18 de set de 2015

"Saguão na Tijuca", por Clarice Lispector

Na Zona Norte sopra um vento quente, um siroco. No saguão cinco moças sem cor já tomaram o banho da tarde, os cabelos secam ao siroco. Têm olhos pretos, braços redondos e bocas desbotadas. Elas são as filhas. Para que falar? Sentai-vos e tocai vossas guitarras. Não há nada a lhes dizer. Ali não há nada a salvar. Nem tudo simboliza alguma coisa, e isso é tão importante como o oposto. São apenas cinco moças de boca desbotada que deixo no saguão mesmo, e que lá fiquem. E se não quiserem ficar, que saiam. Cinco moças sem cor simbolizam cinco moças sem cor. Eis que estou vendo esse harém de bocas desbotadas, e sem crueldade ou amor à seleção natural, não me politizo, não me poetizo, não acho que está certo ou errado; está é isso mesmo.
Mas o siroco, sim, traz cavalos e areias, vindos do deserto.
Clarice Lispector 
Crônicas para jovens: do Rio de Janeiro e seus personagens. Organização Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2011. pp. 107-108. 

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