19 de jul de 2016

Tijuca: um bairro em busca de representação

O espírito "bairrista" foi apontado como parte da representação idealizada que a cidade faz da Tijuca.

No imaginário coletivo do Rio de Janeiro, a Tijuca é reconhecidamente um bairro cheio de ambiguidades. Encravado entre o Subúrbio e a Zona Sul, não há um consenso sobre “o que é” a Tijuca em termos gerais. Devido a essa localização intermediária mal definida, muitos a chamam de “Zona Sul da Zona Norte”, enquanto outros de “subúrbio metido à besta”. Nos anos 1970, Aldir Blanc confirmava um pouco dessa ambivalência ao afirmar que o tijucano passava momentos difíceis num bairro impreciso. Considerado semi-ipanemense pelos suburbanos, e tido como meio suburbano pelos ipanemenses, concluía: “A Tijuca é exatamente isso – meio-não-sei-como”.

Instigado por esse “meio-não-sei-como”, O passeador tijucano perguntou a 189 moradores e/ou ex-moradores do Rio a respeito de que forma a Tijuca poderia ser mais bem representada na opinião deles. O objetivo foi o de tentar identificar de modo um pouco mais claro que percepções a cidade faz a respeito do nosso bairro.

A repercussão foi previsível, mas não menos surpreendente. Para uma melhor apreciação dos resultados, agrupamos as 189 respostas livres em categorias temáticas como uma maneira de se associar as ideias apresentadas cujo conteúdo fosse similar. Do total dos respondentes, mais da metade (58,2%) eram da Grande Tijuca, seguido por 13,2% da Zona Sul, 9% (Zona Norte), 4,8% (Barra e adjacências), 3,2% (área central do Rio), 2,6% (Zona Oeste), 2,6% (Niterói) e, por fim, 6,3% afirmaram ser de outros lugares.

As categorias temáticas percebidas no questionário: a maioria aponta a Tijuca como um bairro prático,

Imbativelmente, a Tijuca foi representada pela maioria dos respondentes como um bairro prático, cômodo e central. Em segundo lugar, vieram as ideias de ser um lugar familiar, de cotidiano doméstico, voltado para o lar. Nas posições subsequentes, atribuiu-se ao imaginário tijucano a imagem da Praça Saenz Peña junto aos conceitos de ser uma comunidade supostamente tradicional/conservadora e bairrista.

COMO OS OUTROS VEEM A TIJUCA 

Por outro lado, quando analisados os dados com base no local de moradia dos respondentes, é interessantíssimo observar os posicionamentos. Para os moradores da Barra da Tijuca e adjacências, a Tijuca foi representada pejorativamente pela maioria. Ideias como “sujeira”, “assalto”, “ruas alagadas” e “periferia” foram apontadas nesse grupo. “Muitos mendigos, prédios pichados e vendedores ambulantes nas calçadas”, apontou um dos respondentes da Barra da Tijuca. “É tão subúrbio quanto o Méier”, disse outro.

Para os moradores da Zona Sul, a Tijuca foi apontada majoritariamente como um lugar tradicional e conservador, mas com dinâmica própria. “Poderia ser um município autônomo”, opinou um dos entrevistados. Outros assinalaram o espírito bairrista atribuído ao arquétipo do tijucano como metáfora do próprio jeito de ser carioca. Da mesma maneira, chamou a atenção menções à ideia de ser um bairro com tiroteio e assaltos, mas com preços mais acessíveis que os da Zona Sul, transmitindo um pensamento de que a Tijuca se equipara àquela região em termos de qualidade de vida.

Já na perspectiva dos moradores de outras localidades da Zona Norte, o estigma da Tijuca como local que se crê emancipado do restante da Zona Norte apareceu com certa preponderância:

— Que ninguém me ouça! Pois o tijucano não se vê como um morador da ZN carioca; isso é reforçado pelos cadernos de imóveis, onde encontramos a ZS, ZN, ZO, Baixada e Tijuca – confidenciou um entrevistado.

Para os moradores do Centro, a Tijuca é associada à uma ideia de bairro na acepção da palavra, que mantém tradições familiares e laços afetivos:

— A primeira palavra que me vem à cabeça ao pensar na Tijuca é “bairro”, pois, das localidades com as quais tenho familiaridade no Rio de Janeiro (conhecimento este restrito à bolha que engloba área central e zona sul), esta é a única que me inspira algo como uma “identidade de bairro”. A Tijuca me parece um lugar que, para seus moradores, não é apenas um nome para determinado aglomerado de vias, mas sim uma região na qual as pessoas que ali vivem, via de regra, sentem-se afetivamente enraizadas – opinou um respondente.


COMO A REGIÃO DA TIJUCA VÊ A SI PRÓPRIA

Metrô: para os tijucanos, qualidade de vida e comodidade são termos representantes da Tijuca

Para os tijucanos e moradores das vizinhanças, a Tijuca é representada num ponto de vista levemente bipolar. Enquanto muitos celebram o bairro como um lugar família, cheio de atrativos e, portanto, digno de orgulho, outros apontam a questão da degradação social como parte indissociável da paisagem tijucana:

“Eu amo a Tijuca porque é um bairro que tem tudo que eu preciso perto e os tijucanos são ótimos vizinhos”.

“Tijuca é uma tribo. Todo mundo de alguma forma se conhece, já se viu, etc. fora que somos os famigerados tijucanos”.

“Tenho orgulho de morar na Tijuca desde pequena. Apesar da violência atual, é um bairro muito bom de morar. Tem tudo perto e é um bairro central para irmos para qualquer região da cidade”.

“Bairro bonito arborizado com praças incríveis onde se encontram velhos, jovens e crianças, farta gastronomia e comércio, opções de transporte. Falar do bairro sempre vai remeter as emoções”.

“Além da Centralidade, a Tijuca tem a característica de possuir uma cultura um tanto ‘provinciana’ (tijucano) sem perder as interfaces com a ‘metrópole’. Ou seja, consegue oferecer no mesmo espaço geográfico os dois ambientes mais valorizados pela sociedade moderna”.

“Pivetes aloprando na rua”.

“Mendigos, pivetes, pivetes de bicicleta, abandono, impunidade, ambulantes em excesso, falta de iluminação, farmácias, e irresponsabilidade sobre o trajeto do metrô”.

“Acho que o bairro tem uma aura muito presente de laços afetivos. Quem cresceu e fez amigos na Tijuca geralmente não se vê morando em outro lugar”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS


O que pode ser percebido a respeito dos resultados foi que, com exceção da figura da Praça Saenz Peña, as ideias que remetem à Tijuca são mais abstratas que concretas. Esse panorama confirma preliminarmente a hipótese de que não existe uma paisagem idealizada da Tijuca, como o senso comum diz existir na Zona Sul ou no Subúrbio. Mesmo tendo a Praça Saenz Peña como “local” citado pelos respondentes (ver Gráfico), deve-se argumentar que tal referência tem mais a ver com o posto de centralidade que a praça ocupa tanto no bairro como na região.

De todo modo, é perceptível ver como a Tijuca é representada pelos respondentes como um lugar “familiar” e pacato, com vida própria de bairro numa espécie de minicentro doméstico. Contudo, evidenciam-se também as contraposições: lugar pacato versus violento, bucolismo versus degradação, entre outros dissensos. Em outras palavras, a Tijuca é de fato algo "meio-não-sei-como", sempre em debate.

2 comentários:

Roberto van Erven disse...

Trabalho sério, equilibrado e bastante oportuno, num monento em que o "viver no Rio" está em discussão. Muito bom. Parabéns ao autor.

Roberto van Erven disse...

Trabalho sério, equilibrado e bastante oportuno, num momento em que o "viver no Rio" está em discussão. Muito bom. Parabéns ao autor.

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