18 de set de 2015

"Saguão na Tijuca", por Clarice Lispector

Na Zona Norte sopra um vento quente, um siroco. No saguão cinco moças sem cor já tomaram o banho da tarde, os cabelos secam ao siroco. Têm olhos pretos, braços redondos e bocas desbotadas. Elas são as filhas. Para que falar? Sentai-vos e tocai vossas guitarras. Não há nada a lhes dizer. Ali não há nada a salvar. Nem tudo simboliza alguma coisa, e isso é tão importante como o oposto. São apenas cinco moças de boca desbotada que deixo no saguão mesmo, e que lá fiquem. E se não quiserem ficar, que saiam. Cinco moças sem cor simbolizam cinco moças sem cor. Eis que estou vendo esse harém de bocas desbotadas, e sem crueldade ou amor à seleção natural, não me politizo, não me poetizo, não acho que está certo ou errado; está é isso mesmo.
Mas o siroco, sim, traz cavalos e areias, vindos do deserto.
Clarice Lispector 
Crônicas para jovens: do Rio de Janeiro e seus personagens. Organização Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2011. pp. 107-108. 

10 de set de 2015

E os food trucks chegaram à Tijuca: "podrões", agora, na versão gourmet

Nhac Food Truck, especializado em sanduíches de linguiça e espetinhos de mignon: aos domingos, na Afonso Pena

Reduto de "podrões", a Tijuca agora tem novos concorrentes na gastronomia de rua. São os food trucks, modelo comercial de lanches importado dos Estados Unidos. Institucionalizado pela prefeitura recentemente, os food trucks são veículos formados por trailers, furgões, camionetes ou caminhões adaptados. Em geral, funcionam como cozinhas móveis de dimensões pequenas e sobre rodas que transportam e vendem alimentos de forma itinerante.

O diferencial entre os podrões e os food trucks tem a ver com o empreendedorismo e o selo "gourmet" dos lanches. Enquanto os podrões apostam em comidas tradicionais como hambúrgueres e cachorros-quentes, operados usualmente por trabalhadores informais, os food trucks são geridos por pequenos e jovens empresários. Através de uma identidade visual marcante, como a dos furgões nova-iorquinos, oferecem opções mais inovadoras de lanches e com prestação de serviço que aposta na estética e na personalização.

O Joe's Pub, que estreou nessa última quarta-feira (9 de setembro) na Praça Saens Peña, apresentava uma versão mais exótica do cachorro-quente aos comensais que por lá passavam: pão de cerveja pilsen recheado de linguiça alemã levemente defumada com molho à base de cheddar e cubos de bacon. Tudo por R$ 18.

Food truck de sorvetes e milk shakes em Manhattan, Nova York: ideia importada

Dogaria, às quintas na Saens Peña: aposta em branding chamativo e com inspirações nova-iorquinas

A cada dia da semana, food trucks de marcas e cardápios diferentes serão estacionados em três locais instituídos especialmente para tal atividade: Praça Saens Peña, Praça Afonso Pena e Praça Xavier de Brito. Na primeira, haverá duas camionetes por dia: uma em frente à Unidade de Ordem Pública (UOP), perto da General Roca, e outra na Conde de Bonfim em frente ao número 218. Na Afonso Pena também serão dois pontos. Além da Tijuca, bairros da região como Grajaú e Vila Isabel também foram contemplados no rol de food trucks.

O horário de funcionamento tem se restringido à hora do almoço, no entanto - pelo menos nesta fase inicial. Além disso, chama a atenção que a Praça Varnhagen, principal reduto gastronômico da Tijuca, não tenha sido inclusa no roteiro de food trucks do bairro.

Ainda é cedo para opinar sobre o sucesso ou não dos food trucks na Tijuca, mas cabe mencionar que a Prefeitura e a imprensa vêm investindo incansavelmente em publicidades e afins. Pode-se dizer que essa investida seja mais um dos reflexos da propagação de um novo perfil de consumo na cidade. Tratando-se de uma releitura "gourmetizada" (na linguagem da moda) dos tradicionais podrões, resta esperar se o tijucano continuará fiel às carrocinhas populares de cachorro-quente (marca registrada do bairro) ou se se renderão aos encantos hype dos food trucks nova-iorquinos.

Praça Afonso Pena (dois pontos)
Domingo: Larica + Nhac
Terça: Roma in Rio
Quarta: Dukese Winehouse + Panzerotti
Quinta: Bão Dimais
Sexta: Graviola + Upgrade
Sábado: Jay Jay + The Pub Truck

Praça Xavier de Brito
Domingo: Brauni
Segunda: Descolado
Quarta: Gula Gula Sobre Rodas
Quinta: Garage 66
Sexta: The Black Box
Sábado: Mosteirinho

Praça Saens Peña - UOP
Domingo: Pilequinho
Segunda: Baguel Store
Terça: Cogu Cogumelo
Quarta: Joe's Pub
Quinta: Dogaria
Sexta: Paris Gourmet
Sábado: Kell's Burguer

Praça Saens Peña - Conde de Bonfim 218
Terça: Santé
Quarta: Devorarte
Sexta: Rio Food Truck Bar
Sábado: Creperia Cliche

7 de set de 2015

Em vídeo, o triste fim do estúdio Herbert Richers, na Usina

Imóvel da Herbert Richers S.A., na Usina, em imagem dos anos 2000: nostalgia no mercado brasileiro de dublagens.

Na Conde de Bonfim, a extensa muralha vegetada com o letreiro HERBERT RICHERS S.A. 1331 brincou com o imaginário de muita criança que cresceu assistindo a produções estrangeiras dubladas da TV. Marca registrada do estúdio de dublagem homônimo situado na Usina, a expressão "Versão Brasileira, Herbert Richers" entoava a cada início de episódio de Capitão Planeta, Alf - O Eteimoso, A Família Dinossauros etc., além de filmes e telenovelas mexicanas como Um tirada pesada e A Usurpadora

Criada nos anos 1950 pelo empresário e produtor de cinema Herbert Richers, parceiro de Walt Disney, o estúdio conseguiu se tornar uma referência nacional na dublagem brasileira. Chegou a dominar 80% do mercado desse mercado no Brasil por várias décadas, empregando, em determinada época, mais atores e atrizes do que a própria Rede Globo. Era nos estúdios da Herbert Richers, aliás, onde a Globo filmava parte de suas novelas e minisséries antes de construir o Projac, principalmente nos anos de 1970 e 80.

Com a morte do seu fundador em novembro de 2009, dívidas surgiram e as atividades no local foram encerradas, dando início ao processo de deterioração do imóvel. Em 2012, logo após ser leiloada a uma instituição religiosa japonesa, a casa passou por um incêndio misterioso que prejudicou as instalações e, especialmente, o seu acervo. 

Marcio Seixas de Volta à Herbert Richers.


Dos tempos de ouro, restaram apenas a memória e a nostalgia. É o que mostrou, em vídeo exclusivo, o ator e dublador Marcio Seixas, dono da voz emblemática da Herbert Richers. Em visita ao imóvel neste mês de setembro, vimos um Seixas emocionado em regressar à empresa onde trabalhou por 24 anos:

"Cheguei neste endereço com o recorte de jornal onde estava escrito "Herbert Richers oferece chance para quem tem boa voz e leitura em voz alta; comparecer à Rua Conde de Bonfim 1331 para seleção". Cheguei aqui antes das 8 horas da manhã, com o coração aos pulos. Parei diante deste portão e fiz assim: "Meu Deus, o quê me espera aqui dentro?" Pedi a Deus que me encaminhasse, que guiasse a minha voz, que me abrisse a porta desta empresa para trabalhar", relatou ele, que durante muitos anos morou no edifício ao lado do estúdio.

Entrada da Herbert Richers, em 1988, com figurantes da Rede Globo: gravações de novela ocorriam em espaço anexo ao estúdio.

O clima de melancolia atinge não só os antigos artistas que fizeram parte do time da Herbert Richers, como também os tijucanos. O número 1331 da Conde de Bonfim, tal qual o vídeo de Seixas ratifica, se trata hoje de um imóvel coberto por plantas em todo o seu terreno. Segundo informações do jornal O Dia, insetos e morcegos ocupam os corredores do extinto estúdio, além do cheiro de material incendiado ainda permear grande parte das salas.

Para o cineasta Gustavo de Brito Colombo, morador e ativista pela volta dos cinemas de rua do bairro, a Herbert Richers representa mais um tipo de ruína do audiovisual tijucano:

"Além das salas de cinema desconfiguradas na forma de shoppings, farmácias ou igrejas, a Herbert Richers representa outro tipo de ruína do circuito audiovisual do bairro. Ouvindo "versão brasileira Herbert Richers" é como acredito que a maioria dos estudantes que realmente se apaixonaram por cinema e TV quiseram em suas casas e, ainda crianças, tentar reproduzir ou emular as mesmas narrativas pela primeira vez".

Colombo sugere ainda que o local seja preservado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade com algum tipo de sinalização ou destinação de uso de atividades dedicadas exclusivamente ao ramo audiovisual. Seria uma medida minimamente coerente com a importância da Herbert Richers para o entretenimento brasileiro e para a Tijuca, bairro-sede da empresa. 

3 de set de 2015

Racionalização dos ônibus cariocas afetará conexão da Tijuca com Copacabana, Ipanema e Leblon via ônibus

A tradicional 415 (em foto de 2004), que liga a Usina ao Leblon,
passará a operar apenas até a Candelária
De acordo com o novo plano da Prefeitura, a Tijuca deixará de ter conexão direta via ônibus com os bairros praianos de Copacabana, Ipanema e Leblon. Divulgado pela imprensa na última semana de agosto, o projeto de racionalização das linhas de ônibus que circulam por essa área da zona sul prevê a eliminação de 33 itinerários e a redução de outros 21 a partir de outubro deste ano.

Linhas que passam pela zona sul oriundas tanto da zona oeste como da zona norte serão afetadas, mas com especial impacto na última. Na região da Tijuca, operada pelo Consórcio Intersul (grupo de empresas de ônibus que atuam na Zona Sul e Tijuca/Vila Isabel), grande parte das linhas que faz esse trajeto será encurtada: 413 (Muda-Jardim de Alah), 415 (Usina-Leblon), 426 (Usina-Jardim de Alah), 432 (Vila Isabel-Gávea), 433 (Vila Isabel-Leblon), 435 (Grajaú-Gávea) e 464 (Maracanã-Leblon).

Na Tijuca, em especial, as linhas 413 e 415 operarão até o Castelo e Candelária, respectivamente, enquanto a 426 viajará somente até o Mourisco, na Praia de Botafogo. Já a linha 411 (Usina-Prado Júnior), criada em 2011 como variação da 415, será extinta até dezembro. A ideia da Prefeitura é que os passageiros façam baldeações para chegarem aos seus destinos finais. Segundo informações da Secretaria Municipal de Transportes, atualmente existem muitas linhas sobrepostas que operam com menos de 50% de sua capacidade na zona sul, quando o ideal seria um valor aproximado a 80%.

Mesmo com um arsenal de informações técnicas que justifica a efetuação desse plano, é indispensável refletir sobre os impactos qualitativos da medida. Ainda que a Tijuca seja atendida por quatro estações de metrô, o que nos caracteriza como um bairro integrado relativamente bem com a zona sul (no caso em questão), os ônibus ainda representam 60,5% das viagens diárias realizadas na metrópole do Rio de Janeiro. Além disso, ainda são o único meio de transporte que operam durante a madrugada.

Uma análise rápida do projeto permite-nos inferir que se trata, em primeiro lugar, de um plano de racionalização voltado exclusivamente para facilitar a vida do turista. Em substituição às linhas extintas e itinerários reduzidos, serão criadas linhas especiais na zona sul chamadas de "troncais" e "articuladas", que prometem abarcar todo o fluxo de passageiros de maneira mais "eficiente".

Em segundo lugar, tendo em vista a recente coibição policial em ônibus oriundos da zona norte - em especial, do subúrbio - de chegarem às praias, é provável que tal medida seja uma forma também de dificultar o acesso da população de áreas "pobres" às "ricas". Problematizei as possíveis questões sociais enredadas nesse jogo em artigo publicado no último 27 de agosto no portal do Observatório das Metrópoles. Juciano Martins Rodrigues, especialista em mobilidade urbana e colega de trabalho, foi o co-autor.

Os impactos na Tijuca

Na nossa perspectiva, cabe destacar que, se por um lado, o plano “racionaliza” os coletivos na zona sul, por outro, contribuirá, na Tijuca, com o aumento de itinerários repetidos – aparentemente, o objeto de combate da Prefeitura nos corredores viários daquela região. As linhas 413 e 415, duas das três afetadas no bairro, viajarão apenas até o Centro da cidade (ao invés do Jardim de Alah e do Leblon, destinos originais).

Assim sendo, por qual razão manter duas linhas que se estendem somente até o Centro se o bairro já conta com outros itinerários que cobrem o mesmo trajeto? Temos, como exemplos, e em frequência regular, as linhas 220 (Usina-Praça Mauá), 229 (Usina-Castelo), 325 (Barra da Tijuca-Praça Mauá), 217 (Andaraí-Carioca), entre outras que suprem essa demanda.

Em 27/08/2015, O Globo-Tijuca falou sobre a ausência de linhas de transporte para a Zona Sul via Rebouças.

O novo projeto, além de impactar a qualidade da conexão entre a Tijuca e a zona sul, duas importantes centralidades do Rio, parece não levar em conta a proximidade geográfica entre essas regiões através dos túneis. A linha 415 poderia ser muito mais eficiente se conectasse a Usina ao Leblon através do Túnel Rebouças. Entretanto, tradicionalmente percorre toda a Avenida Presidente Vargas e o Aterro do Flamengo para chegar até lá. Itinerário mais longo, portanto, mais engarrafamentos. Concordam?

Chama a atenção que o projeto original de racionalização dos ônibus divulgado em março deste ano não tenha sido mais noticiado pela grande imprensa recentemente. Nas primeiras reportagens, noticiou-se que o Maracanã concentraria um terminal rodoviário de onde sairiam ônibus troncais em direção à zona sul passando pela Rodoviária e pelo Túnel Rebouças. Sim, o ônibus passaria pela Rodoviária antes de seguir para a zona sul. Resta ainda alguma dúvida de que os ônibus passarão a ter fins exclusivamente turísticos em detrimento da mobilidade da população?

As linhas 409 (Saens Peña-Horto) e 410 (Saens Peña-Gávea), entre outras que circulem pelo corredor viário Botafogo-Humaitá-Jardim Botânico, continuarão operando normalmente.

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