27 de mar de 2016

Rua Pinheiro da Cunha & Rua Cotingo

Panorama da Rua Pinheiro da Cunha: arborização e edifícios baixos,
como o simpático Jardelina, no número 62, à direita.

Com desenho análogo ao de uma cauda felina, a Rua Pinheiro da Cunha fica na Usina e é transversal à Conde de Bonfim, na altura do Hospital Venerável da Ordem Terceira da Penitência (atual São Francisco). Dali, sobe uma pequena ladeirinha hoje tomada por simpáticos edifícios baixos e se encurva, onde logo adiante faz esquina com outra rua – a Cotingo, esta sim basicamente formada por casarões. Dali, metros depois se encurva novamente para erguer-se de modo linearmente tortuoso rumo à montanha. Seu final é uma cul-de-sac encravado no Maciço, em que eu e nem mesmo o Google Street View chegamos até lá. O dia estava tão abafado que preferi ficar por ali mesmo, na parte baixa, cujo circuito já dava uma boa amostra do perfil décadence avec élégance da região.

A Usina tem uma das paisagens naturais mais bonitas da Tijuca e de todo o Rio de Janeiro. Não à toa, a arquitetura local soube aproveitar essa estética ao estilo dos prédios e casas, notoriamente aburguesado e nada contemporâneo. O Edifício Geribatu, logo na esquina com a Conde de Bonfim, por exemplo, reproduz o requinte monumental dos prédios de Copacabana dos anos 1950. O gradeamento opressivo das janelas e a falta de conservação da fachada são compensados, por outro lado, pela portaria livre de cercados. Seu acesso se dá diretamente da rua, sem intermediários, tal qual em tempos remotos. Belo e maltratado, o Geribatu é um deleite para os amantes das ruas e de sua arquitetura.

Edifício Geribatu, na esquina de Conde de Bonfim: elegância de tempos passados.
Rua em "curva", cujo desenho forma uma espécie de cauda felina

Vista lateral do Edifício Jardelina, um dos mais bonitos da Pinheiro da Cunha.

Chalé suíço geminado


De mais a mais, a vegetação opulenta do entorno faz da Rua Pinheiro da Cunha uma pequena floresta. Tanto ali como na Rua Cotingo é fácil encantar-se com bananeiras, paus-brasis, ervas-de-passarinho, além de plantas ornamentais e de flores rosas, amarelas e lilases. Canteiros de diferentes tamanhos também ocupam as calçadas, adornando-as mutuamente com a beleza dos edifícios subsequentes. Chamo a atenção para o Edifício Jardelina, no número 62, que é de um mimo inexplicável. Este, aliás, é um dos raros exemplos de edifícios “clássicos” no bairro em que pouco de seus traços foi mudado. O muro baixo, além de charmoso, é sinônimo de alívio: remete-nos à sensação de estarmos livre das claustrofobias urbanas. Ali, vive-se à moda antiga e tradicional, adjetivos mais do que apropriados para a Usina.

No encontro da Pinheiro da Cunha com a Rua Cotingo, um belo casarão descortina o sombreado corredor de prédios instalado anteriormente. Segundo uma amiga que reside logo ali, na “curva”, o imóvel ficou por muitas décadas tomado por um denso matagal. Em função disto, os traços elegantes da casa escondiam-se sob a mata, hoje desvelados aos olhos do pequeno público que transita pela via. A pompa toda, decadente – diga-se de passagem –, refere-se à Tijuca da época dos solares habitados por uma classe aristocrata e influente. Sem mencionar o cenário de fundo, que reforça ainda mais o fascínio causado pelas montanhas às antigas famílias abastadas: é dali de onde são avistados mais de perto ainda os picos da Tijuca e do Papagaio.


Casario elegante na esquina da Pinheiro da Cunha com Contigo: marcas do tempo
Sinalização da Rua Pinheiro da Cunha


Panorama das espécies arbóreas da Rua Cotingo

Estilo dos casarões: linhas clássicas, amplitude, centro de terreno e quintal. 


Rua Cotingo: os "picos" ao fundo
Para além da arborização e da arquitetura, as disputas políticas também estão presentes na Rua Pinheiro da Cunha. Enquanto no adorável chalé suíço hasteia-se a bandeira vermelha referente ao Partido dos Trabalhadores, mais adiante, o posicionamento é outro. Uma divertida caricatura da presidente Dilma Rousseff riscada pelo símbolo de proibição foi pregada junto à entrada da garagem de outra aprazível residência.

Já na Rua Cotingo, as disputas ocorriam entre as aves – pelo menos no momento em que eu por ali passeava. Gaiolas nas janelas, beija-flores libertos. É sinfônico este mundo dos pássaros, permeado por assobios que ecoam por todos os cantos, de diferentes timbres. A tais melodias misturavam-se as do rádio de pilha, um pouco abafadas pelo contato estreito deste com a orelha de certo transeunte. O ruído das motocicletas a mil pela Conde de Bonfim também foi incorporado à composição. Eis o produto musical da conjunção entre a urbe e a natureza.

O estilo clássico da Rua Cotingo é marcado também por certo ar de abandono. As casas amplas e confortáveis pararam dignamente no tempo, mas sem o esmero do jardim bem cuidado ou dos cercados ainda à tinta fresca. A Rua Cotingo cheira à domingo, de manhã preguiçosa em rede de dormir e de almoço em família. Tem aspecto de rua de avó ao estilo Dona Benta, que serve bolinho de chuva com café no final da tarde aos filhos, sogras e genros, netos e netas. Estes se despedem e regressam às suas casas, longe dali ou até mesmo perto, mas certamente em ruas mais modernas. A Rua Cotingo é adorável, mas nostálgica. É levemente melancólica e romântica ao mesmo tempo – igualzinha à Tijuca. Por isto nosso amor.

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9 comentários:

Luiz Roberto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leticia Albreche disse...

Morei por ANOS no Geribatu. Amo a Pinheiro da Cunha, crescemos (eu e todas as crianças que ali residiam) na MELHOR rua para se divertir. Como brincávamos ali. Pintávamos a rua em época de copa do mundo, brincávamos de taco, queimado, todos os piques, vôlei.. Ah, como fomos felizes !

Obrigada pela linda reportagem.

Deivid Gonçalves disse...

Fomos felizes demais nessa rua, né Letícia?

Saudades!

Leticia Albreche disse...

Demaaaais !
Saudade, saudade, saudade.

Unknown disse...

Muitas saudades da infância realmente muito bem aproveitada nessa rua... Parabéns pelo trabalho e obrigado por me fazer lembrar de fase tão gostosa da minha vida. Vivemos (quase toda a família) cercados de grandes amigos até hoje (alguns ainda morando nessa rua tranquila e saudosa).

Felipe Vouguinha disse...

Muitas saudades da infância realmente muito bem aproveitada nessa rua... Parabéns pelo trabalho e obrigado por me fazer lembrar de fase tão gostosa da minha vida. Vivemos (quase toda a família) cercados de grandes amigos até hoje (alguns ainda morando nessa rua tranquila e saudosa).

Kelly Cristina Gonçalves disse...

Que saudade que tenho... Morei na Pinheiro da Cunha, tive uma infância maravilhosa, muito vôlei, pique, conversas. Que tempo bom! Meus pais ainda moram lá. Tive muitos amigos inclusive na Cootingo, mas perdi o contato com todos. Lindo trabalho e obrigado por trazer a memoria lindos momentos.

Arte Na Arte disse...

Minha tia morou na pinheiro da cunhapor muitos anos ,onde sempre frequentei ...Rua linda maravilhosa ...Parabens prima pela reportagem que voce postou bjs

Yara Moraes disse...

Morei 51 anos nessa rua maravilhosa, chequei com 02 meses e mudei com 51 anos. Minha filha tb nasceu lá. O nome Geribatu seria o nome da rua, mas o dono da rua o Sr. Antônio Pinheiro da Cunha resolveu colocar o sobrenome. Eramos uma família, todos se conheciam....saudades !!!!!!

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