5 de jan de 2015

A Tijuca nas telenovelas brasileiras

Personagens tijucanos retratados na minissérie Anos Dourados, de 1986: a normalista (Malu Mader)
e o aluno do Colégio Militar (Felipe Camargo). (Foto: CEDOC/TV Globo)

Telenovelas cujas histórias são ambientadas no Rio de Janeiro costumam ter sempre um mesmo cenário e um mesmo núcleo de personagens: a Zona Sul da cidade habitada por personagens abastados. Bairros da Zona Norte carioca, quando aparecem nos folhetins, em geral são retratados como locais caricatos e de personagens notadamente afetados, que ora tendem para o humor, ora para dramas galgados na rotina das classes sociais mais baixas. No entanto, esse paradigma vem sofrendo uma ruptura ultimamente com a inclusão das favelas e dos subúrbios como protagonistas-territoriais em oposição à Zona Sul - vide o sucesso de Avenida Brasil, exibida pela TV Globo em 2012 -, sobretudo após a ascensão da chamada "Nova Classe Média", conhecidamente aquela que reside em locais até então banidos como estrelas dessas produções.

O tema musical, composto e interpretado
por Tom Jobim e Chico Buarque, virou clássico
Quem mora no Rio, sabe que a Tijuca está no limbo da geografia carioca: não é Zona Sul, nem Subúrbio. Um meio termo? Aldir Blanc já comentou sobre isso certa vez: "A verdade é que o Tijucano vive num dilema desgraçado. Considerado semi-ipanemense pelos suburbanos e tido como meio suburbano pelos ipanemenses, o Tijucano passa momentos difíceis num bairro impreciso". Numa cultura onde as telenovelas retratam extremos e caricaturas, ainda que travestidos de simulacros da realidade, incluir a Tijuca e sua gente nessas histórias é uma tarefa delicada dependendo da trama que se queira contar.

Com base nisso que o autor Gilberto Braga inovou ao escrever a minissérie Anos Dourados, exibida pela TV Globo em maio de 1986. Ambientada na Tijuca, a história explora a rotina de uma típica família de classe média tijucana do final dos anos 1950. Os protagonistas, vividos por Malu Mader (Lurdinha) e Felipe Camargo (Marcos) - ela normalista do Instituto de Educação, ele, aluno do Colégio Militar -, moram nos arredores da Praça Afonso Pena (Marcos, por exemplo, habitava um apartamento na Rua Pardal Mallet) e são apaixonados um pelo outro. Assistem a filmes de mãos dadas no Cinema Carioca, na Praça Saenz Peña, e circulam pelas ruas, clubes e sorveterias do bairro tal qual os jovens daquela época "dourada". A minissérie ainda retrata a forte presença de militares na Tijuca, como o Major Dornelles (José de Abreu) e o Brigadeiro Campos (José Lewgoy).

Glória (Betty Faria) era uma mulher desquitada que morava na Rua Pardal Mallet e trabalhava como caixa
de uma boate em Copacabana. Teve um relacionamento amoroso extraconjugal com o
Major Dornelles (José de Abreu).

A tensão de Anos Dourados consiste no amor proibido do casal: Marcos é filho de uma mulher desquitada (Glória, encarnada por Betty Faria), algo mal visto pelos pais da moça, os conservadores Doutor Carneiro e Celeste, vividos pelos falecidos atores Cláudio Côrrea Castro (tijucano na vida real; residia na Rua Silva Guimarães até poucos anos antes de sua morte) e Yara Amaral. O conservadorismo impresso à figura do bairro é o ponto alto da história para retratar uma época de valores ambíguos: o drama de sociedade altamente tradicional em meio ao boom econômico e modernista de um agitado panorama político baseado na queda de Getúlio Vargas e na posse do visionário ex-presidente Juscelino Kubitscheck.

Em 17 de março de 1986, o "Segundo Caderno" do Jornal O Globo falou pela primeira vez sobre a mudança de cenário da então novata telenovela:
"Entre 1956 e 1958. Esses são 'Os anos dourados', minissérie que Gilberto Braga está escrevendo e que estréia no dia 28 de abril, às 22 horas, na TV Globo. Não se iludam, porém, telespectadores: em vez da lista das dez mais elegantes ou do charme da burguesia da época, o autor optou por uma família da classe média da Tijuca, moralista, lacerdista e reprimida. Cadê o glamour, perguntarão os fãs de Gilberto Braga: ele está nas festas de formatura com grandes orquestras, festinhas de fim de semana com pentras, casamento com espadas cruzadas e carro de noiva, bolinação em cinema e a eterna discussão entre lacerdistas e juscelinistas".
Na mesma reportagem, Gilberto Braga explicou que viveu de perto os preconceitos e moralismos da época, pois nasceu e viveu na Tijuca durante a infância. Segundo ele, quem vivia nas redondezas da Praça Saenz Peña, os tijucanos tinham "verdadeiro pavor da Zona Sul, vista como sinônimo de transviados, curras e moças na praia com maiô de duas peças":
"Quando minha mãe se mudou para Copacabana, meu avô disse: Você vai levar seus filhos para a boca do lobo?"
O tema musical da minissérie, composto e interpretado por Tom Jobim e Chico Buarque, virou um clássico, assim como a produção audiovisual que lhe deu o nome. Reprisada diversas vezes pela TV Globo e, recentemente, pelo Canal Viva (em 2013), o DVD de Anos Dourados, com aproximadamente 430 minutos de duração, foi lançado há pouco mais de dez anos e até hoje é encontrado à venda no mercado. Desde então, a Tijuca se consolidou de vez como o bairro mais bem representante dos anos dourados, do mesmo modo que a minissérie se tornou referência para entender a história e os costumes de um bairro que, apesar de visto como moralista, também destilava a sua ingenuidade. Cabe mencionar, como destaque, a abertura da novela, filmada no Instituto de Educação.

 

No Leblon de Manoel Carlos, a Tijuca também teve vez

O bairro xodó de Manoel Carlos, autor de telenovelas clássicas como Por Amor (1997) e Laços de Família (2000), sem dúvidas, é o Leblon, situado na Zona Sul do Rio. Suas protagonistas, as heroínas Helenas, em geral são moradoras do badalado bairro, têm vidas financeiramente estáveis e amorosamente conturbadas, algo que enche os telespectadores de suspiros e, em outro extremo, de antipatias. O que muitos não sabem é que duas de suas Helenas são ex-tijucanas, detalhe comentado nos diálogos destas próprias produções.

Maria Eduarda (Gabriela Duarte) e Helena (Regina Duarte),
de Por Amor, moravam no Leblon, mas eram tijucanas

A Helena vivida por Regina Duarte, em Por Amor (1997), vivia na Tijuca até se divorciar do primeiro marido, o alcoólatra Orestes (Paulo José), com quem teve a filha Maria Eduarda (Gabriela Duarte). A vida deles na Tijuca não é mostrada na história, pois no momento em que é ambientada o casal já havia se separado e Helena, portanto, residia no Leblon com a filha, tal como é de praxe nas tramas de Maneco. Mesmo assim, a personagem mantinha laços afetivos estreitos com os ex-vizinhos da Tijuca, Mafalda (Beatriz Lyra) e Antenor (Umberto Magnani), pais de César (Marcelo Serrado), amigo de infância de Eduarda e apaixonado por ela.

Vale a pena citar a cena em que César encontra Eduarda no restaurante japonês, logo nos primeiros capítulos. A moça, já casada com um ricaço, se mostra constrangida com sua origem "classe média" ao reencontrá-lo na presença da sogra Branca, encarnada por Suzana Vieira. César se apresenta como o "amigo" de Maria Eduarda que cresceu com ela na Tijuca. Abalada, a moça procura uma contrapartida e "diz que morou só um tempinho na Tijuca", anunciando que "seu avô era dono de praticamente toda a Tijuca".


César, cuja profissão era a de médico obstetra, parece ter sido um personagem construído para ser essencialmente tijucano. Ou, pelo menos, conforme aquele tipo de tijucano descrito nas crônicas do Tutty Vasques: apegado à família, bom moço, tímido, hesita ao falar, cavalheiro e nada malicioso.

Além de Por Amor (1997), a Helena vivida por Christiane Torloni em Mulheres Apaixonadas (2003) também era originalmente tijucana. Em um dos capítulos, ela conversa com as irmãs Hilda e Heloísa sobre a juventude que tinham na Tijuca, em tom nostálgico. Além disso, a primeira Helena de Manoel Carlos, vivida por Lilian Lemmertz em Baila Comigo (1981), não só era tijucana como grande parte da história se passava na Tijuca, conforme declaração do próprio à "Revista da TV" do jornal O Globo de 12 de janeiro de 2014.

A última referência da Tijuca nas novelas do autor foi em Viver a Vida (2009), com as personagens Renata (Bárbara Paz) e Regina (Cris Nicollotti), que viviam em um confortável apartamento no bairro. Regina, na profissão de astróloga, mantinha uma clientela formada pelo núcleo Zona Sul da novela, cuja filha, bulímica e alcoólatra, namorava um dos mocinhos, Miguel (Mateus Solano).


Em certo capítulo, Miguel leva Renata para à casa dela e pergunta se ela sempre havia morado na Tijuca. "Desde que nasci", responde ela, emburrada, meio blasé. Miguel, por sua vez, diz que "tem vontade de sair daquele caos da Zona Sul e ir morar no caos da Zona Norte", em tom jocoso. Estacionam numa rua arborizada e sofisticada, que parece ser a Rua Homem de Melo, e a sogra os recebe de um jeito extrovertido, beirando o popularesco e a caricatura. Regina oferece um pedaço de queijo ao genro, que, segundo ela, estava bem fresquinho e comprado pouco antes na Feira de São Cristóvão naquela manhã. Neste diálogo, o autor dá pistas sobre o olhar distanciado de quem não vivencia o bairro, reafirmando a posição territorial da Tijuca fora do circuito principal da novela associando seu estilo de vida a quaisquer referências que remetam à Zona Norte da cidade.

Outras curiosidades:
  • Nas novelas de Manoel Carlos, a Tijuca é tratada como um bairro sem estigma de Zona Norte. Não só as Helenas foram ex-tijucanas, assim como muitos personagens de História de Amor (1995), Por Amor (1997) e Laços de Família (2000) se referiam à Tijuca como um bairro no qual os personagens circulavam eventualmente.
  • Gilberto Braga, em suas outras produções, no entanto, deu caracteres pejorativos ao seu bairro de origem. Em Paraíso Tropical (2007), a socialite Marion (Vera Holtz) diz, em determinado capítulo, que tem horror "às terras além da Praça da Bandeira". Já a Alice de Guilhermina Guinle caçoa do jeito retrógrado e recatado de uma das personagens, chamando-a de  "normalista tijucana".

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