20 de mar de 2016

Rua Adalberto Aranha

Rua Adalberto Aranha: na esquina com a Rua Antônio Salema e o Pico da Tijuca ao fundo.

Imortalizada pelo seu mais ilustre morador – o jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues –, a Aldeia Campista é mais uma daquelas regiões que entrou para o rol de bairros que não constam mais nos mapas oficiais da cidade do Rio. Como exemplos, podem ser citados os bairros Peixoto e o de Fátima, ou a Boca do Mato, no Lins de Vasconcelos. Não sei dissertar tão bem sobre o porquê de estes bairros terem tido a sua representatividade reduzida. Talvez seja pelo território diminuto ou pelo número irrelevante de habitantes, quem sabe. Ou por causa da publicidade imobiliária. Segundo a Revista da Semana de junho de 1958, é bem dizer que se mora na Tijuca e o nome do bairro também serve de chamariz nos anúncios de imóveis para venda ou aluguel, quando na verdade querem se referir ao Andaraí ou a outros bairros vizinhos... A Tijuca conserva sua pontinha de esnobismo (1).

Este é o caso da Aldeia Campista, que, além disso tudo, ninguém sabe ao certo quais são seus limites enquanto “sub-bairro”, muito embora seu conjunto de ruas tenha sido incorporado oficialmente ao território de Vila Isabel. Ou seja, toda aquela região compreendida pelas ruas Barão de Mesquita, Maxwell e Gonzaga Bastos etc., é o que se poderia chamar de Aldeia Campista. A Rua Adalberto Aranha, portanto, está nesse “miolo”.

Nessa ocasião, eu havia iniciado o meu passeio pela Rua Antônio Salema, rua perpendicular à Adalberto Aranha. Rua muito simpática, diga-se de passagem, com casinhas primorosas, que mostra de forma bastante interessante ao pedestre a dinâmica residencial nesta faixa de transição entre a Tijuca e Vila. A Aldeia Campista ainda continua sendo, de certa forma, um local majoritariamente de casas e edifícios baixinhos dos anos 1950, mas cujo boom imobiliário dos anos 1980 e 1990 fez levantar uma série de espigões que paira sozinha nos ares, em sua maior concentração nas ruas Pereira Nunes e Gonzaga Bastos. Um bando de casas rodeado por uma ilhazinha de prédios. Em outras palavras, é a herança do bairro pacato tão bem retratado nos contos rodriguianos só que contaminado pela especulação imobiliária do dileto bairro vizinho, a Tijuca, que se tornou mais verticalizado a partir dos anos 1960 e 70, principalmente devido à construção do metrô.

O detalhe das fachadas antigas: são muitas na Rua Adalberto Aranha.

Diferente do entorno, como as ruas Pereira Nunes e Gonzaga Bastos, a Rua Adalberto Aranha é
bastante arborizada: jardins com ixoras, cachos-dourados e palmeiras.

Azulejos: o charme da herança lusitana.

A Rua Adalberto Aranha é um desses exemplos de como a especulação imobiliária falou mais alto, desconfigurando, assim, muito do que devia ter existido por ali até 30 anos atrás. Mais progressista que a adjacente e mais tradicional Rua Antônio Salema, a Adalberto Aranha é não apenas sombreada pela sua arborização impecável, mas igualmente pelo corredor de edifícios que foram levantados por ali nos anos 1980. Tornou-se uma rua típica da classe média tijucana contemporânea: a mistura do velho com o novo, dos azulejos hidráulicos meio lusitanos com o vidro das varandas confortáveis no alto dos prédios, dos muros baixinhos de pedra com as grades de ferro dos portões, cujas pontas são espetadas e inibidoras à intrusão. A Paróquia Sangue de Cristo, no número 48, complementa à rua a vocação católica que Tijuca e Vila Isabel emanam na história da urbanização carioca.

Mais adiante, chama a atenção o simpático Edifício Bertioga, no número 16. A porta do edifício é uma singela entrada de madeira, peculiaríssima aos projetos hoje tidos como retrôs, e toda coberta por arabescos e pastilhas. Um mimo, como se dizia nos antanhos. Por outro lado, foi entristecedor notar o estado decadente do prédio cuja fachada foi detonada por pichadores e pelo gradeamento irregular das janelas. O próprio espaço do Bertioga com a rua, antes livre, foi cercado por um gradil moderno, que decerto mataria de desgosto o autor do projeto. É muito comum que esses edifícios antigos, no Rio como um todo, não recebam o cuidado e a atenção merecida. Sendo assim, o panorama lamentável do Edifício Bertioga não é nenhuma novidade, mas apenas a reafirmação de que nossa história e nossa arquitetura tendem a ir para o beleléu em tempos tão pouco apegados à memória como este em que vivemos.

Os arabescos do decadente, mas charmoso, Edifício Bertioga.

Na esquina com a Barão de Mesquita, o estilo dos armazéns de outrora.

Carroça de frutas: atividades comerciais tradicionais se mantêm na região.

Na Rua Barão de Mesquita, em frente à Rua Adalberto Aranha, está o 1º Batalhão da
Polícia do Exército - antigo DOI-CODI, símbolo do indecoroso Regime Militar.

Por outro lado, acho que o infortúnio é coisa apenas do Edifício Bertioga, porque a Rua Adalberto Aranha, de uma maneira geral, é bem cuidada e aprazível. Jardins suspensos recaem sobre a fachada dos prédios enquanto ixoras colorem os canteiros pelas calçadas. Mesmo estando às margens da Rua Barão de Mesquita, importante artéria da região por onde passam muitos ônibus e automóveis, a Rua Adalberto Aranha é bastante silenciosa e com clima familiar. Os transeuntes são moradores e prestadores de serviço do entorno: estudantes uniformizados, senhoras com sacolas de compras, os ciclistas com entregas das farmácias que os empregam. Enquanto caminhava pela rua, era possível até mesmo escutar conversas ecoadas lá do alto dos apartamentos – os dos primeiros e segundos pisos, é claro –, tamanho o silêncio.

A esquina com a Barão de Mesquita é onde está localizada a arquitetura de maior idade, espectadora das grandes mudanças ocorridas ao longo dos anos na Aldeia Campista. Um sobrado centenário no lado ímpar todo coberto por placas cerâmicas nas cores branca e verde, onde funciona uma clínica podológica, e um armazém, também centenário, com pé-direito alto e múltiplas portarias estreitas e arqueadas no seu topo.

Em frente, e intacto, o 1º Batalhão da Polícia do Exército, local das instalações do DOI-CODI, símbolo indecoroso do Regime Militar fincado em nossas terras. Segundo Aldir Blanc, agentes provocadores espalham, em Copacabana, que existem algumas ruas, na Tijuca, em que mora um ex-torturador para cada vinte habitantes (e desses, mais da metade apoiava, ainda que por omissão, o que o monstro fazia na época da ditadura). Não é verdade (2).

Muito além dos contos de Nelson Rodrigues, por suas calçadas estreitas e algumas ruas meio pastoris, essa Aldeia Campista oferece é coisa para ver e história para contar.

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Texto adaptado; publicação original no meu outro blog As Ruas do Rio, em 17 de fevereiro de 2014.

(1) CARDOSO, Elizabeth Dezouzart et al [Grupo de Pesquisa em Habitação do Solo Urbano - PUR - UFRJ]. Tijuca. História dos bairros / Memória urbana. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia / Index Editora, 1984.
(2) Ver prefácio do livro “Tijuca e Floresta”, da coleção Bairros do Rio, lançado pela Editora Fraiha em 2000.

2 comentários:

Fábio Carvalho disse...

Olá Pedro,
Este portal do Ed. Bertioga é uma pastiche (ou "releitura", para soar menos agressivo) do rococó, algo bem comum do período neocolonial na arquitetura brasileira, da qual a Tijuca guarda preciosidades, como o Hospital Gafrée Guinle e o Instituto de Educação, além de vários prédios residenciais e casas de família.
Parabéns pelo site, que como quase-tijucano vou aos poucos lendo com prazer.
abraços!

Felipe Mussa disse...

Já pesquisei, mas não consegui descobrir quem foi Adalberto Aranha. Sabe dizer?

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