14 de jan de 2016

Com tijucano não se brinca

Artur Xexéo (Reprodução: Internet)
Em 2002, o jornalista Artur Xexéo provocou a discórdia entre os tijucanos ao publicar em sua coluna do Jornal O Globo certa hipérbole quanto à criminalidade que assolava o bairro:

[...] Dizem que vivemos numa guerra civil. Não é bem assim. Numa guerra civil, como em qualquer guerra, sempre há a possibilidade de um armistício. Ou de a guerra acabar. Mas qual é a chance de o conflito que envolve cidadãos do Rio de Janeiro ter um fim? No Rio, só se vai a festas com a garantia de segurança. Ninguém nunca tem certeza de o comércio da Praça Saens Peña estar aberto. Uma vez por semana, é decretado feriado como protesto pela morte de traficante de um dos morros que cercam a Tijuca. 
XEXÉO, Artur. Vivendo numa cidade entregue a Deus. Festa com comboio protegido por seguranças? Está ficando cada vez mais difícil ser carioca. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 28 ago. 2002.

Para quem não se lembra do contexto da época, um refresco:


O Globo, 20 ago. 2002
Naquela época, a Tijuca viveu episódios violentos de grande repercussão por causa da disputa pelo tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Só em agosto de 2002, o comércio do bairro foi fechado duas vezes a mando dos líderes de facções criminosas presentes nas favelas da região. No dia 20, os comerciantes da Praça Saens Peña foram obrigados a paralisar suas atividades em luto forçado por traficante do Morro do Salgueiro morto pela PM. Dez dias antes, foi a vez das lojas da Muda e Usina, entre as ruas Medeiros Pássaro e Uruguai, baixarem suas portas por condolências a outro criminoso morto durante tiroteio com policiais no Morro da Formiga.

Assaltos, arrastões e balas perdidas também fizeram parte do cenário do bairro por pelo menos uma década. No entanto, para os tijucanos, a imprensa era injusta ao noticiar tais fatos de violência como peculiares unicamente à Tijuca, e não à cidade como um todo. Por muitos anos, ficamos estigmatizados como o único "bairro do perigo" na cidade - também chamavam-nos de "bairro decadente" - por culpa da opinião pública. Xexéo não ficou imune às críticas dos tijucanos, que, bairristas, trataram de defender seu torrão. Os depoimentos foram gentilmente publicados na coluna da semana seguinte:

[...] Acho que exagerei. Outro dia escrevi aqui que "ninguém nunca tem certeza de o comércio da Praça Saens Peña estar aberto. Uma vez por semana, é decretado feriado como protesto pela morte de traficantes de um dos morros que cercam a Tijuca". As queixas não tardaram. "Desta vez você falou besteira. A despeito da barbárie que isso significa, aconteceu apenas uma vez", assinala Paulo Roberto Granja. 
"Nós, moradores deste bairro, não temos conhecimento de que uma vez por semana o comércio da Praça Saens Peña fecha. Só se é aos domingos! Fique sabendo que esta foi a primeira vez que isto aconteceu. De outra vez foi na Rua Conde de Bonfim, perto do Borel, e não em toda a Conde de Bonfim como pensa quem lê os jornais. Seria interessante que você viesse ao nosso bairro que é tão violento quanto qualquer outro do Rio ou de outras cidades do Brasil, mesmo acompanhado de seguranças para sua maior tranquilidade, para comprovar que as pessoas aqui levam uma vida normal, andam de ônibus, vão às lojas, aos shoppings e, logicamente, saem menos à noite como em todos os demais bairros. Parece que só aqui existe violência, mas leio diariamente notícias sobre assaltos e outros crimes em vários bairros como Botafogo, Barra, Recreio, Copacabana, embora a imprensa não dá o mesmo destaque", reclama Eugenia Szoor. 
"Como o senhor pode dizer uma coisa dessas? Só porque ouviu nas duas últimas semanas essa notícia, já condenou a Tijuca para o ano inteiro? O senhor sabe muito bem quais são os cariocas mais bairristas do Rio: os moradores da Ilha do Governador, os tijucanos e, apesar de tecnicamente não serem do Rio, os icaraienses. Então, como tijucano, solicito que esclareça em sua coluna que não foi bem isso o que queria dizer", exige Roberto Oliveira. Moral da história: com tijucano não se brinca. Portanto, não foi bem isso o que eu queria dizer.

XEXÉO, Artur. Os excluídos do cabelo duro. Como não dormir de touca e enfrentar tijucanos ofendidos. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 1 set. 2002.

Segundo Caderno, O Globo, 1o set. 2002.

Os e-mails e cartas não pararam, fazendo com que o assunto rendesse por mais de duas semanas. Xexéo reservou parte de sua coluna do dia 8 de setembro de 2002 para publicar, daquela vez, o relato de um tijucano que, diferentemente dos outros, ratificava a perspectiva levantada pelo jornalista no estopim da história. O título dessa coluna era sugestivo, "Entre tijucanos e insulanos", trazendo, ainda, comentários sobre o então recém-lançado filme "Cidade de Deus":

A Tijuca é mesmo uma caixinha de surpresas. Foi só eu voltar atrás e acabar admitindo que o bairro não é tão violento quanto pintam, para aparecerem os tijucanos que não acham nada disso, muito pelo contrário. Fala que eu te escuto, Reynaldo Tavares: 
"Desculpe-me abordá-lo com um tema já comentado, porém, como tijucano, com dois filhos no Colégio Marista São José, praticantes de esportes no Tijuca Tênis Clube e que estudam inglês também no bairro, quero dizer que não posso entender a posição de avestruz tomada por meus vizinhos e citada por você em sua coluna de domingo, pois tudo que você escreveu ainda é pouco para descrever o calvário em que vivemos no bairro. Quando dizem que a vida está normal pois continuam andando de ônibus, eu digo: e sendo assaltados! A Praça Saenz Peña é, sim, uma praça de guerra até o anoitecer, pois no acender das primeiras luzes é tomada por ambulantes agressivos e protegidos por algum tipo de poder paralelo, pois nada os assusta nem lhes causa respeito. Você não aumentou nada. O inferno é aqui e agora". 
Vocês são tijucanos, vocês que se entendam. Eu tô fora. No Bairro Peixoto. 
XEXÉO, Artur. Entre tijucanos e insulanos. Uma galinha no caminho da crítica a 'Cidade de Deus'. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 8 set. 2002.

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Opinião de O PASSEADOR TIJUCANO:

O que vou falar não é novidade para nenhum tijucano, mas apenas a confirmação - somos bairristas e contraditórios. Apesar da violência ter atingido toda a cidade, de 1990 a 2007 a Tijuca foi o bairro de classe média do Rio de Janeiro mais simbolicamente atingido pela falta de segurança pública. O depoimento da primeira leva de leitores reflete a principal faceta do tijucano, a de que só quem tem o direito de falar mal ou de se referir negativamente à Tijuca são seus próprios moradores. Todas as informações que, porventura, firam a imagem do bairro são atenuadas e contra-argumentadas por meio de suas palavras. Isso fica muito claro.

O leitor da última coluna, que corrobora com a perspectiva de Xexéo, aprofundando-a conforme sua experiência enquanto espectador (e participante) desse cenário, já representa o time dos bairristas "lúcidos". Observem que antes de dar o recado, Reynaldo Tavares enumera todas os hábitos que o legitimam como um "verdadeiro tijucano" para aí, sim, criticar aquele território onde está inserido e que o pertence.

De todas as formas, Xexéo estava certo: com tijucano não se brinca.

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Feliz 2016!

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