28 de jan de 2015

Uma manhã na Praça Xavier de Brito (a praça dos Cavalinhos)


Tempos escaldantes, estes últimos, aqui no Rio. O relógio digital marcava 36 graus Celsius nesse sábado que passou. Nem mesmo os belíssimos flamboyants, inertes, que margeiam o Rio Maracanã – aquele rio em que Lima Barreto, certa vez, afirmou ser um rio respeitável e considerável para o desenvolvimento de uma grande metrópole*–, conseguiam dar um pingo de refresco aos pedestres que iam em direção à Praça Xavier de Brito. Popularmente conhecida, aliás, como a Praça dos Cavalinhos, por causa dos tradicionais passeios a cavalo. É aos sábados, domingos e feriados em que a praça recebe mais visitas, especialmente de crianças. A Xavier de Brito é, portanto, uma espécie de parque recreativo da Tijuca, mas com belezas e um refinamento bastante adulto, eu diria.

Em primeiro lugar, há o refino paisagístico da praça: em seu centro, um portentoso chafariz francês que, segundo a lenda, era para ter ficado em alguma praça da França, mas que, no fim de contas, acabou vindo parar aqui, em solo tijucano, por volta dos anos 1960. Feito de bronze, o chafariz tem carrancas, anjinhos e golfinhos ornamentais por onde passam os filetes e o jorro d’água. O espetáculo aquático é medíocre, mas não anula os ares igualmente românticos da praça, envolvida por jardins que, embora não tenham a assinatura de mestres como Glaziou, por outro lado, possuem, sim, algum tipo de charme. Sem mencionar o conjunto de árvores quase centenárias que abraçam esse quarteirão: entre elas os flamboyants, tais quais seus congêneres às margens do Maracanã, e algumas sibipirunas, de flores amarelas e franjas vegetais que engalanam o espaço aéreo da praça.





 O chão de terra batida deve proporcionar às crianças tijucanas a experiência de se estar em uma cidadezinha do interior. É sobre este chão esfarelento onde brincam, correm e sentam à moda antiga, sem aparatos tecnológicos que as divirtam. O teatro de Guignol é uma dessas atrações ditas vintage. Nesse vaivém infantil, alguns pezinhos descalços deixam pegadas sobre a terra, facilmente confundidas com as das patas dos potros que, notoriamente fatigados, circulam no perímetro da praça carregando-as em seus dorsos. Ao final do passeio – que, a pedido do freguês, pode incluir quadras além da Xavier de Brito –, os potros retornam às árvores, onde são amarrados aos cuidados de seus donos que os utilizam como fonte de renda.

Ali, os potros matam a sede em baldes de água – o único bebedouro ao alcance deles – e defecam conforme a necessidade, aos olhos de todos. O cheiro empesteia o ambiente por alguns segundos, causando repulsa nos adultos e ares de curiosidade risonha às crianças. Não à toa que elas se referem à praça como a dos cavalinhos, para o desespero, suponho, do Comandante e Coronel Xavier de Brito. Sabe-se Deus onde possa estar, mas arrisco dizer que, provavelmente, o orgulho militar estaria ferido em ver que o tributo à sua figura, através do nome da praça, é ligeiramente escorchado pelo simpático apelido referente a tais quadrúpedes.

A Praça Xavier de Brito não é muito grande, mas seus espaços são bem arranjados. Em outro lugar completamente distante do imaginário infantil permeado por escorregas, balanços e gangorras, as barraquinhas da feira de produtos orgânicos vão tomando o trecho junto às bordas da Rua Oliveira da Silva. Há, entre seus frequentadores, um certo clima de novidade e de euforia consumista amortecida pela falta do que comprar: aparentemente, grande parte dos produtos foi vendida logo nas duas primeiras horas de feira, para o desespero dos dorminhocos que não chegaram a tempo. Essa lamentação não parece afetar, por outro lado, os senhores jogadores de dominó, carteado e bocha, tradicionais em seus hábitos e alheios às (poucas) novidades que a praça oferece.





Quando a hora do almoço se aproxima, as mesas espalhadas pela calçada atraem comensais para restaurantes como o Rei do Bacalhau e o Bar do Pavão, que, de acordo com a fama, serve a melhor feijoada sabatina do bairro. E logo ali, espremido entre os dois, e vizinho a um pet shop, o Bar do Neca é a opção etílica mais prática da vizinhança. Um digno e respeitoso boteco com jeitão lusitano que mantém intacta a mesma estrutura de anos, décadas atrás. Um letreiro em acrílico contorna as três paredes do local exibindo todas as refeições que possivelmente são (ou já foram, em tempos remotos) vendidas ali: salgadinhos; refrigerantes; vitaminas; toddy; churrasquinho; salsicha recheada; croquete de carne.

Diferindo-se da exaltação do outro lado da calçada, na esquina com a Avenida Maracanã a quietude toma conta da Escola Soares Pereira. A instituição, entretanto, é mais um daqueles primorosos prédios públicos que sofrem com o vandalismo de pichadores. Oriunda dos anos 1920, a escola tem um estilo definido como neocolonial brasileiro, segundo o Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro (Casa da Palavra, 2000), e deverá continuar silenciosa por pelo menos mais algum tempo, até depois do carnaval, quando o ano letivo tiver início. A quietude também embala o Edifício Imola, a poucos metros do educandário, um elegante expoente da arquitetura residencial dos anos 1960 que se gaba de ser o único prédio do entorno que não dispõe de grades ou portões. O mesmo acontece com a casa amarela, a poucos passos do Imola, orgulhosa – aos olhos do pedestre – de ser o único imóvel unifamiliar da praça resistente à especulação imobiliária e à verticalização, por vezes, impositiva.





E é assim que o bucolismo da Praça Xavier de Brito brinda ao bem-estar de seus visitantes com sombra, bancos, atrações lúdicas e até mesmo uma novata estação do Bike Rio, essa das bicicletas laranjas que, a priori, dominavam apenas a orla carioca. Se nenhum dos encantos da praça forem suficientemente capazes de acalmar o espírito do visitante, é bem provável que lhe surja a oportunidade de esbarrar-se com o Renato Sorriso – ele mesmo, o próprio, o gari da Comlurb mundialmente famoso pelas suas habilidades como passista no carnaval e que bate ponto por lá. Vale a pena cumprimentá-lo; diante da simpatia que lhe é de praxe, serão ainda maiores as chances de se ganhar um sorriso seu em troca, tal qual seu apelido. Encontro que, por fim, e seguramente, coroará com diamantes o passeio a esse garboso recanto da Zona Norte carioca.

*Informação obtida na tese de doutorado da jornalista e escritora Luciana Hidalgo (página 152), “Lima Barreto e a literatura da urgência: a escrita do extremo no domínio da loucura”, defendida em 2007 na Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras da Uerj.

** Texto publicado originalmente em meu outro blog, As Ruas do Rio, em 21 de janeiro de 2015.

5 de jan de 2015

A Tijuca nas telenovelas brasileiras

Personagens tijucanos retratados na minissérie Anos Dourados, de 1986: a normalista (Malu Mader)
e o aluno do Colégio Militar (Felipe Camargo). (Foto: CEDOC/TV Globo)

Telenovelas cujas histórias são ambientadas no Rio de Janeiro costumam ter sempre um mesmo cenário e um mesmo núcleo de personagens: a zona sul da cidade habitada por personagens abastados. Bairros da zona norte carioca, quando aparecem nos folhetins, em geral são retratados como locais caricatos e de personagens notadamente afetados, que ora tendem para o humor, ora para dramas galgados na rotina das classes sociais mais baixas. Esse paradigma, no entanto, vem sofrendo uma ruptura ultimamente com a inclusão das favelas e dos subúrbios como protagonistas em oposição à zona sul - vide o sucesso de Avenida Brasil, exibida pela TV Globo em 2012 -, sobretudo após a ascensão da chamada "nova classe média", conhecidamente aquela que reside em locais até então banidos como estrelas dessas produções.

O tema musical, composto e interpretado
por Tom Jobim e Chico Buarque, virou clássico
Quem mora no Rio, sabe que a Tijuca é uma "bala perdida" (intenção alguma de fazer jus à violência que assolava o bairro em épocas não-pacificadas) na geografia carioca: não é zona sul, nem subúrbio. Um meio termo? Aldir Blanc já comentou sobre isso certa vez: "A verdade é que o Tijucano vive num dilema desgraçado. Considerado semi-ipanemense pelos suburbanos e tido como meio suburbano pelos ipanemenses, o Tijucano passa momentos difíceis num bairro impreciso". Numa cultura onde as telenovelas retratam extremos e caricaturas, ainda que travestidos de simulacros da realidade, incluir a Tijuca e sua gente nessas histórias é uma tarefa delicada dependendo da trama que se queira contar.

Com base nisso que o autor Gilberto Braga inovou ao escrever a minissérie Anos Dourados, exibida pela TV Globo em maio de 1986. Ambientada na Tijuca, a história explora a rotina da típica classe média tijucana do final dos anos 1950. Os protagonistas, vividos por Malu Mader (Lurdinha) e Felipe Camargo (Marcos) - ela normalista do Instituto de Educação, ele, aluno do Colégio Militar -, moram nos arredores da Praça Afonso Pena (Marcos, por exemplo, habitava um apartamento na Rua Pardal Mallet) e são apaixonados um pelo outro. Assistem filmes de mãos dadas no Cinema Carioca, na Praça Saens Peña, e circulam pelas ruas, clubes e sorveterias do bairro tal qual os jovens daquela época "dourada". A minissérie ainda retrata a forte presença de militares na Tijuca (referência não mais tão viva hoje em dia já que muitos morreram, sem falar que a carreira não tem mais o prestígio de outrora), como o Major Dornelles (José de Abreu) e o Brigadeiro Campos (José Lewgoy).

Glória (Betty Faria) era uma mulher desquitada que morava na Rua Pardal Mallet e trabalhava como caixa
de uma boate em Copacabana. Teve um relacionamento amoroso extraconjugal com o
Major Dornelles (José de Abreu).

A tensão de Anos Dourados consiste no amor proibido do casal: Marcos é filho de uma mulher desquitada (Glória, encarnada por Betty Faria), algo mal visto pelos pais da moça, os conservadores Doutor Carneiro e Celeste, vividos pelos falecidos atores Cláudio Côrrea Castro (tijucano na vida real; residia na Rua Silva Guimarães até poucos anos antes de sua morte) e Yara Amaral. A propósito, o conservadorismo do bairro é o ponto alto da história para retratar uma época de valores ambíguos: sociedade altamente tradicional e boom econômico aliado a um agitado panorama político baseado na queda de Getúlio Vargas e na posse do visionário ex-presidente Juscelino Kubitscheck.

Em 17 de março de 1986, o Segundo Caderno do Jornal O Globo falou, pela primeira vez, sobre a mudança de cenário da então novata telenovela:
"Entre 1956 e 1958. Esses são 'Os anos dourados', minissérie que Gilberto Braga está escrevendo e que estréia no dia 28 de abril, às 22 horas, na TV Globo. Não se iludam, porém, telespectadores: em vez da lista das dez mais elegantes ou do charme da burguesia da época, o autor optou por uma família da classe média da Tijuca, moralista, lacerdista e reprimida. Cadê o glamour, perguntarão os fãs de Gilberto Braga: ele está nas festas de formatura com grandes orquestras, festinhas de fim de semana com pentras, casamento com espadas cruzadas e carro de noiva, bolinação em cinema e a eterna discussão entre lacerdistas e juscelinistas".
Na mesma reportagem, Gilberto Braga explicou que viveu de perto os preconceitos e moralismos da época, pois nasceu e viveu na Tijuca durante a infância. Segundo ele, que vivia nas redondezas da Praça Saens Peña, os tijucanos tinham "verdadeiro pavor da Zona Sul, vista como sinônimo de transviados, curras e moças na praia com maiô de duas peças":
"Quando minha mãe se mudou para Copacabana, meu avô disse: Você vai levar seus filhos para a boca do lobo?"
O tema musical da minissérie, composto e interpretado por Tom Jobim e Chico Buarque, virou um clássico, assim como a produção audiovisual que lhe deu o nome. Reprisada diversas vezes pela TV Globo e, recentemente, pelo Canal Viva (em 2013), o DVD de Anos Dourados, com aproximadamente 430 minutos de duração, foi lançado há pouco mais de dez anos e até hoje é encontrado à venda no mercado. A Tijuca, desde então, se consolidou de vez como o bairro dos anos dourados do mesmo modo que a minissérie se tornou referência para entender a história e os costumes tijucanos. Cabe mencionar, como destaque, a abertura da novela, filmada no Instituto de Educação.

 

No Leblon de Manoel Carlos, a Tijuca também teve vez

O bairro xodó de Manoel Carlos, autor de telenovelas clássicas como Por Amor (1997) e Laços de Família (2000), sem dúvidas, é o Leblon, situado na zona sul do Rio. Suas protagonistas, as heroínas Helenas, em geral são moradoras do badalado bairro e têm vidas financeiramente estáveis e amorosamente conturbadas, algo que enche de suspiros e, por vezes, antipatias os telespectadores. O que muitos não sabem é que duas de suas Helenas são ex-tijucanas, detalhe comentado nos diálogos das próprias telenovelas.

Maria Eduarda (Gabriela Duarte) e Helena (Regina Duarte),
de Por Amor, moravam no Leblon, mas eram tijucanas

A Helena vivida por Regina Duarte, em Por Amor (1997), vivia na Tijuca até se divorciar do primeiro marido, o alcoólatra Orestes (Paulo José), com quem teve a filha Maria Eduarda (Gabriela Duarte). A vida deles na Tijuca não é mostrada na história, pois no momento em que é ambientada o casal já havia se separado e Helena, portanto, morava no Leblon com a filha, tal como é de praxe nas tramas de Manoel Carlos. Mesmo assim, a personagem mantinha laços afetivos estreitos com os ex-vizinhos da Tijuca, Mafalda (Beatriz Lyra) e Antenor (Umberto Magnani), pais de César (Marcelo Serrado), amigo de infância de Eduarda e apaixonado por ela.

Vale a pena citar a cena em que César encontra Eduarda no restaurante japonês, logo nos primeiros capítulos. A moça, já casada com um ricaço, se mostra incomodada e confusa ao reencontrar o namorado de adolescência na presença da sogra Branca, encarnada por Suzana Vieira. César se apresenta como o "amigo" de Maria Eduarda que cresceu com ela na Tijuca. Ela, abalada pela presença da sogra e do rapaz, e talvez envergonhada pelas suas raízes, "diz que morou só um tempinho na Tijuca". Além disso, adepta às manias de grandeza de menina mimada, afirma que "seu avô era dono de praticamente toda a Tijuca".


César, cuja profissão era a de médico obstetra, parece ter sido um personagem construído para ser essencialmente tijucano. Ou, pelo menos, conforme aquele tipo de tijucano descrito nas crônicas do Tutty Vasques: apegado à família, bom moço, tímido, hesita ao falar, cavalheiro e nada malicioso.

Além de Por Amor (1997), a Helena vivida por Christiane Torloni em Mulheres Apaixonadas (2003) também era originalmente tijucana. Em um dos capítulos, ela conversa com as irmãs Hilda e Heloísa sobre a juventude que tinham na Tijuca, em tom nostálgico. Além disso, a primeira Helena de Manoel Carlos, vivida por Lilian Lemmertz em Baila Comigo (1981), não só era tijucana como grande parte da história se passava na Tijuca, conforme declaração do próprio à Revista da TV do jornal O Globo de 12 de janeiro de 2014.

A última referência da Tijuca nas novelas do autor foi em Viver a Vida (2009), com as personagens Renata (Bárbara Paz) e Regina (Cris Nicollotti), que viviam em um confortável apartamento no bairro. Regina, que era astróloga, tinha uma clientela formada pelo núcleo zona sul da novela cuja filha, bulímica e alcoólatra, namorava um dos mocinhos, Miguel (Mateus Solano).


Em certo capítulo, Miguel leva Renata para a casa e pergunta se ela sempre morou na Tijuca. "Desde que nasci", responde ela, emburrada, meio blasé. Miguel, por sua vez, diz que "tem vontade de sair daquele caos da zona sul e ir morar no caos da zona norte", em tom jocoso. Estacionam numa rua arborizada e sofisticada, que parece ser a Rua Homem de Melo, e a sogra os recebe de um jeito extrovertido, beirando o popularesco e a caricatura. Regina oferece um pedaço de queijo ao genro, que, segundo ela, estava bem fresquinho e havia sido comprado na Feira de São Cristóvão naquela manhã. Neste diálogo, o autor dá a entender que os moradores da Tijuca fazem compras regularmente na feira do bairro vizinho, o que, convenhamos, não é lá tão comum assim.

Outras curiosidades:
  • Nas novelas de Manoel Carlos, a Tijuca é tratada como um bairro sem estigma de zona norte. Não só as Helenas foram ex-tijucanas, assim como muitos personagens de História de Amor (1995), Por Amor (1997) e Laços de Família (2000) se referiam à Tijuca como um bairro acessível e "circulável".
  • Gilberto Braga, em suas outras produções, no entanto, deu caracteres pejorativos ao seu bairro de origem. Em Paraíso Tropical (2007), a socialite Marion (Vera Holtz) diz, em determinado capítulo, que tem horror "às terras além da Praça da Bandeira". Já a Alice de Guilhermina Guinle caçoa do jeito de "normalista tijucana" de uma das personagem.