12 de ago de 2016

Tiroteios retornam gradativamente ao cotidiano da Tijuca: prenúncio da falência das UPPs?

Morro do Salgueiro: retomada dos tiroteios supreende moradores do bairro.

Após alguns anos de aparente calmaria, a rotina de tiroteios parece estar voltando gradativamente ao cotidiano da Tijuca. Desde o início deste mês de agosto, episódios do gênero têm chamado a atenção dos tijucanos que residem nas proximidades dos morros do Salgueiro e do Turano, e possivelmente daqueles que residem no próprio morro. O estopim se deu um dia antes da abertura dos Jogos Olímpicos no Estádio do Maracanã, quando se percebeu uma sucessão de disparos bastante ruidosa e, até então, inédita. Já na madrugada de domingo (7), um baile no Salgueiro com o som às alturas tirou o sono de muita gente até as seis horas da matina. Ao longo desta última semana, foram registrados momentos de tiroteio na segunda-feira (8), por volta das 21 horas; terça (9), às 10h30; e hoje (11), por volta das 6h30.

A preocupação de que a política das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) esteja em processo de falência parece só estar ganhando uma maior dimensão por afetar o coração da Tijuca, nas cercanias da Praça Saenz Peña. Entretanto, desde 2015, moradores da Usina já apontavam episódios isolados de tiroteios no Morro do Borel e, desde então, casos como esses têm evoluído. Em março deste ano, um homem morreu durante confronto entre policiais e traficantes no Borel. Em junho, mais dois lamentáveis episódios: no dia 3, houve relato de intenso tiroteio por volta das oito horas da manhã, afetando o trânsito da Conde de Bonfim e as aulas no CIEP Doutor Antoine Magarinos Torres Filho; no dia 30, um adolescente foi morto por policiais ao ser confundido como traficante no mesmo local.

Celebrada pelo Estado do Rio de Janeiro como uma política de segurança pública que prometeria devolver a “paz” aos bairros da capital, as UPPs chegaram à Tijuca em 2010. As UPPs fizeram parte de um pacote de reformas urbanas voltado à preparação da cidade para os megaeventos esportivos. Com o objetivo de se retomar o controle, pelo Estado, de favelas dominadas por poderes paralelos, as UPPs vieram a atender primordialmente as favelas situadas nos bairros mais nobres do Rio e aquelas localizadas em corredores viários estratégicos, como a Linha Vermelha, por exemplo.

Com as UPPs, a Tijuca conseguiu livrar-se momentaneamente do seu estigma de bairro violento no imaginário coletivo, voltando a ser alvo principalmente do mercado imobiliário. O preço do metro quadrado elevou-se, uma nova estação de metrô foi inaugurada (Uruguai), e muitos ex-tijucanos voltaram a residir na Tijuca. As conveniências de um bairro com boa infraestrutura e localização também chamaram a atenção de quem não conseguia mais arcar com os aluguéis e valores exorbitantes da Zona Sul, tornando a Tijuca em local estratégico pelo custo-benefício.



O vídeo acima mostra o período crítico enfrentado pela Tijuca nos anos 1990, quando os confrontos entre traficantes e policiais eram episódios recorrentes no dia a dia do bairro. Imagens gravadas pela extinta TV Manchete.



Passados seis anos, constata-se que as UPPs não evoluíram a ponto de se tornarem uma política social que integrasse as favelas ao tecido urbano e aos serviços públicos da cidade. Elas foram mantidas na marginalidade, centralizando a questão da segurança pública como preponderante. Contudo, houve exceções, como as de algumas favelas da Zona Sul nas mesmas condições de UPP, transformadas em “paraísos turísticos” pela iniciativa privada, fato que ensejou certa dinamicidade econômica a esses locais. Enquanto isso, as favelas da Tijuca e de outros bairros foram apenas protegidas por um cinturão policial que parece estar perdendo força à medida que o próprio Estado do Rio de Janeiro admite seu estado de calamidade pública.

Por fim, é preciso reconhecer que o "fôlego" reconquistado pela Tijuca nos últimos anos, em matéria de investimentos públicos e privados (resultando na renovação de alguns serviços), é atribuído expressivamente a essa "tranquilidade" propiciada pelas UPPs. Havendo um prenúncio de falência dessa política, o que esperar do futuro da Tijuca nesse pós-Olimpíadas, em que provavelmente experimentaremos um período de recessão ainda mais profundo? 

Como parte da minha pesquisa de mestrado no Instituto de Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ) sobre a Tijuca, tenho algumas hipóteses (pessimistas) sobre isto. Prometo comentá-las na próxima publicação.