1 de out de 2017

"Tijuca- bairro sem mistério" (Revista O Cruzeiro, 24 jul. 1943)

Reportagem publicada na Revista O Cruzeiro realiza uma leitura poética da Tijuca dos anos 1940

O que faz da Tijuca um bairro sem mistério? Para o repórter Joel Silveira, a explicação seria a de que a Tijuca não usa "máscaras": um lugar cujo "passado é limpo" e seu "presente é claro e sem discussões". Um bairro sério, de vida digna, de pessoas que trabalham muito a vida inteira para desfrutar honestamente dos seus próprios rendimentos no futuro. Mais do que isso, uma Tijuca que, mesmo na mudança mais insólita de sua paisagem, de arranha-céus e andaimes perdidos entre as chácaras oitocentistas, a Tijuca que se "esvaía no turbilhão!", conservava o que havia de melhor em sua essência. Uma essência natural, uivada dos ventos da floresta.

Intitulada "Tijuca - bairro sem mistério", a reportagem que compartilho hoje com os leitores de O PASSEADOR TIJUCANO foi publicada em 24 julho de 1943 na extinta Revista O Cruzeiro. Este texto é um importante exemplar sobre o lugar ocupado pela Tijuca no imaginário do Rio de Janeiro nos anos 1940 e o modo como as sociabilidades daqui se desenlaçavam no nosso cotidiano. Vale destacar que se trata de uma leitura bastante segmentada sobre o dia a dia da elite local, em suas domingueiras no Tijuca Tennis Club muito bem recepcionadas pelo doutor Heitor Beltrão, presidente do clube e figura ilustre do bairro.

A perspectiva dominante é tão marcada nesse texto que a justificativa dada pelo repórter sobre a presença incômoda do Morro do Salgueiro no bairro é contemporizada pela relação separatista de que o Salgueiro estaria para a Tijuca, assim como Madureira estaria para Copacabana. Ou seja, dois mundos antagônicos e socialmente distantes, independentes. E vai além, sugerindo um discurso remocionista que, se não fosse pelo ano de 1943 datado nas páginas da revista, poderíamos facilmente considerá-lo contemporâneo aos grupos reacionários de hoje: "Tirem o Salgueiro da Tijuca, asfaltem o seu lugar vazio, façam dele uma praça - e a Tijuca continuará como sempre, a mesma família numerosa, os mesmos quadros na sala da frente, as mesmas varandas e os mesmos canários".

De mais a mais, é muito interessante observar as imagens publicadas nas páginas de O Cruzeiro. Muitas delas exibem paisagens inéditas, tais como as do burburinho à porta da emblemática Confeitaria Tijuca (onde hoje se localiza as Lojas Americanas da Praça Saenz Peña) e o passeio de estudantes à nascente do Rio Trapicheiros, mais especificamente no alto da Rua Sabóia Lima, onde hoje está a Praça Hans Klussmann, aquela dos bichinhos.


Revista O Cruzeiro, 24 jul. 1943

Tijuca- bairro sem mistério

Reportagem de Joel Silveira 



A Tijuca é assim como uma velha família mineira: tudo no seu passado é limpo, tudo no presente é claro e sem discussões. Os homens ganham tranquila e honestamente a vida. Há os mesmos retratos de anos atrás na sala de visitas, a mesma cadeira de balanço de jacarandá, onde avós de ontem repousaram e onde os netos de hoje brincam de cavalo.

Surgiram diversas invenções. Os homens não mandam mais bilhetes nem telegramas: falam pelo telefone. As mulheres encurtaram os vestidos. Agora, as mocinhas podem andar a sós, apenas acompanhadas pelos namorados. Há muita luz de noite, os cinemas são coloridos e, aqui e ali, há qualquer arranha-céu ousado, perdido de encontro à paisagem como uma coluna de cimento.

É tolice a gente olhar dos lados, ver o Salgueiro à nossa esquerda, ver as robustas montanhas à nossa frente, e pensar que tudo aquilo são mistérios do Senhor. Não há mistérios na Tijuca, como não há mistérios numa família uniforme, uma família que nunca teve nada de excepcional, apenas uma coleção de cavalheiros e senhoras domésticos. As montanhas podem ter seus bosques, suas cascatas - mas são bosques que nos convidam e nos afagam, como abraços. As cascatas despencam puras e cristalinas, inofensivas cascatas sem pororocas, que estão ali por enfeite e, principalmente, para servir de fundo aos retratos que a gente costuma mandar para o Norte e para as pessoas queridas de Pati do Alferes.



Na Praça Saenz Peña erigiu-se o bairro cinematográfico. Nada menos de quatro luxuosos cinemas foram construídos e possuem grande frequência. Não obstante, a Praça Saenz Peña conservou até hoje, no centro do jardim, o seu interessante guignol, encanto da gurizada de todas as idades. Aos domingos, de tarde, os bancos ficam cheios e o "drama" desenrola-se no teatrinho, segundo a técnica de rigor. 



Quando o bosque desce todas suas curvas e penetra, de súbito, na planície de baixo, é necessário convir que muita coisa mudou. As ruas estão asfaltadas, são agora estradas negras com prédios de apartamentos espremendo-se em chácaras entulhadas de crotons. Mares de luzes salpicam as portas dos cinemas, onde louras fabulosas e inacessíveis se inutilizam nos ditosos braços dos moços simpáticos. As ruas são de sombras e da tranqulidade, mas desembarcaram ali no rio Haddock Lobo ou no rio Conde de Bonfim, rios medonhos, onde os barulhos, os gritos e os automóveis nadam o dia inteiro, como peixes.

Aquilo é a presença de alguma coisa que veio lá de baixo. Uma coisa que saiu de muito longe, passou por entre o Pão de Açúcar e as montanhas de Niterói, encheu a cidade, se espraiou como uma onda. É o caminho do tempo. Posso imaginar a cara daquela chácara, perdida numa floresta, quando o primeiro alicerce suspendeu os andaimes até lá em cima, até o décimo. É como se alguma coisa de muito sólido houvesse desabado. Velhos funcionários públicos, morosos e flácidos com gatos, terão murmurado de suas varandas:

 Lá se vai a Tijuca no turbilhão!

"A calçada das confeitarias elegantes depois das 10 horas da noite", dizia a revista


COLCHA DE RETALHOS

Mas a verdade é que a Tijuca não se foi. Os edifícios se multiplicaram, o rio Haddock Lobo se encheu de mais peixe e o rio Conde de Bonfim é um oceano vertical. Mas a Tijuca não se perdeu no turbilhão.

Agora nós vemos os arranha-céus, vemos as mocinhas dansando nas matinês e nas matinais do Tijuca Tennis Clube. São coisas que estão deante de nós, coisas que não poderemos deixar de ver. Mas nada ali morreu. Presença maior, mais definitiva, presença total continua a ser a das chácaras, dos crotons, dos funcionários e das varandas. A Tijuca, com asfalto, telefone, gaz neon, mobílias coloridas nos terraços, ainda é o que sempre será: uma numerosa família onde todos se conhecem e todos se estimam. Vejam o sr. Heitor Beltrão brincar com as moças e os rapazes de seu clube: ele não fala com desconhecidos. Aquela é gente de uma só família: o rapaz moreno que flerta com a loura, a adolescente que mergulhou n'água como um peixe elástico, o rapazinho que começa a imaginar o seu primeiro bigode. É gente ali da Tijuca, gente das montanhas, gente dos dois grandes rios. Peguem Heitor Beltrão e metam ele em Copacabana. Ou mesmo no Flamengo, tomando banho de sol e presidindo as festas do clube local. Não dará nada da mesma que maneira que um paulista ficará sem solução numa feira livre do nordeste.

É coisa apressada a gente pensar que a alegria da praça Saenz Peña é a mesma da praça Serzedelo Correia, em Copacabana. Este Rio é muito grande, grande como um mundo, e nós o chamamos, de um modo geral e simplista, de "alegria carioca", não passa de uma imensa colcha de retalhos, muito colorida e muito desigual. Alegrias, anedotas e tristezas descem de todos os recantos, dos bairros e dos subúrbios, e só se esfarelam e se misturam na cidade. Por causa disso é que a rua Dias da Cruz tem mais personalidade do que a Avenida Rio Branco.

A CAPITAL É COMO UM DOMINGO

Agora a Tijuca tem a sua capital: é a praça Saenz Peña. Ali está o resumo da cidade chamada Tijuca. Suas retretas muito mineiras e domésticas, seus cinemas muito bonitos, porque a Tijuca quer avisar a todos que é um lugar que não precisa da cidade para suas necessidades. Para a capital chega o que há de melhor: os melhores vestidos, os melhores sorrisos, os melhores ternos, as melhores alegrias e os melhores penteados. A capital é como um domingo, pois é sabido de todos que o domingo é a capital da semana. A Tijuca pode se orgulhar disso: ela possui o seu domingo total. Isso é muito importante. O domingo em Copacabana, por exemplo, se resume num pedaço de tempo que vai das oito da manhã a uma da tarde: então os homens e as mulheres se estiram na praia, queimam os corpos debaixo do sol, as senhoritas mostram seus "maillots" e os rapazes exibem seus músculos. Chega a tarde e Copacabana se inutiliza. À noite, é a fuga para os cinemas da cidade e para os cassinos. Os bandos, que vagueiam pelos bars, é fauna exótica, que chegou fugida de outros cantos.

Praça Saenz Peña, em primeiro plano, e o Metro Tijuca, em segundo: bairro cinematográfico.

O domingo tijucano é um domingo cheio. O clube do sr. Heitor Beltrão escancara suas portas logo cedo. Há gente na piscina, nos campos gramados, nos salões de bailes. Há gente nas varandas lendo os matutinos, e cada varanda, cada apartamento estão agora repletos dos telegramas aflitos da guerra e da literatura, dos suplementos cada vez mais fraquinhos. Ninguém desce para a cidade, como uma fuga.


No entretanto, a Tijuca conservou o seu aspecto tradicional, e o clima do "bairro" em todo o seu encanto. O sentido do clube existe com muita intensidade. Congrega as famílias das vizinhanças nas suas festas, onde a juventude pratica esportes e se inicia na vida social. A piscina do Tijuca Tennis Clube possue sempre grande movimento e seus nadadores, bem exercitados por instrutores, brilham nos campeonatos da cidade.



Há retreta à tarde, há retreta à noite. E há os cinemas, ali mesmo, cada porta como um arco-íris, iluminando a capital Saenz Peña. Cinelândia, centro de cidade, tudo ali misturado. Aquilo não é somente um bairro, não tem nada de subúrbio. É uma cidade diferente, com uma personalidade de ferro, que resistiu ao asfalto, ao chicle, à praia e a Hollywood. E ainda nisso ela é coerente, pois que cada família que se presa tem o seu orgulho próprio, um orgulho particular que se repete e se pormenoriza para as visitas. O orgulho da família é este, que ela diz em voz alta:

 Vejam bem que eu não uso máscara.


O SALGUEIRO É UMA EXCEÇÃO

Poderão dizer que o Salgueiro é uma exceção. Mas é uma exceção porque se trata de um morro. Morro é coisa que não se identifica com coisa alguma. Fica sempre boiando dentro da paisagem, assim como uma gota de mercúrio dentro de uma peça d'água. Os morros são uma paisagem espalhada. Eles estão aqui e ali, na praia e no subúrbio, nos bairros e na própria cidade. Mas vivem sozinhos, com sua vida próprio, e o Salgueiro está para a Tijuca como Copacabana está para Madureira.

Lá no alto, quase que ele passa despercebido. Tirem o Salgueiro da Tijuca, asfaltem o seu lugar vazio, façam dele uma praça - e a Tijuca continuará como sempre, a mesma família numerosa, os mesmos quadros na sala da frente, as mesmas varandas e os mesmos canários. Tudo sem mistério, tudo muito simples, nem meandros, longe do turbilhão.

Debalde quaisquer garotas, mais impulsivas, tingirão seus corpos com o sol artificial do iodo. Continuarão sendo tijucanas, porque com elas morará sempre essa tranquilidade que não é artigo fabricado, é artigo que nasceu com a Tijuca, que impregna, ali, suas montanhas e sua gente.

"Na hora do almoço, os terrenos sombreados da represa do trapicheiro ficam cheios de vozes risos".

ISSO É BONITO

Tem razão a mocinha de nome Edith quando me diz:

 Não precisamos ir à cidade. Fazer lá o quê? O que fazemos lá, podemos fazer aqui.

Tudo: compras, passeios, cinemas, flertes, retretas - e tudo dentro daquele ar acomodado, daquele conforto de chácara, tudo muito natural e muito humano, nada "ersatz". Invariavelmente, os namoros tijucanos de mais de seis meses acabarão em casamento. É fatal. Vocês já pensaram no formidável depoimento que, sobre o assunto, nos poderia dar o dr. Heitor Beltrão? Deante do seu desvelo e do seu entusiasmo, de sua voz de bom orador e de sua inteligência objetiva de jornalista, já desfilaram gerações e gerações de tijucanos. Ele poderia nos dizer, por exemplo, que muito namoro inocente, entre uma matinal e um banho de piscina, acabou rendendo muito e se transformou, mais tarde, em união feliz. A figura não inspira aventuras. O tipo da senhorita fatal, entre aquelas montanhas e aqueles jardins de feira de amostra, não encontra ar para respirar nem sombras para agir. A Tijuca é séria, muito digna, como esses senhores que trabalhavam muito, a vida inteira, e que hoje vivem, honestamente, dos seus rendimentos. E isso é muito bonito.

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