25 de jul de 2015

Rua Conde de Bonfim 186: um endereço de metamorfoses

Rua Conde de Bonfim 186: endereço emblemático que já concentrou diversas ocupações emblemáticas para a Tijuca.

O terreno da Rua Conde de Bonfim entre as ruas Conselheiro Zenha e Visconde de Figueiredo poderia ser considerado como parte de um endereço repleto de metamorfoses. Do século XIX até os dias de hoje, o número 186 da principal artéria tijucana já teve nada menos que sete ocupações distintas, todas muito simbólicas para a cultura local do bairro: de residência aristocrática no século XIX, já foi colégio tradicional, loja de departamentos e atualmente abriga a filial de um supermercado. 

Créditos: Fernando França Leite (Grupo Tijuca de todos os tempos)

Na segunda metade do século XIX, quem vivia no referido terreno da prestigiada Rua Conde de Bonfim era ninguém mais, ninguém menos, que Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, que dá nome ao município da região metropolitana fluminense. O militar morou nesse belo palácio até o dia de sua morte em maio de 1880, cujo funeral, segundo relatos, parece ter sido um grande acontecimento não só para a Tijuca assim como para toda a cidade:

Nove de maio de 1880 - Funerais do duque de Caxias: Às nove horas da manhã regurgitava o solar do duque de Caxias, na rua Conde de Bonfim, confluência das atuais Visconde de Figueiredo e Salgado Zenha. Ia sair o enterro do grande homem que fez jus em vida às homenagens até hoje prestadas pela Pátria: o único duque da nossa aristocracia (...) Tudo simples, para obedecer ao testamento do ilustre morto. Mas o acompanhamento foi sem dúvida o mais numeroso a que a cidade assistira. Ao chegar o coche ao cemitério de São Francisco de Paula, em Catumbi, ainda se enfileiravam carros para o cortejo em Conde de Bonfim. Logo após o coche fúnebre, iam 16 moços de estribeira e outro coche, com a coroa do duque, envolta em crepe e os símbolos militares com que invariavelmente conduziu o Brasil ao caminho da vitória: a espada, as dragonas, o talim, a banda e o chapéu... (trecho de Tijuca, de rua em rua [Editora Rio, 2004], de Lili Rose e Nelson Aguiar, páginas 118-119)

Supõe-se que logo após a morte do Duque de Caxias é que a sua então residência tenha virado sede do Club da Tijuca, no final do século XIX e início do século XX. Infelizmente, não existem muitas informações a respeito desse clube. Pesquisá-lo no Google, por exemplo, é tarefa complicada, já que o sistema de pesquisa acaba remetendo todos os resultados da busca ao Tijuca Tênis Clube por causa da semelhança entre os nomes. No grupo do Facebook Tijuca de todos os tempos, de onde tirei grande parte dessas imagens, ninguém soube me responder a respeito deste enigmático club.

Imagem do departamento feminino do Instituto La-Fayette, na Conde de Bonfim
Créditos: Fernando França Leite (Grupo Tijuca de todos os tempos)

Contudo, foi a partir de 1916 quando a Conde de Bonfim 186 tornou-se endereço de uma das mais emblemáticas instituições educacionais da Tijuca: o extinto Instituto La-Fayette. Com duas filiais na Tijuca e outra em Botafogo (na praia, esquina de Visconde de Ouro Preto), a ala feminina do La-Fayette estudava na Conde de Bonfim, enquanto a ala masculina ficava na Rua Haddock Lobo, no mesmo prédio onde hoje funciona a Fundação Bradesco. Para Felipe Torreira, do blog Pileque, que publicou um post de memórias incríveis do referido colégio em dezembro de 2008 (vale a pena ler também os comentários de leitores), o Instituto La-Fayette era um colégio antológico, histórico, e tijucano. Vive na memória dos moradores até hoje com muito orgulho. Afortunados são os que vestiram aquele uniforme. O prestígio inquestionável do colégio fez com que a charmosa rua que margeia a Pedra da Babilônia e o Colégio Militar, nas imediações da Rua São Francisco Xavier, ganhasse em 1947 o nome do fundador da instituição: Professor Lafayette Côrtes.

Reprodução: O Globo, 26 abril de 1981.

Fachada da Mesbla, na Tijuca
Após um misterioso incêndio nos anos 1970, o prédio do Instituto La-Fayette foi infelizmente demolido para dar lugar, em abril de 1981, à nova filial da também extinta loja de departamentos Mesbla. O novo edifício, modernoso para os anos 1980, em nada lembrava o simpático solar onde residiu o Duque de Caxias. Sinônima de vitrines elegantes e mercadorias para todos os bolsos, a Mesbla funcionou na Rua Conde de Bonfim 186 por quase 19 anos, quando em agosto de 1999 fechou as suas portas após ter tido a falência de toda a rede decretada. Na edição do dia 26 de agosto daquele ano, reportagem do caderno "Tijuca", de O Globo ("Magazine na memória da vizinha", 26 ago. 1999) coletou depoimentos de moradores sobre o fechamento da loja:

O lugar era ideal porque, se uma das duas se atrasava, a outra podia dar uma voltinha pela loja para passar o tempo. Afinal, a diversão preferida das mulheres é olhar vitrine (Maria Aurélia Castro, dona de casa, usava a Mesbla como ponto de encontro com a filha, Luciana)

Não gosto de lojas de departamento. Estão sempre cheias e com pouca variedade. Já na Mesbla era diferente. Eu adorava passear nos corredores e sempre acabava comprando alguma coisa (Luciana Castro, tijucana, filha de Maria Aurélia).

Apesar de a tendência ser o fim dos cinemas de rua, gostaria de ver algo no estilo do Estação, com um espaço moderno, filmes alternativos, café e livraria. É disso que o bairro precisa (Roberto Santos, publicitário).

Eles estão por toda parte. É difícil competir com um mercado que vende de tudo: alimentos, eletrodomésticos, roupas e utensílios para o lar. Lamento o fim da Mesbla, mas só os grandes sobrevivem (Lino Souza Gomes, aposentado, que previu o surgimento de um hipermercado no local).

Reprodução: O Globo, 26 de agosto de 1999.
Hipermercado Bon Marché Magazine, inaugurado na Conde de Bonfim 186 no ano 2000.

Foi a partir do ano 2000 quando o número 186 da Rua Conde de Bonfim entrou para a era dos supermercados. Na mesma época, grandes terrenos e edifícios importantes do bairro passaram por esse mesmo processo, como a antiga Companhia Hanseática, na Rua José Higino, transformada num Hipermercado Extra 24 Horas. Na Conde de Bonfim, o mercado inaugurado por lá foi o igualmente falido Bon Marché, do Grupo Pão de Açúcar, que encerrou suas atividades no local por volta de 2005 para dar lugar à filial da tradicional Casas Sendas, braço também pertencente ao GPA a partir de meados da década passada.

Casas Sendas, na Conde de Bonfim com Visconde de Figueiredo, durou até 2011.


O atual Supermercado Extra, na Conde de Bonfim 186 (imagem de 2015).

Entre 2010 e 2011, a marca Sendas foi trocada gradativamente por Extra e Pão de Açúcar. Havia uma expectativa de que essa filial da Conde de Bonfim fosse transformada em uma loja do Pão de Açúcar, já que a filial da Rua Uruguai havia fechado anos antes, sobrando apenas a loja da Praça Afonso Pena, que continua funcionando normalmente. No entanto, as únicas Sendas transformadas em Pão de Açúcar foram aquelas situadas em bairros turísticos, como Leblon e Copacabana. Assim, desde o início desta década, a Rua Conde de Bonfim 186 vem abrigando uma sucursal do Supermercado Extra.

Rua Conde de Bonfim 186: um endereço de metamorfoses. Depois desta retrospectiva, só nos resta aguardar as cenas dos próximos capítulos; se o endereço fizer jus ao seu perfil de transformações, o Supermercado Extra dará lugar a outro empreendimento muito em breve.

2 comentários:

olinio coelho disse...

Parabéns pelo texto publicado.

DataFogo disse...

Boa tarde, Pedro Paulo.
Tijucano antigo, tenho em meus apontamentos as seguintes destinações do imóvel da Rua Conde de Bonfim, 186:
Palacete do Duque de Caxias - Club da Tijuca - Lyceu Rio Branco (1918) - Instituto La-Fayette (21/06/1920) - Mesbla Tijuca - Hipermercado Bon Marché - Casas Sendas - Extra Supermercado.

Saudações Tijucanas,
Claudio Falcão

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...