3 de set de 2015

Racionalização dos ônibus cariocas afetará conexão da Tijuca com Copacabana, Ipanema e Leblon via ônibus

A tradicional 415 (em foto de 2004), que liga a Usina ao Leblon,
passará a operar apenas até a Candelária
De acordo com o novo plano da Prefeitura, a Tijuca deixará de ter conexão direta via ônibus com os bairros praianos de Copacabana, Ipanema e Leblon. Divulgado pela imprensa na última semana de agosto, o projeto de racionalização das linhas de ônibus que circulam por essa área da zona sul prevê a eliminação de 33 itinerários e a redução de outros 21 a partir de outubro deste ano.

Linhas que passam pela zona sul oriundas tanto da zona oeste como da zona norte serão afetadas, mas com especial impacto na última. Na região da Tijuca, operada pelo Consórcio Intersul (grupo de empresas de ônibus que atuam na Zona Sul e Tijuca/Vila Isabel), grande parte das linhas que faz esse trajeto será encurtada: 413 (Muda-Jardim de Alah), 415 (Usina-Leblon), 426 (Usina-Jardim de Alah), 432 (Vila Isabel-Gávea), 433 (Vila Isabel-Leblon), 435 (Grajaú-Gávea) e 464 (Maracanã-Leblon).

Na Tijuca, em especial, as linhas 413 e 415 operarão até o Castelo e Candelária, respectivamente, enquanto a 426 viajará somente até o Mourisco, na Praia de Botafogo. Já a linha 411 (Usina-Prado Júnior), criada em 2011 como variação da 415, será extinta até dezembro. A ideia da Prefeitura é que os passageiros façam baldeações para chegarem aos seus destinos finais. Segundo informações da Secretaria Municipal de Transportes, atualmente existem muitas linhas sobrepostas que operam com menos de 50% de sua capacidade na zona sul, quando o ideal seria um valor aproximado a 80%.

Mesmo com um arsenal de informações técnicas que justifica a efetuação desse plano, é indispensável refletir sobre os impactos qualitativos da medida. Ainda que a Tijuca seja atendida por quatro estações de metrô, o que nos caracteriza como um bairro integrado relativamente bem com a zona sul (no caso em questão), os ônibus ainda representam 60,5% das viagens diárias realizadas na metrópole do Rio de Janeiro. Além disso, ainda são o único meio de transporte que operam durante a madrugada.

Uma análise rápida do projeto permite-nos inferir que se trata, em primeiro lugar, de um plano de racionalização voltado exclusivamente para facilitar a vida do turista. Em substituição às linhas extintas e itinerários reduzidos, serão criadas linhas especiais na zona sul chamadas de "troncais" e "articuladas", que prometem abarcar todo o fluxo de passageiros de maneira mais "eficiente".

Em segundo lugar, tendo em vista a recente coibição policial em ônibus oriundos da zona norte - em especial, do subúrbio - de chegarem às praias, é provável que tal medida seja uma forma também de dificultar o acesso da população de áreas "pobres" às "ricas". Problematizei as possíveis questões sociais enredadas nesse jogo em artigo publicado no último 27 de agosto no portal do Observatório das Metrópoles. Juciano Martins Rodrigues, especialista em mobilidade urbana e colega de trabalho, foi o co-autor.

Os impactos na Tijuca

Na nossa perspectiva, cabe destacar que, se por um lado, o plano “racionaliza” os coletivos na zona sul, por outro, contribuirá, na Tijuca, com o aumento de itinerários repetidos – aparentemente, o objeto de combate da Prefeitura nos corredores viários daquela região. As linhas 413 e 415, duas das três afetadas no bairro, viajarão apenas até o Centro da cidade (ao invés do Jardim de Alah e do Leblon, destinos originais).

Assim sendo, por qual razão manter duas linhas que se estendem somente até o Centro se o bairro já conta com outros itinerários que cobrem o mesmo trajeto? Temos, como exemplos, e em frequência regular, as linhas 220 (Usina-Praça Mauá), 229 (Usina-Castelo), 325 (Barra da Tijuca-Praça Mauá), 217 (Andaraí-Carioca), entre outras que suprem essa demanda.

Em 27/08/2015, O Globo-Tijuca falou sobre a ausência de linhas de transporte para a Zona Sul via Rebouças.

O novo projeto, além de impactar a qualidade da conexão entre a Tijuca e a zona sul, duas importantes centralidades do Rio, parece não levar em conta a proximidade geográfica entre essas regiões através dos túneis. A linha 415 poderia ser muito mais eficiente se conectasse a Usina ao Leblon através do Túnel Rebouças. Entretanto, tradicionalmente percorre toda a Avenida Presidente Vargas e o Aterro do Flamengo para chegar até lá. Itinerário mais longo, portanto, mais engarrafamentos. Concordam?

Chama a atenção que o projeto original de racionalização dos ônibus divulgado em março deste ano não tenha sido mais noticiado pela grande imprensa recentemente. Nas primeiras reportagens, noticiou-se que o Maracanã concentraria um terminal rodoviário de onde sairiam ônibus troncais em direção à zona sul passando pela Rodoviária e pelo Túnel Rebouças. Sim, o ônibus passaria pela Rodoviária antes de seguir para a zona sul. Resta ainda alguma dúvida de que os ônibus passarão a ter fins exclusivamente turísticos em detrimento da mobilidade da população?

As linhas 409 (Saens Peña-Horto) e 410 (Saens Peña-Gávea), entre outras que circulem pelo corredor viário Botafogo-Humaitá-Jardim Botânico, continuarão operando normalmente.

2 comentários:

Cristiane Fernandes disse...

Concordo totalmente!
Moro no Andaraí, e já tenho que pegar dois ônibus até a Zona Sul, além de ter de pegar ônibus se quiser pegar o metrô.
A linha expressa do metrô até o Andaraí também foi extinta...
Essa racionalização, com certeza, é feita por pessoas que não usam transporte público! E que não devem conhecer o mapa do Rio de Janeiro...

Bianca Souto disse...

Concordo com a Cristiane. Nós que moramos no Andaraí estamos jogados as traças pelo transporte. Além de só termos uma linha de ônibus, que circula por dentro do bairro, a mesma termina cedo e após a meia-noite é impossível voltar pra casa sem correr riscos, pois tem que soltar em Vila Isabel ou na Maxwell e vir andando a pé pelas ruas escuras. Rezando pra não ser assaltada ou coisa pior !

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