17 de jun de 2017

Rua Dulce, Rua General Marcelino & Rua Professor Lafayette Côrtes

Praça Babilônia, no entroncamento da Rua Dulce e Rua General Marcelino

A Tijuca é reconhecidamente um bairro urbano e caótico, mas que tem o privilégio de ainda resguardar verdadeiros oásis. Quem costuma passar pela Rua Almirante Cochrane e está pouco familiarizado com a cartografia da região, por exemplo, dificilmente poderia imaginar que bem ali se descortina um desses paraísos. O palpite duvidoso se deve à imagem meio esquisita que se tem do acesso para a Rua Dulce, pouco antes do atual Supermercado Guanabara (extinto Walmart). Isto porque se trata de uma rua com cara de viela malcuidada e meio sombria o portal de entrada para uma espécie de cidadela à parte, charmosa e muito, mas muito bucólica.

Esse pequeno paraíso de que lhes falo compreende as ruas Dulce, General Marcelino e Professor Lafayette Côrtes, incrustadas nos fundos do Colégio Militar e coladas à belíssima Pedra da Babilônia. A proximidade desta grande rocha com as residências que loteiam a vizinhança faz deste cantinho da Tijuca uma espécie de Urca na Zona Norte. Principalmente porque toda a arquitetura dali inspira o glamour decadente dos anos dourados que também perfila as edificações daquele bairro da Zona Sul. Os prédios de pouco pavimentos sem elevadores e os muros baixinhos das casas resistem como se os tempos ainda fossem outros. Tudo cheira à vida, temperada por uma explícita ambiência familiar que tanto particulariza as ruas residenciais da Tijuca.

Para começar, só há uma entrada e uma saída: a primeira se dá pela Almirante Cochrane e a última pela Rua São Francisco Xavier. Logo, quem entra pelo sentido do tráfego de veículos, após o trecho horripilante de aproximadamente 100 metros confrontado por duas grandes fachadas inativas, depara com a primeira surpresa: a Praça Babilônia. Inaugurada nos anos 1980 com dinheiro arrecadado em festas juninas realizadas pelos próprios moradores, a Praça Babilônia se situa no entroncamento das ruas Dulce e General Marcelino. Bem conservada, cumpre a missão de ser o ponto de encontro para a diversão de toda a molecada que reside na vizinhança. Mas, há quem também aproveite os bancos para tomar um pouco de sol, com vista indevassável para a Pedra da Babilônia, “xará” da praça.

Rua General Marcelino, esquina de Dulce.

Muros baixos caracterizam a Rua Dulce

Uma amostra do estilo dos imóveis à Rua Professor Lafayette Côrtes 

Rua General Marcelino: um belíssimo edifício com detalhes em verde-chá.

A Rua Dulce é sem saída e combina tanto edifícios de três a quatro pavimentos como algumas poucas casas no lado par da via. Placas e adesivos de “vende” e “aluga-se” fixados às janelas são bastante recorrentes na Rua Dulce, enquanto na Rua General Marcelino a disputa por um imóvel parece ser mais concorrida. Há quem diga na vizinhança que os apartamentos por ali, principalmente na Rua Professor Lafayette Côrtes, chegam a pertencer a uma mesma família por gerações. O clima de tranquilidade que impera no local associado ao estilo antiguinho e aburguesado das edificações pode aparentemente ser um fator de permanência. Mesmo com a violência – assaltos e ações criminosas certamente não devem passar longe desse oásis –, ruas como estas continuam valorizadas na Tijuca e em toda a cidade do Rio de Janeiro.

RESIDÊNCIAS TOMBADAS E O EDIFÍCIO CIBRASIL

É de pouco conhecimento público, mesmo entre os tijucanos mais fervorosos, que no encontro da Rua Professor Lafayette Côrtes com a Rua General Marcelino se situa uma das mais joias raras arquitetônicas desta cidade: O Edifício Cibrasil, localizado no número 156 daquela. Apelidado de “Castelinho”, é um daqueles prédios de deixar qualquer um babando pela beleza, garbo e imponência. A fusão entre um estilo neoclássico e outro eclético impresso à edificação remete aos anos de 1940, mas segundo dados do livro "Tijuca, de rua em rua" (Editora Rio, 2004), ele só foi finalizado mesmo na década de 1950. Foi, portanto, um dos primeiros prédios da Rua General Marcelino, aberta por decreto de 11 de setembro de 1947 quando ainda era um imenso matagal.

Os "bigodes bem penteados" do Edifício Cibrasil, vulgo Castelinho

O Edifício Cibrasil dispensaria descrições se não fosse a missão de O PASSEADOR TIJUCANO apresentar e reapresentá-lo a todo o público leitor deste blog que se interessa pela Tijuca, sua história e evolução urbana. Neste sentido, é interessante destacar que não apenas o Edifício Cibrasil – vulgo “Castelinho” –, mas todos os outros edifícios existentes nessas ruas representam um marco importante da evolução social da Tijuca. O estilo aburguesado dos imóveis, tal como qualifiquei algumas linhas acima, alude a um período de transição lenta e gradual em que a Tijuca vinha modificando seu perfil social mais dominante.

O intervalo que vai de 1930-1950 é bastante característico da fase em que a Tijuca consolida sua imagem vinculada ao imaginário de uma classe média abastada para um bairro fora da orla. O capital simbólico dos tempos aristocráticos, entretanto, se perpetuou nos hábitos e nos padrões de moradia dessa então novata classe social, que procurava reeditar um estilo de vida inspirado na Tijuca “chique” dos tempos da nobreza imperial. E o Edifício Cibrasil é uma prova, no presente, de como estes gostos foram moldados e materializados na arquitetura dali. Segundo informação de uma moradora do prédio, o edifício foi levantado por um próspero construtor para moradia própria, revendendo os outros apartamentos como retorno do investimento. Na Rua General Marcelino, foram erguidos outros dois edifícios pelo mesmo dono e nomeados de Cibrasil II (49) e Cibrasil III (61). Contudo, não são tão bonitos quanto o original.

Os azulejos em sintonia com arabescos: toque lusitano à Tijuca (2013).

O hall de entrada do Edifício Cibrasil: detalhe do corrimão.

É difícil não se embasbacar com a beleza do Cibrasil. A entrada é ornamentada por um portão elegante, de ferro, com detalhes dourados que lembram o formato de bigodes bem penteados. Essa parte da entrada se assemelha a uma torre, com arabescos na fachada sobre o portão, além de um vitral que se estende até o seu topo. Os espaços dentro dos arabescos são preenchidos por azulejos floridos, dando um aspecto bem lusitano ao conjunto. Para completar, lá em cima, no telhado circular, resplandece um galo moldado em chapa de ferro com bico apontado para o céu, como se estivesse cantando ao amanhecer.

Tanto por dentro como por fora, predominam tons de um matiz acinzentado, meio pálido, que atenuam o impacto visual das pequenas descaracterizações aplicadas à fachada – como, por exemplo, a colocação de grades e aparelhos de ar condicionado. Fazendo jus ao charme que lhe é indiscutivelmente peculiar, o sóbrio hall de entrada do Cibrasil possui um quadro estampando uma fotografia do prédio e escadas cujo corrimão é todo trabalhado em formas que remetem aos próprios arabescos da fachada.

O Edifício Cibrasil é preservado graças ao decreto de número 12.864, de 29 de abril de 1994, que instituiu a região como Área de Proteção do Ambiente Cultural (APAC) do entorno do Colégio Militar. Esse decreto também tombou a Pedra da Babilônia e preservou alguns outros imóveis, protegendo o ambiente urbano tanto dali como de ruas situadas no outro "lado" da Pedra, a exemplo das ruas Pareto e Deputado Soares Filho.

Panorama da Rua Professor Lafayette Côrtes 

Rua Professor Lafayette Côrtes 89: preservado pelo decreto da APAC do Colégio Militar.

Pedra da Babilônia e a Rua General Marcelino

Rua Professor Lafayette Côrtes (2011)

Rua General Marcelino (2011)


Imóveis preservados pelo Decreto número 12.864, de 29 de abril de 1994:

Rua Dulce
Lado ímpar: 175, 191, 207, 225, 243
Lado par: 40, 70, 128, 138

Rua Professor Lafayette Côrtes
Lado ímpar: 89, 105, 127, 155, 181, 241, 271
Lado par: 34, 46, 58, 70, 84, 98, 100, 120, 134, 156


RELATOS DE MORADORES: A MEMÓRIA AFETIVA DE QUEM VIVEU O ESPAÇO

Esta não é a primeira vez que escrevo sobre este conjunto de ruas na Tijuca. A primeira vez foi em 2011, quando ainda publicava textos no blog AS RUAS DO RIO, que, mesmo inativo, ainda está disponível para leitura no website da revista Veja Rio. Na segunda ocasião, já para O PASSEADOR TIJUCANO, comentei sobre o inusitado fato de o Edifício Cibrasil ter sido reproduzido em um croqui no livro “A Alma do Rio”, de Cynthia Howlett, lançado no final de 2013. Nesse ínterim, muitos foram os e-mails e comentários que recebi com depoimentos públicos sobre as memórias da vizinhança. Selecionei alguns deles:

Tive a felicidade de, em 1980, conhecer três rapazes que moravam na Lafayette Côrtes e eu morando em São José dos Campos. Em 1981 fui parar na Tijuca de tanto que eu fui passear nas casas deles e adorava aquele bairro! Eles moravam num prédio, o de número 127, construído pelo avô de um deles, que tem a imagem de Santo Ivo, feita com azulejos portugueses logo na entrada do prédio, que tem quatro andares e não tem elevador. Ai, ai, ai... voltei lá esse ano e a idade pesou dessa vez! (risos). 
Um dos meninos ainda mora lá, com os pais, a esposa e a filha, todos no mesmo apartamento, uma coisa bem peculiar desde aquela época, quando os jovens, mesmo já tendo seu emprego, seu estudo, não saíam da casa dos pais. E mesmo depois de tantos anos, muitos parentes dos meus amigos ainda moram naquele prédio, como o filho de uma amiga, o irmão do outro etc. O apartamento é da família, não foi vendido e foi passado para a geração futura, sem se preocupar em fazer reformas, mudar a "cara" do prédio (aliás, todos estão iguaizinhos desde quando estive lá pela última vez!). 
Não tínhamos problemas com segurança, íamos para as noitadas e voltávamos de madrugada, sem a preocupação de encontrar alguma surpresa pelo caminho ou em casa. Tinha festa junina na rua, onde todos os moradores colaboravam com algum acepipe, tinha quadrilha e até cadeia, além do correio elegante, é claro! Mesmo sendo adolescentes, gostávamos desse convívio com os vizinhos, que conhecíamos todos pelo nome, nos cumprimentávamos na rua. Bom, você sabe que a Tijuca é o único bairro que tem a sua naturalidade, ou seja, o carioca que nasceu na Tijuca não é apenas carioca... ele é tijucano!

Joana Darc de Oliveira, 11 out. 2013 (por e-mail)

Caro Pedro Paulo, 
Morei na Lafayette por mais de três décadas e ainda tenho relação com aquele recôncavo até hoje, pois minha mãe e muitos amigos ainda moram lá. 
Seu pedido, ao mesmo tempo que é fácil, também é difícil de retratar face à enorme quantidade de histórias e das particularidades que vivemos naquele período. Só para você ter uma ideia, éramos mais de 150 jovens convivendo diariamente e de quatro gerações diferentes. Imagine o que não há para se dizer de tudo isso. 
Naquele pedaço tinha campeonato de futebol, de jogo de botão, de futebol totó, festa junina (considerada por muitos a melhor da Tijuca!), jogo de cartas, xadrez, taco, vôlei e o que mais você possa imaginar.
Antonio Jorge Faria, 11 out. 2013 (por e-mail)

Nasci e fui criada na Rua Dulce, onde morei até os 13 anos, quando mudei para MG. Minha família ainda possui o apartamento no fim da rua e todo ano vou visitar. Quando entro no beco da Rua Dulce, meu coração até dispara, muitas lembranças boas. Valeu pela reportagem, inclusive li comentários de amigos da infância tão feliz!!!
Maria Inez Pedrosa Machado, 24 nov. 2015 (seção de comentários – AS RUAS DO RIO)

Um comentário:

Daniel Nadi disse...

Esse pedacinho da Tijuca semore foi o meu sonho de consumo. Se os imóveis em outras regiões do bairro já estão altas, imagina nesse oásis. Vai ficar no desejo e nos passeios. Abraços!

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