2 de jul de 2017

Rua Coronel Aristarco Pessoa & Rua Rocha Miranda

Panorama da Rua Rocha Miranda, em primeiro plano, e da Rua Coronel Aristarco Pessoa, em segundo

Já se vão pouco mais de seis décadas desde que uma das mais simpáticas ruas da Usina, a Itabira, passava a ser oficialmente denominada como Coronel Aristarco Pessoa em tributo àquele comandante do corpo de bombeiros do antigo Distrito Federal brasileiro. O ano era 1951; mês, agosto (1).

Desde então, muita água rolou.

A Usina perdeu representatividade na cartografia e no imaginário carioca, salvo pela sua presença nos letreiros de alguns ônibus que circulam pelo Rio. Já não é mais caminho dos bondes que subiam o Alto da Boa Vista, embora ainda seja possível avistar os seus antigos trilhos interrompidos por algum ou outro pedaço de calçada colocado por cima. Já não tem mais a grande elite como classe majoritária, mas as belíssimas residências construídas por esses nobres e burgueses de outrora continuam por lá, paradinhas no tempo, imponentes.

Para quem não conhece, a Coronel Aristarco Pessoa é uma ruazinha estritamente residencial localizada próxima ao Largo da Usina. Os tradicionais fuscas-táxis, que só existem na Usina (note bem: em todo o Rio de Janeiro, eles permaneceram apenas na Usina!), fazem ponto justo ali, na esquina desta com a Avenida Edson Passos. As mototáxis também marcam presença no local e, junto a esses fusquinhas, representam uma opção alternativa e econômica para quem não pretende subir a pé as grandes ladeiras da região. É preciso fôlego. A Rua Rocha Miranda, transversal e vizinha à Rua Coronel Aristarco Pessoa, que o diga. Ambas as ruas se contrastam nestes termos: enquanto naquela impera a ladeira, a outra se apresenta por meio de um suave declive, dando as boas-vindas a quem lhe acessa pelo Largo da Usina.

Vista exuberante para o Maciço da Tijuca

O fusca-táxi da Usina: patrimônio carioca

Bucolismo à Rua Coronel Aristarco Pessoa.

A principal qualidade desta região, eu diria, é a quantidade de verde. Não é preciso ir ao topo da Rua Rocha Miranda para se desfrutar de uma vista tímida, mas espetacular das montanhas da Usina. Para quem não se simpatiza com as favelas, elas não aparecem no cenário – apenas muitas árvores, rochas, árvores, árvores e mais árvores estão enquadrados naquele panorama, portanto, belíssimo da Zona Norte. Em épocas de maior umidade e de baixas temperaturas, chega-se a ver até mesmo o deslize da água das chuvas escoando pelas rochas. Uma das visões mais emblemáticas, restauradoras e agradáveis deste trecho da Tijuca.

Aqui, abro um rápido parêntese para endossar que o clima bucólico e ligeiramente conservador de ambos os logradouros é exatamente verossímil às impressões de Joel Silveira, repórter da Revista O Cruzeiro (24 jul. 1943), sobre o nosso bairro:

"A Tijuca é assim como uma velha família mineira: tudo no seu passado é limpo, tudo no presente é claro sem discussões. Os homens ganham tranquila e honestamente a vida. Há os mesmos retratos de anos atrás na sala de visitas, a mesma cadeira de balanço de jacarandá, onde avós de ontem repousaram e onde os netos de hoje brincam de cavalo".

Nas ruas Coronel Aristarco Pessoa e Rocha Miranda, o estilo da arquitetura transparece muito bem esse jeito ancião dos confins da Tijuca ainda resistente neste princípio de século XXI. Tem-se, ali, a fisionomia clássica da casa dos avós, cujos filhos e netos devem passar apenas como visitas porque provável e decididamente preferem residir em cantos menos provincianos do que estes. Contudo, há um elemento moderno destoante nesta paisagem tão tradicionalista: um campo de paintball. A entrada sóbria para o campo do Paintball Usina não se compara, entretanto, ao intemperante comportamento das crianças e adolescentes que, efusivos, visitam o local.

Zona estritamente residencial na subida do Alto da Boa Vista

Rua Rocha Miranda

O trecho final da Rua Coronel Aristarco Pessoa

Voltando à Rua Coronel Aristarco Pessoa, dirijo-me ao seu final, que dá para um muro coberto por plantas. Não há saída. Tudo é muito silencioso, exceto pelo ruído mais ou menos intermitente do motor berrante dos fuscas e das mototáxis. E dos entregadores de pizza, também. E em meio a tantas casas, a única construção mais verticalizada e multifamiliar fica ali, no final da rua, o prédio de número 203. O clima de aconchego da vizinhança não se perde com ele; pelo contrário. O jardim que margeia a portaria é de uma simplicidade bela e suficiente para ornar ainda mais toda aquela Mata Atlântica que abraça tanto a rua, como o vale da Usina da Tijuca. Tudo está em aparente equilíbrio.


RUA ROCHA MIRANDA 53: A CASA ZUZU ANGEL

É destaque no local o imóvel situado à Rua Rocha Miranda 53, mais conhecido pela alcunha de “Casa Zuzu Angel”. Original do início do século XX, ele está para a Rua Rocha Miranda assim como o Edifício Cibrasil está para a Rua Professor Lafayette Côrtes, n’outro extremo do bairro da Tijuca. A imponente casa é propriedade da jornalista Hildegard Angel, filha da famosa e mitológica estilista Zuzu Angel, quem leva o nome da iniciativa lançada pela proprietária para transformar o local no futuro Museu da Moda.

A imponente casa da jornalista Hildegard Angel, à Rua Rocha Miranda 53: joia da arquitetura tijucana.

O imóvel possui estilo eclético com sala rococó, salas, banheiros, corredores e cozinha com azulejos de várias épocas e estilos nos quais predomina o art nouveau. Segundo informações institucionais fornecidas pela Casa Zuzu Angel, “seu belíssimo jardim e pátio externo já receberam personalidades da moda como Oscar de la Renta e Hubert de Givenchy”. A casa é uma das tantas joias arquitetônicas da Tijuca e passa por um projeto de restauro desde 2014. Paralelamente, abriga o acervo da falecida estilista e encontros mensais com pesquisadores, profissionais e interessados em compartilhar conhecimento e reflexões sobre pesquisas relacionadas a acervos, memória e patrimônio de moda no Brasil.

Os muitos e místicos rococós: a casa data do final do século XIX

Detalhe dos variados azulejos

De acordo com reportagem veiculada no caderno "Tijuca", de O Globo, em 1989 (18 jul.), Hildegard Angel afirmou ter comprado a casa em mau estado de conservação em meados daquela década e não poupou esforços para remodelá-la. Dentro do imóvel havia pelo menos três grandes vitrais não muito bem preservados, tendo um deles aproximadamente 10 metros quadrados. Com fins de recuperá-los, a jornalista contratou o mesmo restaurador de vitrais que, tempos antes, havia remodelado os vitrais da paróquia Bom Pastor, aqui mesmo no bairro. Na matéria, Hildegard comenta que o vitral "emprestava um ar místico à casa", aspecto que já se percebe na própria fachada pomposa e cheia de elementos religiosos.

A fachada, aliás, por si só já é um deleite para os pedestres que, direto do espaço público, podem contemplar tamanha beleza à espera, um dia, quem sabe, de convite para uma xícara de café. Um dedinho só de café, ali no jardim, junto à quaresmeira, vendo esses vitrais de perto, fotografando cada detalhe, cada centímetro dos azulejos. Um dia, quem sabe, adoraria, não seria muito incômodo, em nome da Tijuca, em prol dela... (Enquanto a casa ainda não se torna aberta ao público, resta-nos conhecê-la - e seu projeto por inteiro - por meio da Astorga Arquitetura e Restauração, encarregada de remodelá-la: https://www.astorgaarquitetura.com/casa-zuzu-angel).

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(1) Diário de Notícias (O Matutino de Maior Tiragem do Distrito Federal), quarta-feira, 1º ago. 1951, p. 3:

CEL. ARISTARCO PESSOA - No próximo sábado, às 10 horas, serão substituídas as antigas placas da rua Itabira, na Tijuca, há pouco denominada rua Coronel Aristarco Pessoa, numa homenagem da Municipalidade carioca ao antigo comandante do Corpo de Bombeiros. O ato contará com a presença de amigos do antigo comandante, do prefeito João Carlos Vital e do atual dirigente do Corpo de Bombeiros, coronel Sadock de Sá.

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