Em todos os bairros do núcleo metropolitano, composto pelas regiões administrativas da Lagoa, Copacabana, Botafogo, Barra da Tijuca, Vila Isabel e Tijuca, foi evidenciado esse processo. Em 2010, na Tijuca, a renda dos chefes com domicílio quitado era de R$ 8.080,00, ao passo que a dos que ainda estavam pagando prestação era de R$ 10.639.

Fonte: Observatório das Metrópoles.

A Tijuca também foi a terceira região que mais recebeu lançamentos imobiliários (2.198) entre 2001 e 2010, perdendo apenas para Botafogo, que teve 5.435 lançamentos, e a Barra, com 31.921. Além disso, tal número mostra a possível disparidade entre Tijuca e Vila Isabel, que no período mencionado teve apenas 327 lançamentos, reforçando a tradicional valorização da primeira região em relação à última embora se tratem de áreas geográficas contíguas. A taxa anual de crescimento demográfico foi igualmente maior na Tijuca (0,6%) do que na Vila (0,2%), mas ambas abaixo da taxa média correspondente à região metropolitana do Rio de Janeiro, que foi de 0,9%. 

Quanto aos tipos de domicílio, o artigo mostra que quase 80% dos tijucanos moram em apartamento, assinalando a alta concentração de edifícios no bairro, contra 16% vivendo em casas e 14% em favelas. Já quanto à renda per capita, aponta-se que os chefes de família com imóvel alugado na Tijuca, em 2010, têm renda maior (R$ 7.687,00) que a dos chefes de bairros como Botafogo (R$ 7.593,00) e Copacabana (R$ 6.601,00). No entanto, é curioso observar como essas três regiões se inverteram no que se refere à análise das rendas dos chefes com imóvel próprio em prestação. Em 2000, neste quesito, a Tijuca detinha renda maior (R$ 10.300,00) que as de Copacabana (R$ 7.914,00) e Botafogo (R$ 9.409,00), mas ultrapassada por estes em 2010.

Fonte: Observatório das Metrópoles; IBGE - Censo Demográfico, 2010.
Fonte: Observatório das Metrópoles.

Muito além da apresentação de dados quantitativos, não só este artigo como o livro todo em questão analisa os impactos sociais das transformações urbanas ocorridas no Rio de Janeiro de 1980 para cá. Uma das grandes reflexões dos autores é que o caráter de elitização dos bairros listados pode ter consequências nocivas quanto à harmonia das condições sociais na cidade. A “expulsão” de camadas médias profissionais e de trabalhadores desqualificados dos bairros do núcleo para as periferias tende a polarizar ainda mais a ocupação das classes mais altas em uma determinada porção do território – no caso, a Zona Sul, Barra, Tijuca/Vila Isabel e parte de Niterói.

Na perspectiva desta obra, tal cenário acentua as desigualdades entre bairros, esvaziando o poder de reivindicação política daqueles menos privilegiados e/ou periféricos caso houvesse uma concentração mais bem equilibrada de camadas superiores ao longo do território carioca como um todo.

Em tempo: Rio de Janeiro: Transformações na Ordem Urbana (Observatório das Metrópoles/Letra Capital) será lançado no próximo 27 de outubro de 2015, a partir das 18h, no Centro Cultural da Justiça Federal  (Avenida Rio Branco 241, Cinelândia).

3 de out de 2015

Tijuca anda de metrô, aprova e aplaude o Presidente: impressões do dia 27 de maio de 1982

Estação Saens Peña do metrô, em 1982: inauguração com euforia, festa e aplausos ao Presidente militar.

A euforia e a comoção tomaram conta da Tijuca no remoto dia 27 de maio de 1982, quando o metrô finalmente era inaugurado no bairro após sete anos de obras caóticas. Na época, o Jornal do Brasil fez uma cobertura completíssima contando em detalhes sobre a grande festa que se evidenciou no bairro naquela ocasião. O trecho Estácio-Tijuca, conformado pelas estações Afonso Pena, São Francisco Xavier e Saens Peña, foi entregue durante a gestão do Governador Chagas Freitas e inaugurado pelo então Presidente João Batista Figueiredo, que veio direto de Brasília para a festa de abertura.

Na Praça Saenz Peña, foi instalado um palanque onde o Presidente, o último do regime militar, discursou emocionado sobre seus tempos de juventude na Tijuca. Embora criado em São Cristóvão, Figueiredo anunciou a todos ter sido aluno do Colégio Militar e frequentador do Cine América, tendo, inclusive, contraído matrimônio com uma tijucana, dona Dulce, falecida em 2011. O Jornal do Brasil publicou o discurso na íntegra, como vocês poderão ler mais abaixo. Na edição do O Globo do mesmo dia, conta-se que após a solenidade, o Presidente Figueiredo aproveitou a estada na Tijuca para visitar um antigo amigo de seu pai em sua residência na Rua Martins Pena.

Um dos pontos altos desta extensa reportagem se refere às impressões dos tijucanos a respeito da chegada do metrô. Reflexo, talvez, do conservadorismo tão peculiar impresso à figura dos moradores da Tijuca, os repórteres relatam que muitos preferiram tomar o ônibus naquela quinta-feira de outono alegando “insegurança diante do novo; falta de hábito; e receio de que o metrô não funcionasse tão bem quanto se falava”. Já aqueles que experimentaram andar de metrô logo no seu primeiro dia de funcionamento na Tijuca, foram retratados pelo JB como pessoas nada cosmopolitas – vide o caso de uma mulher que, ao ouvir o apito que antecedia o fechamento das portas, soltou um berro, tropeçando ao entrar no trem e causando rebuliço.

O entusiasmo das “donas de casa” da Tijuca se misturou ao dos estudantes e de outros espectadores do evento, que entoaram gritos de “Mengo, Mengo” e também do America Football Club. A festa contou também com balões, gente trepada no telhado e nas marquises, a presença de toda a classe política da época e do Cardeal Eugênio Sales, que benzeu a estátua de São Francisco Xavier na estação homônima. Na Praça Saenz Peña, cartazes agradeciam pelo término das obras, enquanto os moradores do Andaraí, “sempre esquecido” (segundo a faixa produzida por eles), reivindicava a integração do bairro com o metrô. Enquanto isso, o Governador Chagas Freitas informava que após a conclusão do trecho Inhaúma-Pavuna, da Linha 2, o Estado começaria a pensar "concretamente" sobre a conexão da Tijuca com o Leblon através do anel metroviário.

No meio de toda essa confraternização, o Jornal do Brasil traçava o perfil de Chico Alencar, o jovem presidente da extinta Associação de Moradores e Amigos da Praça Saenz Peña e Arredores (Amoapra), destacando-o como líder promissor e muito querido na Tijuca. Chico, hoje deputado federal pelo PSOL, afirmava residir na Rua Henrique Fleiuss, e no momento de inauguração do metrô já havia lançado o livro “A História da Sociedade Brasileira” (Editora Ao Livro Técnico). Em depoimento aos repórteres do JB, na contramão do puxa-saquismo dos moradores diante das autoridades políticas presentes na Saenz Peña, Chico alegou que os operários do metrô estavam segregados do público e que deveriam ser mencionados como forma de agradecimento a eles pelo trabalho prestado.

Na estação de Botafogo, antigo terminal da Linha 1, o letreiro indicava a Praça Saenz Peña como destino.

Jornal do Brasil, pp. 4-5, 28/05/1982.
Tijuca anda de metrô e aprova
Por Bruno Thys, Gloria O. Castro, Luiz Fernando Gomes, Paula Motta, Samuel Wainer Filho e Sandra Chaves
- Você viu só? – queixou-se uma senhora bem vestida ao saltar na estação Saens-Peña ontem às 18h05m, voltando do Centro. “Tive de empurrar aquele homem que estava parado na porta, segurando em cima, como se estivesse no trem da Central”, dizia ela para uma amiga. Na hora do rush de volta da cidade, o metro não chegou à Tijuca superlotado. Teve movimento regular para o primeiro dia de operações, que começou às 14h30min.

- Muita gente não deve ter usado o metro com medo de que estivesse supercheio – disse Sueli Farias, tijucana “desde antes de o metro esburacar a Praça Saens-Peña”. Ela e sua colega de trabalho, Lola Henriques, tomaram o metrô na estação Presidente Vargas – trabalham no Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, na Presidente Vargas – e voltaram para casa depois do expediente, economizando Cr$ 15. A passagem de ônibus é Cr$ 40, e a volta de metrô custou Cr$ 25.

A economia, porém, Lola acredita que vá diminuir com um possível aumento que ela teme que seja anunciado em breve: “As passagens devem aumentar sim, porque com essas novas estações funcionando, eles vão precisar de mais dinheiro”.

Manuel Eduardo da Silva, que trabalha na Rua México, nem pensou duas vezes para tomar o metrô na Cinelândia na volta à casa. “É bem mais rápido”, disse, “quando decidi voltar de metrô não levei em conta a economia que faria, e sim a comodidade do transporte mais eficiente”.

A comodidade, o conforto, a novidade de um meio de transporte que oferece velocidade, ar condicionado, pontualidade e que já cobre uma extensão que vai da Zona Sul (Botafogo) à Zona Norte (Tijuca) levaram muitas pessoas a utilizar o metrô.

Uma viagem de metrô da estação Botafogo à Saens-Peña demora, em média, 23 minutos. Quando não há paradas mais demoradas, a viagem pode durar 21 minutos, como a feita ontem, saindo às 17h45m de Botafogo e desembarcando na Saens-Peña às 18h06m.

O maior fluxo de passageiros continua sendo da cidade em direção à Estação da Central do Brasil, quando o trem quase se esvazia, permitindo às pessoas que seguem, encontrar lugares vagos nas poucas cadeiras.
Ônibus continua cheio porque o novo assusta

Três motivos principais levam as pessoas a enfrentar um ônibus lotado, tráfego e uma viagem de quase 1 hora, quando poderiam se utilizar do metrô: insegurança diante do novo; falta de hábito; e receio de que não funcione tão bem quanto se fala.

Foram estas as razões principais dos viajantes no ônibus da linha 409 (Jardim Botânico-Praça Saenz Peña) que saiu às 18h do ponto próximo à estação do metrô de Botafogo e chegou ao seu ponto final na Praça Gabriel Soares, um pouco depois da estação da Saenz Peña, às 18h50min, com o número de passageiros habitual.

Justificativas

Muito sorridente, enormes brincos de ouro e unhas pintadas de vermelho. Maria Aparecida Gomes, de 37 anos, trabalha como manicure particular na Zona Sul e mora na Conde de Bonfim. Achando muita graça em suas próprias palavras, explica as razões de não ter usado o metrô:

- O Presidente inaugurou hoje né? Eu não peguei o trem porque não estou acostumada e não quero fazer feio. Um dia desses, quando eu não estiver muito apressada, vou dar um pulinho na estação só para ver como funciona. Com coisa nova eu não nego a minha raça. Faço como os matutos do interior. Primeiro dou uma sapeada e depois então eu uso como se andasse sempre.

A maioria dos passageiros não se deu conta de que a inauguração das estações da Afonso Pena, São Francisco Xavier e Saenz Peña, havia sido ontem. A cobradora do ônibus, Eunice da Conceição Pinto, disse que o movimento se mantinha igual aos dias anteriores.
Alguns, como o auxiliar de filmes e da TV Globo, Antônio Luís Santos, não usam o metrô “por causa da baldeação”. Ele justifica sua opção pelo ônibus alegando que “é o mesmo preço do metrô e assim eu só pego duas conduções. Se eu usasse o trem teria de pegar três conduções”.

Falando com a autoridade “de quem conhece seu ofício”, a cobradora Eunice sentencia: “Depois que o povo se acostumar com o metrô eu vou ter menos trabalho”.

“Um benefício estupendo”

Dona Gioconda Prado Seixas, moradora da Praça da Bandeira, “em cima do Bemge”, assistiu à solenidade de inauguração do metrô na Tijuca; foi em casa almoçou; tomou banho; trocou de roupas e voltou a tempo de pegar o primeiro trem que saiu da estação Saenz Peña. D. Vera Adelaide, que afirmou ter gostado muito “da autobiografia do Presidente”, também fez a mesma coisa. José Gomes Soares, advogado, que mora na Rua Almirante Cochrane, ao contrário das duas senhoras que usaram o metrô para passear, tomou o primeiro trem para a cidade porque trabalha no Centro. A ida do metrô até a Tijuca foi considerada, por todos, “um benefício estupendo”, como disse José Gomes Soares.

O funcionamento comercial das estações Saenz Peña, São Francisco Xavier e Afonso Pena começou às 14h30min. Para impedir o acesso das pessoas antes do horário, foram colocadas cordas de nylon grossas. Funcionários do setor de Operação vigiavam para que ninguém ultrapassasse a barreira. Na hora da liberação, o aviso dos funcionários para que o povo tivesse calma, não corresse. Tudo correu sem problemas.

O primeiro susto

O grupo de garotos do Colégio Municipal Euclides de Figueiredo (em homenagem ao pai do Presidente João Figueiredo) formado por Roberto 11 anos, Rodrigo, 11, Carlos, 13, Marcelo Alves, 12, Marcelo Henriques, 14, Marcelo Siqueira, 11, e Marcelo Queirós, 11, teve um pouco de dificuldade para passar no torniquete (queriam passar todos ao mesmo tempo e o torniquete só gira para uma pessoa de cada vez). Estavam excitados com a primeira viagem que fariam sozinhos no metrô: “Estamos achando um barato”, afirmou Marcelo Siqueira.

O trem partiu. Quando parou na estação São Francisco Xavier, ouviu-se um grito apavorado de mulher. Muita gente correu para fora do trem. Funcionários surgiram. O trem ficou parado alguns minutos. Mas a mulher apenas se assustara com o apito que antecede o fechamento das portas e tropeçou ao entrar no trem, caindo já dentro do vagão. O trem seguiu viagem.

O primeiro dia de funcionamento do metrô na Tijuca teve até palhaço no trem. Se Sacode, que faz promoção de lojas comerciais e alegra festas infantis, aproveitou a primeira viagem para distribuir os folhetos da loja de roupas para bebês que está divulgando atualmente. “Fazer rir é coisa muito séria”, disse, “ser palhaço é muito triste”, completou.
Ligação com o Leblon será o próximo projeto

Até setembro, as linhas do pré-Metrô deverão chegar a Inhaúma e depois à Pavuna. A informação é do Governador Chagas Freitas, que anunciou:

- Aí, poderemos pensar concretamente na ligação Tijuca-Leblon, através da Rua Uruguai, passando pelo maciço da Tijuca.

O presidente do Metrô, Carlos Teóphilo, muito festejado pela mudança de filosofia de arquitetura das estações do Metrô – optou por acabamento simplificado, ao invés do imponente mármore das primeiras estações – informou que o último acesso da Rua General Roca será entregue no próximo mês.

Teóphilo afirmou que para a melhoria de conforto, no Metrô, faltam apenas alguns trens, que deverão começar a ser entregue em setembro. Isso evitará os constantes problemas de superlotação no transporte.

Tijuca recebe metrô com balões e gente nos telhados

Havia gente nas janelas, sobre os telhados e nas marquisas. Alguns com binóculos. Balões coloridos de gás subiram ao céu, libertos das mãos de colegiais que cercavam o palanque com bandeirolas verdes-amarelas. Uma banda tocou Pra Frente Brasil e o Presidente Figueiredo, emocionado, falou de improviso – fora do programa. Estava oficialmente inaugurado o trecho Estácio-Tijuca da linha 1 do metrô.

A festa contou com a presença de políticos do PDS e do PMDB, mas não foi reivindicada por nenhum Partido. “A festa é do povo”, repetiam os deputados, opinião compartilhada pelo Governador Chagas Freitas. Foram sete anos de espera e de muitos transtornos, que modificaram a vida dos moradores. Fato lembrado, com pedidos de desculpas, em todos os discursos. Terminada a solenidade, a nova Praça Saenz Peña voltou a ser dos velhos, crianças, babás, pipoqueiros. Como antigamente.

Expectativa

A Praça Afonso Pena – primeira etapa do programa oficial – desde cedo foi tomada por centenas de populares que disputavam, aos empurrões, o melhor lugar para ver e cumprimentar o Presidente. Um dos donos da festa e anfitrião, o presidente do metrô, Carlos Teóphilo, foi o primeiro a chegar. Na calçada, recebia os convidados e apresentava a praça reurbanizada com árvores e bancos de concreto.

O horário marcado – 9h30min – foi respeitado pela maioria, mas muitos preferiram chegar mais cedo. Foi o caso do Cardeal Eugenio Sales, do Governador Chagas Freitas (acompanhado de vários secretários), do ex-ministro Eliseu Resende e de seu sucessor no Ministério dos Transportes, Cloraldino Severo, do presidente da Caixa Econômica Federal, Gil Macieira, além das autoridades militares da região.

Enquanto aguardavam o Presidente Figueiredo, permaneceram conversando em pequenos grupos, principalmente sobre política partidária. A indefinição da candidatura do PDS ao Governo Estadual foi tema muito abordado. Uma das rodas mais animadas reunia o Governador Chagas Freitas, o presidente da FAMERJ, Jô Resende, e representantes da Associação de Moradores da Tijuca.

O clima foi quebrado pelo nervosismo e ansiedade dos seguranças da Presidência da República, que momentos antes da chegada de Figueiredo afastavam aos empurrões e gritos quem estivesse no caminho a ser percorrido pela comitiva.

O Presidente, ao contrário – sorridente, apesar de uma visível irritação nos olhos –, chegou cumprimentando a todos, e não se furtou a autografar qualquer papel que lhe fosse oferecido. Acompanhado dos Ministros Leitão de Abreu e Danilo Venturini, Figueiredo foi conduzido para o interior da estação, onde ouviu explicações técnicas de Carlos Teóphilo e descerrou uma placa comemorativa.

Uma composição com seis carros – prefixo 100 – levou todos para a estação São Francisco Xavier, onde chegou às 10h30min – um minuto depois do embarque. Em rápida cerimônia (menos de 5 minutos). D. Eugênio Sales benzeu a imagem de São Francisco que ficará exposta na plataforma da estação, onde foi descerrada outra placa. A sirene apitou, novo embarque. Dois minutos depois, a Praça Saenz Peña.

Festa

Houve a determinação, por parte da segurança, de que todos os convidados e a imprensa saíssem da composição antes da comitiva presidencial. Figueiredo permaneceu no trem, conversando animadamente com Adhir Veloso (Secretário Estadual de Transportes), o Governador Chagas Freitas e o Cardeal Eugênio Sales. Depois, saiu pela plataforma direita, apoiando-se no corrimão, ainda com cheiro de tinta fresca.

No palanque armado à saída da estação, um locutor, pomposamente, narrava cada passo do presidente. Houve ligeiro tumulto quando Figueiredo se aproximou dos populares, que queriam abraça-lo e tocar sua mão. Fazia calor, mas o Presidente trajava terno cinza com colete. Colegiais acenavam suas bandeirolas, enquanto moradores aplaudiam das janelas. Uma revoada de balões de gás marcou o início da solenidade.

O primeiro a discursar foi o Ministro Cloraldino Severo, que com sua voz fina e nervosa não conseguiu atrair a atenção dos presentes: enquanto falava, Figueiredo e Chagas conversavam e atendiam aos que se aproximavam. Foi um discurso longo, técnico e abrangendo outras realizações de sua área.

Depois, foi a vez do Governador do Estado. Chagas Freitas recebeu um princípio de vaia, no início do discurso formal, previamente redigido. Só quando resolveu partir para um improviso, agradecendo aos operários e técnicos do Metrô, e desculpando-se pelos transtornos causados pela obra, conseguiu reverter o clima do público, que, neste instante, passou a aplaudir intensamente.

O locutor anunciou o fim da solenidade, quando populares pediram uma palavra do Presidente que já se preparava para deixar o palanque. Foi um discurso de improviso, bem-humorado e com muita emoção. Figueiredo lembrou dos tempos em que viveu na Tijuca, conheceu Dona Dulce, e das sessões vespertinas do cinema América, quando “vinha buscar uma ou outra namorada furtiva que porventura me quisesse”.

Foi muito aplaudido e só recebeu vaias quando reafirmou sua condição de tricolor – mesmo contra a vontade do sogro (americano) e da família predominantemente americana. Não chegou a falar no Flamengo, apesar dos gritos “Mengo, Mengo”, vindos do povo. Eram 11h quando Figueiredo saiu em direção à Gávea Pequena.

Figueiredo recorda infância na Tijuca

“Caros tijucanos. Voltar ou estar no Rio de Janeiro, minha terra natal, terra natal de meu pai e de quatro de meus irmãos. Terra onde iniciei minha meninice no bairro de São Cristóvão. E onde a Tijuca me acolheu aos 12 anos, no Colégio Militar, e me protegeu, até 1963, quando o meu pai morreu e deixou de vir à Praça Saens Peña (...). Cada vez que venho ao Rio recordo as passagens da minha meninice, da minha juventude e de meus dois primeiros filhos. Agradeço a Deus, que veio me fazer também carioca.

Ao voltar à Tijuca, são tantas as recordações, sempre boas, da torcida que fazia contra o América, time da minha família. O América que me deu a minha mulher. Que sempre perdia para o Fluminense, que acabou vencendo o meu coração. Recordo também dos passeios pelas praças Afonso Pena e Saens Peña, das batalhas de confete nas ruas do bairro, das peladas de futebol contra o time do Salgueiro. E como era difícil ganhar deles. E das festas juninas, em cada casa, para festejar meu santo padroeiro, São João.

Confesso que ao desembarcar na Praça Afonso Pena e vir até a Saens Peña, passando em São Francisco Xavier (onde o trem maria-fumaça me deixava aos sábados, vindo de Realengo, para poder ver meus pais, meus irmãos e minha namorada), senti a emoção do menino de 18 anos. Senti o calor da torcida do América, reclamando da minha condição de tricolor, e a voz do meu sogro pedindo para que, se eu casasse com a filha dele, eu passasse para o América. E, ao mesmo tempo, a voz do meu pai, para ser Vasco.

São tantas as recordações que tive e tal foi o carinho com que o povo me recebeu, que insisto em não pensar nos dias de amargura que tive ao acompanhar os trabalhos do metrô ao longo de todos estes anos, que tantos sofrimentos trouxeram à gente do bairro. Anos morosos, porque não dispunha o Governo de recursos que possibilitassem um prazo mais curto para esta obra interminável.

A minha palavra, portanto, hoje, para todos vocês, são dois muito obrigado: o primeiro, pela compreensão por estes anos de sofrimento e de rebuliços que o metrô foi obrigado a causar a vocês. O segundo obrigado, pela recepção carinhosa que me deram, fazendo-me voltar novamente aos meus tempos de aluno do Colégio Militar, em eu vinha buscar nas sessões vespertinas do Cine América uma ou outra namorada furtiva que porventura me quisesse. Muito obrigado”.


Praça virou festa e comércio deu brinde

Um brinde para cada cliente em qualquer compra. Só hoje, dia 27. Inauguração do metrô. O cartaz, à porta da Drogaria Venâncio, garantia um vidro de modelador de cabelos aos fregueses e retratava o espírito de festa que invadiu a Praça Saenz Peña já nas primeiras horas da manhã. O metrô contribuiu, espalhando bandeiras brancas, bolas coloridas e um imenso balão que anunciava a chegada do transporte subterrâneo e as transformações sofridas pela Saenz Peña.

Foi um dia fora do normal. Até pouco antes da chegada do Presidente, garis e operários davam os últimos retoques no calçamento de pedras portuguesas. Para entregar a estação na hora marcada, os trabalhos viraram a madrugada, mas houve uma recompensa. Segundo o operário Francisco das Chagas, servente de 24 anos, “é bom a gente ver uma coisa feita pela gente, pronta, e inaugurada pelo Presidente”.

Faixas, havia muitas. “Bem-vindo Presidente Figueiredo”, “Os Tijucanos agradecem ao Governador Chagas Freitas” e “Andaraí sempre esquecido reivindicou integração” – um protesto, quase isolado, pela não inclusão do bairro nas linhas de integração. Apesar do rígido esquema de segurança, muita gente conseguiu furar o bloqueio imposto pelos guardas e se aproximar do palanque.

Muitos seguravam bandeirolas também nas janelas dos prédios onde boa parte dos tijucanos assistiu a cerimônia de inauguração do metrô. Nas ruas, os guardas de trânsito, condescendentes, permitiam tráfego na contramão e até mesmo estacionamento em áreas não permitidas.

Em um canto próximo ao palanque, um grupo de alunos e professores da Associação dos Pais e Amigos de Excepcionais (APAE) comparecia para exigir do Presidente Figueiredo o cumprimento da promessa feita na inauguração da Caixa Econômica Federal para ajudar nas despesas de Cr$ 10 milhões (gasto mensal da entidade). Portavam cartazes em que diziam que Excepcional também é brasileiro e cobravam: O Metrô veio de Botafogo para a Tijuca: e a nossa verba?

Durante a solenidade, além da carta com o pedido da APAE, Figueiredo recebeu outros documentos das associações de moradores e da menina Manoela Pinho de Azevedo Souza, que pediu pela proteção da natureza. Manoela, 12 anos, demonstrou bastante organização: levou várias cópias xerox para distribuir à imprensa. Já Maria da Glória Mendes, 58anos, entregou uma carta que preferiu não divulgar. Chorando muito, disse que era assunto particular. “Essa é a quinta vez que faço isso. E ainda não fui atendida”.

“Chico” usa terno escuro

Um dos personagens mais festejados, ontem, foi o presidente da Amoapra (Associação de Moradores e Amigos da Praça Saenz Peña), Francisco Alencar. Por onde passava, era cumprimentado e abraçado pelos moradores do bairro, que agradeciam a luta da associação em favor da transformação dos terrenos remanescentes do Metrô em áreas de lazer. “Fomos a população que mais sofreu com as obras, durante sete anos” – respondia Chico Alencar, como é conhecido.

Foi a primeira vez em que a Federação das Associações de Moradores recebeu convite para uma solenidade oficial de inauguração. Segundo Jô Resende, “é um reconhecimento ao trabalho que desenvolvemos e que hoje representa uma grande parcela de esforço da população no sentido de conquistar soluções para as nossas próprias necessidades”. Apenas a Amoapra conta com cerca de 100 mil pessoas na sua área de atuação.

Francisco de Alencar – vestido com um terno escuro, pouco comum às lideranças de bairro, “mas imposto pelas necessidades” – lembrou que um abaixo-assinado foi entregue há algum tempo ao Governo do Estado, no sentido de uma rápida conclusão das obras do metrô, com a devolução dos terrenos à comunidade.

- Foi uma vitória do povo, sobretudo pelo direito que adquirimos de acompanhar o destino de nossas áreas de lazer. Em São Paulo, por exemplo, isto não foi feito e os terrenos acabaram vendidos.

Chico lembrou ainda que a reurbanização da praça Saens Peña foi uma vitória dos moradores que a reconquistaram como queriam, modificando o projeto original, “uma forma muito árida, semelhante ao calçadão da Cinelândia”. Por sugestão da Amoapra, foram, ao contrário, plantadas mais árvores, colocados bancos com encosto e o lago foi reconstruído.

- Entretanto, a comunidade vai continuar fiscalizando para que tudo funcione bem – concluiu.

Em uma carta aberta ao Presidente Figueiredo, a FAMERJ e 12 associações de moradores afirmaram que “essa inauguração compensa em parte os seis anos de transtornos e a descaracterização urbana dos bairros, mas não elimina os graves problemas da condução coletiva do Grande Rio, já que a linha 1 serve apenas a uma população que não tem tantas dificuldades quanto a de outras regiões mais carentes”.

E acrescenta ainda a carta que “a maior transformação vivida pela Tijuca não está no progresso material que o metrô traz, nem na piora da qualidade de vida, mas num fato novo, positivo e que vai aos poucos, como semente, fecundando toda a sociedade: as associações de bairro que necessitam ser ouvidas para o progresso e desenvolvimento do país”, concluiu.

Embora aparente menos de 25 anos, Francisco de Alencar Filho – O Chico, presidente da Associação de Moradores da Praça Saenz Peña e Arredores (Amoapra) – tem 32 anos de vida e de Tijuca, sempre na mesma rua, Henrique Fleiuss. Profissionalmente é tão bem sucedido quanto na presidência de sua associação: é professor da rede pública e particular (colégios São Vicente de Paulo, Santo Inácio e Eliezer Stemberg) e autor do livro A História da Sociedade Brasileira, com Marcus Vinícius e Lucia Carpi, que desde o lançamento em 79 já vendeu mais de 80 mil exemplares. Casado com Ângela, professora de Português, é pai de Emanuel, de seis meses.

Ontem foi um dia muito especial na vida do tijucano e historiador Chico de Alencar, que “acordou” para a participação comunitária em 1966, com a juventude estudantil católica. “Enquanto o palanque estava lotadíssimo de autoridades, no outro extremo da praça os operários assistiam a tudo em cima dos respiradouros. Eles também deveriam ser mencionados”. Neste momento, o historiador é mais forte e ele recorda a abertura de seu livro: “Quem construiu a Tebas das sete portas? Nos livros constam os nomes dos reis...” (Bertold Brecht).

18 de set de 2015

"Saguão na Tijuca", por Clarice Lispector

Na Zona Norte sopra um vento quente, um siroco. No saguão cinco moças sem cor já tomaram o banho da tarde, os cabelos secam ao siroco. Têm olhos pretos, braços redondos e bocas desbotadas. Elas são as filhas. Para que falar? Sentai-vos e tocai vossas guitarras. Não há nada a lhes dizer. Ali não há nada a salvar. Nem tudo simboliza alguma coisa, e isso é tão importante como o oposto. São apenas cinco moças de boca desbotada que deixo no saguão mesmo, e que lá fiquem. E se não quiserem ficar, que saiam. Cinco moças sem cor simbolizam cinco moças sem cor. Eis que estou vendo esse harém de bocas desbotadas, e sem crueldade ou amor à seleção natural, não me politizo, não me poetizo, não acho que está certo ou errado; está é isso mesmo.
Mas o siroco, sim, traz cavalos e areias, vindos do deserto.
Clarice Lispector 
Crônicas para jovens: do Rio de Janeiro e seus personagens. Organização Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2011. pp. 107-108. 

7 de set de 2015

Em vídeo, o triste fim do estúdio Herbert Richers, na Usina

Imóvel da Herbert Richers S.A., na Usina, em imagem dos anos 2000: nostalgia no mercado brasileiro de dublagens

Na Conde de Bonfim, a extensa muralha vegetada com o letreiro HERBERT RICHERS S.A. 1331 brincou com o imaginário de muita criança que cresceu assistindo a produções estrangeiras dubladas da TV. Marca registrada do estúdio de dublagem homônimo situado na Usina, a expressão "Versão Brasileira, Herbert Richers" entoava a cada início de episódio de Capitão Planeta, Alf - O Eteimoso, A Família Dinossauros etc., além de filmes e telenovelas mexicanas como Um tirada pesada e A Usurpadora

Criada nos anos 1950 pelo empresário e produtor de cinema Herbert Richers, parceiro de Walt Disney, o estúdio conseguiu se tornar uma referência nacional na dublagem brasileira. Chegou a dominar 80% do mercado desse mercado no Brasil por várias décadas, empregando, em determinada época, mais atores e atrizes do que a própria Rede Globo. Era nos estúdios da Herbert Richers, aliás, onde a Globo filmava parte de suas novelas e minisséries antes de construir o Projac, principalmente nos anos de 1970 e 80.

Com a morte do seu fundador em novembro de 2009, dívidas surgiram e as atividades no local foram encerradas, dando início ao processo de deterioração do imóvel. Em 2012, logo após ser leiloada a uma instituição religiosa japonesa, a casa passou por um incêndio misterioso que prejudicou as instalações e, especialmente, o seu acervo. 

Marcio Seixas de Volta à Herbert Richers.


Dos tempos de ouro, restaram apenas a memória e a nostalgia. É o que mostrou, em vídeo exclusivo, o ator e dublador Marcio Seixas, dono da voz emblemática da Herbert Richers. Em visita ao imóvel neste mês de setembro, vimos um Seixas emocionado em regressar à empresa onde trabalhou por 24 anos:

"Cheguei neste endereço com o recorte de jornal onde estava escrito "Herbert Richers oferece chance para quem tem boa voz e leitura em voz alta; comparecer à Rua Conde de Bonfim 1331 para seleção". Cheguei aqui antes das 8 horas da manhã, com o coração aos pulos. Parei diante deste portão e fiz assim: "Meu Deus, o quê me espera aqui dentro?" Pedi a Deus que me encaminhasse, que guiasse a minha voz, que me abrisse a porta desta empresa para trabalhar", relatou ele, que durante muitos anos morou no edifício ao lado do estúdio.


O clima de melancolia atinge não só os antigos artistas que fizeram parte do time da Herbert Richers, como também os tijucanos. O número 1331 da Conde de Bonfim, tal qual o vídeo de Seixas ratifica, se trata hoje de um imóvel coberto por plantas em todo o seu terreno. Segundo informações do jornal O Dia, insetos e morcegos ocupam os corredores do extinto estúdio, além do cheiro de material incendiado ainda permear grande parte das salas.

Para o cineasta Gustavo de Brito Colombo, morador e ativista pela volta dos cinemas de rua do bairro, a Herbert Richers representa mais um tipo de ruína do audiovisual tijucano:

"Além das salas de cinema desconfiguradas na forma de shoppings, farmácias ou igrejas, a Herbert Richers representa outro tipo de ruína do circuito audiovisual do bairro. Ouvindo "versão brasileira Herbert Richers" é como acredito que a maioria dos estudantes que realmente se apaixonaram por cinema e TV quiseram em suas casas e, ainda crianças, tentar reproduzir ou emular as mesmas narrativas pela primeira vez".

Colombo sugere ainda que o local seja preservado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade com algum tipo de sinalização ou destinação de uso de atividades dedicadas exclusivamente ao ramo audiovisual. Seria uma medida minimamente coerente com a importância da Herbert Richers para o entretenimento brasileiro e para a Tijuca, bairro-sede da empresa. 

25 de jul de 2015

Rua Conde de Bonfim 186: um endereço de metamorfoses

Rua Conde de Bonfim 186: endereço emblemático que já concentrou diversas ocupações emblemáticas para a Tijuca.

O terreno da Rua Conde de Bonfim entre as ruas Conselheiro Zenha e Visconde de Figueiredo poderia ser considerado como parte de um endereço repleto de metamorfoses. Do século XIX até os dias de hoje, o número 186 da principal artéria tijucana já teve nada menos que sete ocupações distintas, todas muito simbólicas para a cultura local do bairro: de residência aristocrática no século XIX, já foi colégio tradicional, loja de departamentos e atualmente abriga a filial de um supermercado. 

Créditos: Fernando França Leite (Grupo Tijuca de todos os tempos)

Na segunda metade do século XIX, quem vivia no referido terreno da prestigiada Rua Conde de Bonfim era ninguém mais, ninguém menos, que Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, que dá nome ao município da região metropolitana fluminense. O militar morou nesse belo palácio até o dia de sua morte em maio de 1880, cujo funeral, segundo relatos, parece ter sido um grande acontecimento não só para a Tijuca assim como para toda a cidade:

Nove de maio de 1880 - Funerais do duque de Caxias: Às nove horas da manhã regurgitava o solar do duque de Caxias, na rua Conde de Bonfim, confluência das atuais Visconde de Figueiredo e Salgado Zenha. Ia sair o enterro do grande homem que fez jus em vida às homenagens até hoje prestadas pela Pátria: o único duque da nossa aristocracia (...) Tudo simples, para obedecer ao testamento do ilustre morto. Mas o acompanhamento foi sem dúvida o mais numeroso a que a cidade assistira. Ao chegar o coche ao cemitério de São Francisco de Paula, em Catumbi, ainda se enfileiravam carros para o cortejo em Conde de Bonfim. Logo após o coche fúnebre, iam 16 moços de estribeira e outro coche, com a coroa do duque, envolta em crepe e os símbolos militares com que invariavelmente conduziu o Brasil ao caminho da vitória: a espada, as dragonas, o talim, a banda e o chapéu... (trecho de Tijuca, de rua em rua [Editora Rio, 2004], de Lili Rose e Nelson Aguiar, páginas 118-119)

Supõe-se que logo após a morte do Duque de Caxias é que a sua então residência tenha virado sede do Club da Tijuca, no final do século XIX e início do século XX. Infelizmente, não existem muitas informações a respeito desse clube. Pesquisá-lo no Google, por exemplo, é tarefa complicada, já que o sistema de pesquisa acaba remetendo todos os resultados da busca ao Tijuca Tênis Clube por causa da semelhança entre os nomes. No grupo do Facebook Tijuca de todos os tempos, de onde tirei grande parte dessas imagens, ninguém soube me responder a respeito deste enigmático club.

Imagem do departamento feminino do Instituto La-Fayette, na Conde de Bonfim
Créditos: Fernando França Leite (Grupo Tijuca de todos os tempos)

Contudo, foi a partir de 1916 quando a Conde de Bonfim 186 tornou-se endereço de uma das mais emblemáticas instituições educacionais da Tijuca: o extinto Instituto La-Fayette. Com duas filiais na Tijuca e outra em Botafogo (na praia, esquina de Visconde de Ouro Preto), a ala feminina do La-Fayette estudava na Conde de Bonfim, enquanto a ala masculina ficava na Rua Haddock Lobo, no mesmo prédio onde hoje funciona a Fundação Bradesco. Para Felipe Torreira, do blog Pileque, que publicou um post de memórias incríveis do referido colégio em dezembro de 2008 (vale a pena ler também os comentários de leitores), o Instituto La-Fayette era um colégio antológico, histórico, e tijucano. Vive na memória dos moradores até hoje com muito orgulho. Afortunados são os que vestiram aquele uniforme. O prestígio inquestionável do colégio fez com que a charmosa rua que margeia a Pedra da Babilônia e o Colégio Militar, nas imediações da Rua São Francisco Xavier, ganhasse em 1947 o nome do fundador da instituição: Professor Lafayette Côrtes.

Reprodução: O Globo, 26 abril de 1981.

Fachada da Mesbla, na Tijuca
Após um misterioso incêndio nos anos 1970, o prédio do Instituto La-Fayette foi infelizmente demolido para dar lugar, em abril de 1981, à nova filial da também extinta loja de departamentos Mesbla. O novo edifício, modernoso para os anos 1980, em nada lembrava o simpático solar onde residiu o Duque de Caxias. Sinônima de vitrines elegantes e mercadorias para todos os bolsos, a Mesbla funcionou na Rua Conde de Bonfim 186 por quase 19 anos, quando em agosto de 1999 fechou as suas portas após ter tido a falência de toda a rede decretada. Na edição do dia 26 de agosto daquele ano, reportagem do caderno "Tijuca", de O Globo ("Magazine na memória da vizinha", 26 ago. 1999) coletou depoimentos de moradores sobre o fechamento da loja:

O lugar era ideal porque, se uma das duas se atrasava, a outra podia dar uma voltinha pela loja para passar o tempo. Afinal, a diversão preferida das mulheres é olhar vitrine (Maria Aurélia Castro, dona de casa, usava a Mesbla como ponto de encontro com a filha, Luciana)

Não gosto de lojas de departamento. Estão sempre cheias e com pouca variedade. Já na Mesbla era diferente. Eu adorava passear nos corredores e sempre acabava comprando alguma coisa (Luciana Castro, tijucana, filha de Maria Aurélia).

Apesar de a tendência ser o fim dos cinemas de rua, gostaria de ver algo no estilo do Estação, com um espaço moderno, filmes alternativos, café e livraria. É disso que o bairro precisa (Roberto Santos, publicitário).

Eles estão por toda parte. É difícil competir com um mercado que vende de tudo: alimentos, eletrodomésticos, roupas e utensílios para o lar. Lamento o fim da Mesbla, mas só os grandes sobrevivem (Lino Souza Gomes, aposentado, que previu o surgimento de um hipermercado no local).

Reprodução: O Globo, 26 de agosto de 1999.
Hipermercado Bon Marché Magazine, inaugurado na Conde de Bonfim 186 no ano 2000.

Foi a partir do ano 2000 quando o número 186 da Rua Conde de Bonfim entrou para a era dos supermercados. Na mesma época, grandes terrenos e edifícios importantes do bairro passaram por esse mesmo processo, como a antiga Companhia Hanseática, na Rua José Higino, transformada num Hipermercado Extra 24 Horas. Na Conde de Bonfim, o mercado inaugurado por lá foi o igualmente falido Bon Marché, do Grupo Pão de Açúcar, que encerrou suas atividades no local por volta de 2005 para dar lugar à filial da tradicional Casas Sendas, braço também pertencente ao GPA a partir de meados da década passada.

Casas Sendas, na Conde de Bonfim com Visconde de Figueiredo, durou até 2011.


O atual Supermercado Extra, na Conde de Bonfim 186 (imagem de 2015).

Entre 2010 e 2011, a marca Sendas foi trocada gradativamente por Extra e Pão de Açúcar. Havia uma expectativa de que essa filial da Conde de Bonfim fosse transformada em uma loja do Pão de Açúcar, já que a filial da Rua Uruguai havia fechado anos antes, sobrando apenas a loja da Praça Afonso Pena, que continua funcionando normalmente. No entanto, as únicas Sendas transformadas em Pão de Açúcar foram aquelas situadas em bairros turísticos, como Leblon e Copacabana. Assim, desde o início desta década, a Rua Conde de Bonfim 186 vem abrigando uma sucursal do Supermercado Extra.

Rua Conde de Bonfim 186: um endereço de metamorfoses. Depois desta retrospectiva, só nos resta aguardar as cenas dos próximos capítulos; se o endereço fizer jus ao seu perfil de transformações, o Supermercado Extra dará lugar a outro empreendimento muito em breve.
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